sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A "desgraça" por anunciar



Já toda a gente está a contar com um cenário no mínimo "cinzento" para os próximos tempos. Talvez grande parte das más notícias já se encontre descontada pelos mercados e por cada um de nós.
Mas parece ainda faltar um anúncio, uma má notícia por dar.

A China tem crescido a taxas perto de 10% nos últimos anos. Alguns analistas têm avisado que a economia chinesa já está a desacelerar, a ponto de este ano crescer "apenas" 7%. Infelizmente parece ser uma previsão optimista. A China pode já ter mesmo "parado" e a situação ser bem pior do que se diz. Alguns economistas "no terreno" têm dado conta do encerramento de muitas empresas, diminuição brusca do
consumo privado, mercado imobiliário em queda de 20% a 40%, excesso de stocks de matérias primas e queda de 30% no consumo de carvão nas centrais térmicas de produção de energia. Se a isto juntarmos a recente actuação do banco central e o excesso de navios nos portos, vazios e sem carga para transportar, temos razões para pensar que falta anunciar esta "desgraça" - o grande motor da economia mundial dos últimos anos já parou!

A crise só poderá "bater no fundo" quando todas as más notícias forem divulgadas. Até lá há que ter muita paciência e sangue frio. As empresas devem estar atentas à deterioração do seu ambiente operacional e que consequências isso terá na sua situação financeira. O nível de endividamento actual poderá ser adequado hoje, mas o mesmo pode não acontecer daqui a alguns meses. E nessa altura não é certo que a banca possa ter a liquidez necessária para emprestar a todos os que dela necessitam.

Filipe Garcia
Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 31 de Outubro de 2008 (pág. 9)


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ver o Mundo

Ele, o burro e ela participam numa grande celebração conjunta em Nagorno Karabakh. Pretende-se que o "sim" ecoado em coro por 700 casais seja suficientemente encorajador para que outros se decidam. Estes casamentos, patrocinados através de ajuda financeira e apoios animais, têm como grande objectivo o crescimento da população - um desafio cada vez mais difícil de superar no Ocidente. E nós por cá, como vamos equilibrar as contas da pirâmide etária? A taxa de natalidade não nos parece uma ameaça real?
Foto: Reuters/You Witness News/Inna Mkhitaryan

E se estivéssemos fora do EURO?



Não se trata de futebol, mas a discussão é igualmente competitiva. E se Portugal não tivesse entrado na moeda única? Por onde andam agora os opositores ao euro? Porque não aparecem a louvar as virtudes de uma moeda própria e a independência total do Banco de Portugal?



Quando no final do século passado se listavam as vantagens da União Monetária, poucos valorizavam o facto de as economias mais pequenas passarem a estar mais defendidas de ataques especulativos às moedas nacionais e de, no seu conjunto, os respectivos sistemas financeiros ficarem mais "aconchegados" e defendidos. Ao fazer parte de um conjunto alargado de economias e tendo um regulador de maior dimensão, Portugal passou a ter uma posição mais segura e estável. Nos dias que correm esse estatuto é crucial para que o país continue, apesar de tudo, numa situação estável e sem convulsões económicas ou sociais.


Basta olhar em redor para perceber que se Portugal não estivesse no euro, hoje a taxa de juro não estaria a 5%, mas talvez nos dois dígitos. O escudo estaria muito desvalorizado e um litro de gasolina talvez custasse o dobro dos actuais 260$ (1.3 euros). O FMI já interveio, ou vai intervir brevemente, na Islândia, Hungria, Ucrânia, e outros podem seguir-se. A economia portuguesa não é substancialmente diferente das que hoje necessitam do FMI. Felizmente trata-se de uma discussão académica, mas com o actual endividamento externo e no contexto actual se Portugal não tivesse aderido ao euro... o mais provável é que estivesse numa crise financeira que só teria paralelo com o período de 1977 a 1982...

Filipe Garcia
Economista da IMF
 
Artigo publicado no Jornal Meia Hora em 30 de Outubro de 2008 (pág. 8)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O manual de 1944 e os hipermercados

Um dos mais fantásticos exemplos do excesso de intervenção do Estado na economia e da sua vontade de tudo controlar é o recente adiamento de uma decisão relativamente aos horários de funcionamento das grandes superfícies. No seguimento da famigerada portaria de 1996 que determinou o encerramento dos estabelecimentos com mais de 2.000 m2 aos domingos e feriados, verificou-se (como seria de esperar) um enorme crescimento no número de estabelecimentos com 1990m2. Ou seja, o panorama hoje em dia é que qualquer consumidor pode ir fazer as suas compras ao Modelo ou Pingo Doce, mas não o pode fazer no Continente ou Feira Nova. E porquê? Qual o motivo para esta vontade do estado em determinar onde e quando os consumidores podem fazer as suas compras? Supostamente, para proteger o pequeno comércio, comércio esse que na sua grande maioria está encerrado aos domingos! Doze anos após a publicação da portaria que decidiu pelos consumidores quais os dias, horas e locais onde podem fazer as suas compras, com um panorama comercial substancialmente diferente do que se vivia na altura da sua publicação, colocou-se a hipótese de delegar essas decisões nos municípios. Apesar de não ser a solução ideal, seria uma alternativa razoável.E o que fez o partido do Governo? Para não ter que tomar uma decisão simples e razoável, mas que provavelmente não convinha em fase pré-eleitoral, pura e simplesmente seguiu à risca as instruções dadas num já famoso manual de sabotagem económica de 1944 que preconizava “when possible refer all matters to committees for further study and consideration”: pediu o aprofundamento e sistematização dos estudos já existentes, por uma entidade independente. Há coisas que nunca mudam!
(Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 29/10/2008)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A inveja dos sinais de abrandamento na economia chinesa

A tendência de desaceleração das exportações chinesas continua. A crescente sofisticação dos produtos exportados pela China tem sido mais evidente, os ganhos de produtividade por via de baixos custos também já tiveram melhores dias, e a apreciação da sua moeda eliminou a vantagem competitiva que a China nos habituou em momentos de crise, onde a dinâmica das exportações apresentava movimentos contra ciclo. O abrandamento económico irá inevitavelmente afectar as exportações chinesas e, por sua vez, afectar o dinamismo que o sector industrial tem apresentado. Apesar deste inevitável cenário, a China deverá crescer em 2009 acima dos 7%. Fantástico !

Magalhães

Se olharmos para um planisfério, como aqueles que estavam pendurados nas salas de aula das escolas primárias, vemos que poucos nomes de navegadores portugueses ficaram associados à geografia mundial. Cinco séculos depois, um computador portátil, que mais parece uma torradeira futurista, renova as esperanças dos historiadores de reavivar o tributo (mais que justo) a um dos mais notáveis pioneiros portugueses. Mas, será que honrará como é devido? Vejamos. O portátil Magalhães de pioneiro tem pouco. A ideia, a tecnologia, já existem há muito. Idealizado por uma empresa americana (que obviamente salienta a excelência “do caso português”), entretanto transformada em conselheira tecnológica do Estado. Montado por uma empresa portuguesa, que notícias referem ter estado com um processo fiscal e que alegadamente não tem qualquer relação contratual com o Estado. Quem paga este esforço sócio-tecnológico? Não se percebe muito bem. Para além do Estado, os operadores móveis e as autarquias, aparentemente. Os apelos governamentais para que os pais se esforcem para proporcionar o acesso à Internet aos seus filhos levam-nos a pensar que sim. Quanto às autarquias, desconfio que nem elas perceberam. O mérito da iniciativa é indiscutível. A médio prazo teremos mais pessoas preparadas para lidar com a tecnologia e, mais importante, com a sociedade do futuro. O que não cessa de me intrigar é a incapacidade de tornar transparentes as boas iniciativas e promovê-las pelos seus reais méritos e não por uma quase inacreditável cobertura mediática. É verdade, já me esquecia. Houve algum concurso público? (Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 28/10/2008)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A importância crescente da Gestão do Risco

Nos últimos quatro anos a gestão do risco conheceu um desenvolvimento muito acentuado e tornou-se imprescindível face aos níveis de crescimento do negócio de crédito. O Novo Acordo de Capital (Basileia II), que entrou definitivamente em vigor no início deste ano, fez com que a banca em geral fosse obrigada a introduzir novos conceitos e práticas no domínio do risco de crédito, na melhoria dos sistemas de rating e na profunda revisão de algumas normas internas, tais como o rigor e transparência na avaliação do risco de crédito das diferentes contrapartes (discriminando claramente os bons dos maus clientes), melhorando as garantias (minimizando as perdas em caso de incumprimento), e uma maior disciplina no pricing (incorporando todos os factores de risco existentes). Muitas das pequenas e médias empresas não estão conscientes desta nova realidade e o aumento significativo dos seus gastos financeiros podiam ser reduzidos, caso existisse uma visão consciente da gestão do crédito. Parece-me premente que as empresas, particularmente aquelas que têm “bons negócios” dentro de portas aumentem o rigor e a exigência no consumo dos seus capitais, através de uma gestão financeira qualificada, dando enfoque numa cultura de risk awareness de forma a garantirem uma gestão do seu crédito adequada às novas exigências do mercado financeiro e à actual realidade da escassez do crédito. O mercado global irá agradecer, pois empresas com melhor rating implicarão sempre melhor retorno para quem financia, mas também melhor qualidade e preço para os consumidores finais.

sábado, 25 de outubro de 2008

Mercados desconfiados da Europa




Nesta sexta-feira cumpriram-se 89 anos sobre o famoso crash bolsista de 1929. Este ano o dia voltou a ser animado - um dos dias mais movimentados da história recente do mercado cambial. Apenas me recordo de movimentos desta grandeza e volatilidade em Outubro de 1998 no dia em que a Rússia não conseguiu honrar os seus compromissos, já num contexto de crise asiática. Não é nada comum ver moedas do G7 a variar 16% num dia entre si – foi quanto a libra caiu face ao iene (o euro esteve a perder 10%). Aliás este foi o pior dia para a moeda britânica desde a crise do SME em 1992, em que abandonou o sistema. As volatilidades implícitas estão em máximos históricos, o que além de significar que é caríssimo construir estratégias com opções, dá a entender que os próprios operadores de mercado estão à espera de mais dias agitados e sem fazer ideia para onde vão as taxas de câmbio. Em momentos como estes o melhor parece ser evitar decisões radicais. São períodos de grande tensão e emoção, normalmente más conselheiras. Porém, devem ser tratados objectivos e limites.


Os movimentos mais recentes nas moedas estão relacionados com a liquidação de posições de investimento a nível global e posterior repatriação de capitais e ainda com o processo em curso de redução de alavancagem no sistema financeiro. A liquidez é procurada por todos – “Cash is King”. É isso que justifica que as moedas que saem “vencedoras” sejam o dólar, iene e franco suíço. Estas divisas foram muito utilizadas nos últimos anos para endividamento para alavancar fundos de investimento que se encontram agora em grandes dificuldades e que estão obrigados a sair a qualquer preço, seja nas acções, seja no câmbio. Adicionalmente há necessidade dessas divisas nos países de origem, sobretudo EUA e Japão, o que força a repatriação.


O mercado está também muito “desconfiado” da solidez das contas na Zona Euro e Reino Unido e da capacidade de reacção efectiva do sistema financeiro e da economia como um todo. Há sinais aparentemente inócuos, mas que devem ser lidos com alguma atenção. O facto de a Dinamarca se ter visto forçada a subir as taxas de juro em 0,5% no contexto actual parece querer dizer que os capitais não se estão a sentir seguros na Europa, mesmo na que não é “emergente”. A queda da coroa da Noruega, ainda que com a ajuda do petróleo, é um indicador no mesmo sentido.


O que parece evidente é que a crise financeira está ainda muito longe de terminar e que será necessária muita paciência e sangue frio. As empresas devem estar sobretudo atentas à deterioração do seu ambiente operacional e que consequências essa alteração poderá trazer para a sua situação financeira futura. O nível de endividamento actual poderá ser adequado hoje, mas o mesmo pode não acontecer daqui a alguns meses.


E nessa altura não é certo que a banca possa ter a liquidez necessária para emprestar a todos os que dela necessitam.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Dissonância Cognitiva

Há crise em Portugal? Se procurar nas televisões e nos jornais, certamente se sentirá tentado a responder que sim. Mas se procurar nos corredores de uma qualquer grande superfície comercial, em Lisboa ou no Porto, provavelmente dirá que não. Existe no nosso país uma reacção ambivalente perante a crise financeira: todos a reconhecem, mas poucos se ajustam. Nos Estados Unidos, o epicentro desta crise, o consumo já está em contracção – cerca de 2% face ao ano anterior. A concessão de crédito também baixou. Na sua última leitura, o crédito ao consumo registou uma redução de 8 mil milhões de dólares – a maior de sempre na América. Na Europa, o consumo, em geral, também está a baixar ao mesmo ritmo: perto de 2% ao ano. Por outro lado, tanto num sítio como no outro, a produção industrial está em queda, sinal de que a contracção do crédito já afecta o investimento. Estranhamente, em Portugal, o consumo continua a aumentar ao ritmo anual de 1,5%. Quanto à nossa produção industrial, essa acompanha a tendência mundial e está em contracção. Hoje em dia, o consumo e o investimento representam em conjunto 85% da criação de riqueza do país. Por isso, os dados referidos constituem motivo de preocupação. Em particular, junto dos países mais endividados, mais rígidos e mais iludidos, como Portugal. No espírito da multidão, contudo, não se passa nada de muito anormal. De resto, é também essa a tese do economista Milton Friedman em “The Permanent Income Hypothesis”. A ilusão tende a desaparecer, mas apenas através do desemprego estrutural. Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 24/10/2008

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ver o Mundo:

As eleições nos EUA estão à porta. Estamos em contagem final para conhecer o vencedor. O Mundo ficará melhor depois de 4 de Novembro?
Foto: REUTERS/Charles Platiau

Espanha

Sempre que vou a Espanha sinto-me estranho e bem, ou melhor: estranhamente bem. Confusos? Ainda bem. Espanha tem vida; tem sal. Enche praças de emoção. Brilha nas avenidas. Vai de compras e de copas. Em Espanha sorri-se!
Não tenho a certeza que seja mais fácil viver em Espanha que por cá; nem mesmo que os nuestros hermanos sejam o melhor modelo – de país, de sociedade, de economia, de cultura, de pensamento… Mas algo me parece claro: a vida por lá é mais colorida. Ocupam-se ruas com alegres esplanadas; há música e muita conversa; opta-se pela diversão e não pelo fado da vida; escolhem-se caminhos e faz-se a fiesta; vive-se e ocupa-se o espaço público, criando laços e relações.
Num exercício de marketing, diria que Espanha já está numa lógica de marketing de terceira vaga: mais relacional que comercial; mais emotivo que mercantil; enfim, mais sedutor e intimista. Os ares lusitanos são menos arejados. Variamos entre uma desmedida – e tantas vezes infundada – euforia e uma depressão geral que o fado tão bem verte.
Por que perdemos o hábito de passar pelo café para “duas de treta” com os conhecidos? Por que nos fechamos tanto em casa? As nossas vivências colectivas restringem-se às feiras e romarias (mesmo que algumas, modernamente, se chamem festivais)? Não existe um imaginário colectivo? Algo que nos venha da alma?
Num regresso indago sobre o que, para além de Timor e das bandeiras de apoio à selecção de futebol, nos une…
Falta cumprir-se Portugal?
publicado no Jornal "Meia Hora" no dia 23 de Outubro 2008.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Alegremente a caminho do abismo...



O défice da balança de transacções correntes voltou a agravar-se em Portugal, no período de Janeiro a Agosto. Este é um problema estrutural da economia portuguesa. Talvez seja até o mais grave de todos já que acaba por ser a consequência de uma série de deficiências estruturais.

Desde 1974 o país foi resolvendo a questão com as desvalorizações cambiais ou, no limite, com a intervenção do FMI. Num passado mais recente foram os fundos estruturais e o crédito externo a "financiar" o défice. Mas e agora? O défice continua a crescer, não há instrumento cambial e o crédito internacional está muito condicionado!

Cuidado Portugal. Cuidado!

Antes sê-lo que parecê-lo!

Ao ler um artigo de uma consultora internacional sobre o impacto que as alterações climáticas têm na avaliação financeira das empresas, deparei-me mais uma vez com a crescente “tangibilização” económica das obrigações ambientais das organizações.
Esta é hoje em dia só uma das vertentes relevantes para uma adequada gestão das organizações, onde se destacam também o efectivo retorno para os accionistas e para a sociedade.
É o equilíbrio entre estes três vectores (económico, ambiental e social) que a sociedade espera que as organizações atinjam, tornando-se assim um veículo para se atingir o tão almejado desenvolvimento sustentável. E numa sociedade cada vez mais globalizada, informada, exigente e consciente das suas aspirações e desejos, espera-se que o progresso e desempenho para se atingir este objectivo sejam periodicamente reportados.
Surgem assim, como peças preferenciais de comunicação, os relatórios de sustentabilidade ou de responsabilidade social, suportados em princípios basilares como a ética, transparência, informação fidedigna e alinhamento entre comunicação e actuação no quotidiano. Ora todos estes princípios adquiriram um “novo significado” devido à crise financeira que temos observado nas últimas semanas, e às consequências que daí advieram.
Recuperar a confiança perdida é um desafio para todas as organizações, em especial para aquelas que têm realizado o seu caminho rumo ao desenvolvimento sustentável. Não há receitas mágicas, mas a coerência entre os valores defendidos e praticados pode ser um indutor para a recuperação. Cá estaremos para ver e analisar. Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 21/10/2008

Mudam-se as estações, mudam-se as tendências.

Mudam-se as estações do ano, mudam-se as tendências. Isso é pelo o menos o que dizem as revistas que vejo no quiosque à frente de minha casa. Mas o que são de facto as tendências e em que medida estas nos afectam? As verdadeiras tendências, aquelas que mudam a nossa forma de viver, de trabalhar ou de nos relacionarmos, são aquelas que em conjunto ou associadas a determinados eventos, produzem descontinuidades que levam a alterações profundas nas estruturas de diferentes indústrias, e por conseguinte, na vida do consumidor final. As empresas com a capacidade de identificar esses eventos e essas tendências, estão aptas para produzir mercados que não existem e para satisfazer necessidades ainda não articuladas pelos clientes. No fundo, estão capazes de inventar um novo futuro.
Por exemplo, há poucos anos atrás alguém foi capaz de ver a democratização a que se assistia no acesso à informação, a disponibilização cada vez mais alargada de produtos e serviços relevantes a custo zero e outra alterações que se verificavam resultantes de diversas mudanças tecnológicas e socioculturais para lançar um novo conceito: o jornal diário gratuito. Para o comum dos mortais é relativamente simples identificar tendências passadas e avaliar o seu impacto nas economias globais, no entanto poucos são capazes captar tendências e sinais actuais, presentes aos olhos de todos, e conjugá-los de forma a conseguir ver na sua confluência efeitos totalmente disruptivos.
Por tudo isto acredito que as estações do ano continuarão a mudar e com elas mudará também o mundo, nas mãos daqueles que o souberem girar.

Uma assinatura

Com a difusão e a lata aceitação do princípio da responsabilidade social, o Marketing Social ou de Causas ou ainda, e misturando tudo, de Causas Sociais é um campo que tem crescido a olhos vistos. Na proporção das empresas e instituições que percebem a importância de estarem associadas a causas, a eventos ou a campanhas de natureza social, os exemplos multiplicam-se. Chegam-nos de instituições cujo “core business” é exactamente o da responsabilidade social, como de tantas outras organizações de natureza mais comercial. Percebem que para estarem mais perto da mente dos consumidores têm que estar perto das suas preocupações, dos seus receios e das suas ilusões. Na sua essência, deveria representar um “compromisso de devolução” das empresas e das marcas para a Comunidade, em contrapartida dos recursos e do envolvimento que esta concede: comprando produtos e serviços, disponibilizando mão-de-obra, facilitando espaço e infra-estruturas, ou até concedendo impostos e benefícios. Como sempre, não há bela sem senão. O Marketing Social tem servido também para mascarar situações de comportamentos irresponsáveis e de abuso. Levanta, tantas vezes, difíceis questões de ética. Um pouco alheio a isso, o mais importante é que a responsabilidade social se vá cumprindo, mesmo que, por vezes, seja a custa da exploração de outros mercados. Aqui está um exemplo, num dos melhores vídeos do momento.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A música do medo

Hoje pela manhã esta preocupação foi-me conduzindo até ao trabalho. É do lado mais obscuro e brutal da vida que se fala.
Nos dias em que a confiança é palavra de ordem, há outros medos que contaminam os mercados. Não é “só” o modelo capitalista que está em questão como igualmente a liberdade enquanto valor basilar da democracia?
A crescente "siciliazação" da nossa economia (também) me preocupa muito. O referido vídeo pode ser visto aqui.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Risco e retorno

Em muitos países, assistimos a uma aposta na comunidade LGB (Lésbicas, Gays e Bissexuais), sendo criados novos negócios vocacionados para este target. Em Portugal, salvo raros casos de reduzida expressão, como livrarias ou editoras, dificilmente encontramos uma marca com um posicionamento claro para este segmento de mercado. Perante uma sondagem do Expresso que apontava para um milhão de LGB no nosso país, dimensão apetecível para muitos negócios, não consigo deixar de pensar como pode este grupo de consumidores ser ignorado aquando da concepção dos portfolios e na comunicação das marcas. Quanto se fala do potencial do target, o facto de se tratar de casais sem descendentes (DINK - Doble Income No Kids) é apontado como uma das razões para a aposta das marcas neste segmento. Segundo a Axel Consulting, especializada em produtos destinados à comunidade gay, 76% dos LGB em Espanha têm rendimentos superiores à média nacional, 82% possuem um grau académico e 55% ocupam cargos de responsabilidade nas organizações. Estudos da Witeck-Combs Communications apontam para uma superior lealdade às marcas e uma maior preocupação com a saúde, a aparência e o lazer. A questão que se coloca é, então, por que razão as nossas empresas ignoram pretensamente este grupo de consumidores. Terão os estudos portugueses resultados distintos dos internacionais, podendo concluir-se ser uma falta de escala aquilo que inviabiliza campanhas e produtos específicos ou estarão as empresas condicionadas por preconceitos, temendo reacções adversas de consumidores em relação à marca e à instituição?

OE09 : Os 20.000 M€

O Orçamento de 2009 tem muito que se lhe diga e curiosamente e não se fizeram aqui avanços para os discutir. Em qualquer caso deixo uma primeira reflexão: 20 mil milhões de euros como garantia para a banca, uma espécie de cheque em branco que o executivo de Sócrates não soube explicar como, onde, em que circunstâncias e compensações será aplicado. Ao contrário dos congéneres do Centro da Europa, Sócrates e sua equipa não parecem interessados em refundar as regras do capitalismo, nem em criar condições de excepção de controlo da crise que sejam também elas educativas e assentes em regras transparentes. O que se faz é um pouco o inverso – uma espécie de carteirinha do papá, que servirá para controlar os desvaneios dos filhinhos. Não se sabe de qual, nem porque razão, nem em que valor, nem quando, nada. Como tal, guarda-se umas notinhas e logo se verá. O pior e que o papá são os contribuintes (que fossem pelo menos todos os portugueses), que não podem aceitar pagar para evitar falências de empresas que normalmente são muito lucrativas, sem qualquer regra ou futura compensação, e – mais grave – sem a criação de guidelines que evitem repetições.

Crise

Não há mal que não nos traga ensinamentos e vantagens, ainda que colateralmente. Esta crise financeira trouxe-nos - ou espero bem que tenha trazido - uma imensa novidade: a crise. Parece paradoxal, mas e verdade. Até recentemente qualquer coisa era " a crise". Já não era só a confusão entre recessão e crise - porque isso seria tolerável. O problema era já se confundia o novo estado da economia como crise e todos aqueles que com ele mudaram de classe social (ou mantiveram-se quando aspiravam subir) achavam que estavamos em crise. Esta situação era tão grave que inclusive afectava na confiança e assim a economia real tinha dificuldade em avançar (poupando-no0s bolhas maiores). Agora, chegou uma crise a sério e espero que ninguém ouse chamar qualquer coisa de tal, porque crise é aquilo que vivemos em 2008, quando os bancos faliam e não se emprestavam dinheiro uns aos outros, obrigando a mega nacionalizações e muitas bancarrotas. Espero que tenhamos retirado também este ensinamento.

domingo, 19 de outubro de 2008

Better inside to be the best outside: endomarketing

Actualmente, é cada vez maior a capacidade que as empresas possuem de velozmente se adaptarem ao mercado e aos seus clientes externos. Porque será, então, que não o fazem em relação aos seus colaboradores? Será que as empresas estão conscientes de que só assim podem fazer a agregação, aplicação e desenvolvimento de talentos? Ou que só assim conseguem reter os melhores talentos?
Tudo deve ser repensado, para que ao nível dos colaboradores, as empresas procurem dar respostas que permitam a melhor satisfação e a consequente fidelização dos mesmos, conseguindo com isso um aumento do retorno no seu investimento. Por isso, surge hoje a necessidade de utilização do endomarketing que aparece como a ligação entre a empresa, o produto/serviço e seus colaboradores tornando estes últimos em aliados do negócio e potenciadores do sucesso da própria empresa. Várias são as acções de endomarketing que podem ser utilizadas pelas empresas, nomeadamente: integração; envolvência e coerência; comunicação; divulgação; informação; formação; avaliação de desempenho; realização de eventos; reconhecer; promover parcerias; ofertas especiais; actividade física; oficinas de artes, etc.
Como tudo começa com as pessoas, cabe à organização, com apoio ao mais alto nível, ter uma estrutura de Recursos Humanos consciente e que procure, permanentemente, o investimento em endomarketing. Os Recursos Humanos deverão ser a cola entre cliente interno, a empresa e o cliente externo. Investir nas pessoas gera resultados, sendo positivas as consequências das acções de endomarketing. É necessário que os colaboradores tenham a marca no seu coração e trabalhem para si todos os dias de tal forma que isso seja uma parte natural do seu pensamento, actuação. E para isso, não será certamente necessário falar de budgets elevados.
O que as empresas não podem é ter medo de ter ideias. A imaginação é como um músculo: tem de se trabalhar!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pronúncia de Norte

A propósito da reflexão do Pedro Barbosa intitulada “Quo vadis Norte?” Começo por dizer que me parece absolutamente evidente que o Norte perdeu tempo e espaço. Diria mesmo que a Região está hoje mais acanhada e circunscrita que nunca. É esta fraqueza fruto das dificuldades que o tecido económico, sobretudo empresarial, atravessa? Sentiu mais a economia do Norte, assente numa base industrial mais tradicional, a mudança de paradigma que a globalização impôs nas últimas décadas? Provavelmente sim. Tudo isto contribuiu para o ”apagão” do Norte. Os grandes desafios dos últimos tempos abanaram e desarticularam as bases onde o sistema económico regional estava fundado. Será preciso, portanto, refundar a Região.
Todavia, ainda que possamos voltar ao tema da competitividade mais tarde, gostava agora de tocar uma outra evidência: como é que esta aparente timidez se liga à perda de protagonistas a Norte. Isto é, faltam vozes esclarecidas capazes de assumir um discurso positivo, objectivo e futurista para a Região; de por o dedo na ferida quando necessário; e enfrentar o desmesurado centralismo que o nosso país representa.
Quem deve/ pode e tem falado pelo Norte? - É a pergunta que vos lanço.
Para início de conversa junto algumas notas, escritas ao correr das teclas:
Rui Rio parece ser uma voz a escutar. Forte nas convicções, sem grandes peneiras vai directo ao assunto. Infelizmente para quem esperava mais, tem-se perdido no seu concelho e nas suas guerras... Parece esquecer que o presidente da Câmara do Porto é também, à sua medida, um porta-voz do Norte. Aparece sobretudo (apenas?) quando a cidade está em questão. Neste sentido fala pouco e baixo.
Carlos Lage, enquanto presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional da Região do Norte (CCDR-N) deveria ser uma voz conhecedora, muito esclarecida e escutada. Não é nada disto. Tem tido poucas e más intervenções, buscando, no meu ponto de vista, o discurso regionalista na essência mais básica e triste. Não tem tido peso nem espaço. Quem de nós o conhece? Poucos o ouvem e sinto que ninguém o escuta.
Daniel Bessa. O reputado economista e professor universitário não tem aparecido com grandes preocupações sobre a Região. É obviamente um dos grandes valores da região (leia-se um importante activo), com prestígio público e espaço mediático considerável. Percebendo que a sua dimensão é nacional, logo que não queira vincular-se excessivamente a um discurso regional, mais pequeno e, provavelmente, menos valorizado, merecia mais tempo de antena dedicado ao Norte.
Rui Moreira arrisca ser a voz do Norte mais escutada. Fala, escreve e, soube este fim-de-semana, também fotografa. Sereno e muitas vezes directo, parece faltar-lhe algum peso político ou maior importância à instituição que preside. Por outro lado, apresenta intervenções bastante dispersas: é difícil aceitarmos que fale com a mesma convicção das opções para o Aeroporto de Lisboa, da perda de competitividade do Norte e da importância do Lucho no meio campo do FCP…
Belmiro e Paulo Azevedo. A passagem de testemunho não é fácil. Paulo não é Belmiro, nem no tempo nem no estilo. Este construiu uma voz reivindicativa, sonora, tantas vezes acutilante; daquele não se conhecem grandes opiniões sobre o papel da região. O que não deixa de ser estranho para o presidente do maior grupo económico nortenho…
Pinto da Costa. Queria tirar o clubismo desta reflexão, mas é inquestionável o espaço mediático que esta longa voz ocupa. Talvez tenhamos bastante a aprender sobre métodos e longevidade na relação com o espaço público.
Vêm-me à memória outras vozes, hoje quase rumores… Artur Santos Silva; Ludgero Marques; Braga da Cruz; Valente de Oliveira… Essa pronúncia do Norte.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O mundo está a mudar rapidamente

Os nossos dias vivem-se com uma intensidade e velocidade desmesuradas. Tudo é feito a correr, com pressa e para ter resultados imediatos, seja na vida pessoal, empresarial ou académica. A dimensão temporal vem conquistando enorme importância sendo factor chave de sucesso para pessoas, empresas, organizações ou mesmo países. Actualmente temos uma enorme dificuldade em conseguir pensar nos tempos da guerra fria, onde o mundo quase entrou em choque total. Mais difícil ainda conseguir pensar nas guerras mundiais apesar de uma grande parte da população actual ter passado por elas. Hoje comunicamos muito mais e com mais gente. Para isso foram decisivas as novas tecnologias que nos permitem ler, ouvir, sentir, tocar e cheirar onde, quando e como desejamos. As escolas ensinam de forma diferente, os jornais passaram a ter extensões virtuais e tudo se sabe de forma rápida e eficaz. As modas e tendências são ditadas por grupos de influenciadores que rapidamente conseguem ter o mundo inteiro em sintonia. A chave do sucesso está em entender como tudo funciona. Por tudo o que foi dito até agora é fácil aferir que os estilos de vida têm vindo a sofrer profundas alterações. Trabalhamos de forma diferente, comunicamos de forma diferente, pensamos de forma diferente, gerimos as nossas relações de forma diferente…enfim vivemos de forma diferente. Todas estas mudanças têm alterado profundamente a forma como consumimos produtos e serviços bem como o relacionamento de fidelização com as várias marcas com que lidamos. Daniel Sá

domingo, 12 de outubro de 2008

Qualidade do atendimento

Percorrer um centro comercial e ser atendido com simpatia, começa a ser uma excepção que confirma a regra do mau atendimento que se verifica no comércio em geral. Não considero que seja apenas um problema português mas algo que também se verifica em países mais desenvolvidos, como Espanha, Alemanha ou França.
Ao ouvir alguns comerciantes queixarem-se da actual conjuntura económica, para justificar um arrefecimento do consumo, penso para com os meus botões, que provavelmente parte do problema e da solução reside em questões de natureza interna e nada tem a ver com a conjuntura mundial. Quando um cliente entra numa loja deve ser encarado como um momento de enorme importância para o desenvolvimento do negócio. Essa pessoa que decidiu entrar, poderia ter optado por seguir em frente e entrar apenas na loja da concorrência. Motivado por variadíssimas razões, o cliente pisou a loja e está disposto a ouvir uma proposta de compra. Ao contrário do que seria de esperar, os funcionários das lojas limitam-se a marcar uma presença física sem qualquer atitude pró activa em relação à venda. Muitas vezes nem sequer um contacto visual existe, dando a nítida sensação que o facto de alguém entrar na loja incomoda quem lá trabalha. No preciso momento em que o cliente passa pela porta os seus sentidos começam a transmitir informações para o cérebro, sejam elas visuais (decoração, luz), de cariz olfactivo (perfume da loja), ou informações de natureza auditiva (música ambiente).
A abordagem do vendedor tem que ser perfeita não deixando dúvidas ao cliente de que ele é realmente importante. Desafio os grandes grupos no sector do retalho e os comerciantes em geral a investir mais na formação e na qualidade do atendimento.

O que vem a seguir? (completo)


O que vem a seguir? (completo)
A crise financeira vai passar. Mais tarde ou mais cedo, com danos mais ou menos sérios, com mais ou menos vítimas... mas vai passar. Não é apenas a história que o diz, mas também a natureza dos processos evolutivos  que caracterizam desde sempre a realidade económica. Interessa olhar um pouco mais para a frente e começar a pensar no que aí vem. Infelizmente não é possível ser optimista para os próximos tempos. 
Partindo do princípio que da crise financeira não resultarão eventos demasiadamente graves como a queda de todo o sistema financeiro após corridas aos bancos ou falência de países ou grandes empresas - o que nos dias que correm é um pressuposto optimista - estimamos que os efeitos no consumidor apareçam já no final do ano. Os problemas poderão ser mascarados ou atenuados durante a época natalícia, mas aparecerão com toda a sua força a partir dessa altura.
Sem querer simplificar demasiadamente, o comportamento do consumidor depende essencialmente de 2 factores: rendimento disponível e confiança, sendo que o acesso ao crédito aparece como uma variável que pode condicionar ambos.  
Não há muitas razões para acreditar num aumento do rendimento. Nesta altura já há sinais muito claros de estagnação no investimento e consumo de bens duradouros - a paragem da Auto Europa é apenas mais uma evidência. Estes são indicadores leading da evolução económica. Os salários dificilmente subirão e as contratações deverão ser reduzidas ao essencial. Apesar da crise, não é líquido que os preços desçam, pelo contrário.
confiança dos consumidores já está a diminuir. Tudo indica que à medida que as empresas se forem debatendo com dificuldades de financiamento, os trabalhadores começarão a sentir os seus postos de trabalho em risco, ou pelo menos a progressão de carreira.
Prever dificuldades no acesso ao crédito quase não é uma previsão. Vai mesmo acontecer e de forma generalizada. Atingirá bancos, empresas, particulares e até o Governo.  O menor acesso ao crédito diminuirá o rendimento disponível e afectará a confiança já que os consumidores ficam mais inseguros e com menos opções em aberto.
Se este cenário se materializar, toda a economia entrará em sérias dificuldades e durante algum tempo. "Adivinhamos" que o retalho seja gravemente atingido nesta crise - provavelmente a principal vítima. Os retalhistas poderão adoptar uma posição de risk-takers, concedendo crédito aos consumidores, à boa maneira da década de 80 quando os bancos não se atreviam a apostar no crédito ao consumo e como hoje ainda se faz nos países emergentes. É uma saída arriscada, mas não parece que existam muitas mais!

2. A Economia [portuguesa]
Portugal é uma economia aberta que está sujeita aos ciclos económicos dos principais parceiros. O facto de existirem poucos mecanismos proteccionistas e de se integrar de forma quase plena em todos os grandes mercados (monetário, cambial, capitais, mercadorias e serviços) apenas ilusoriamente se traduz numa maior vulnerabilidade a um 'outlook' económico negativo. Pelo contrário, é a integração da economia portuguesa que permite que se vá ajustando de forma contínua, dificultando a ocorrência de choques mais graves como os que prevemos acontecer em economias de dimensão semelhante, mas mais rígidas e intervencionadas como as da América Latina.
Em face do sucedido nos mercados financeiros a nível global, o PIB mundial terá de ser revisto em baixa de forma substancial. O FMI fala num crescimento mundial de 3% em 2009, números que consideramos muito optimistas. É discutível se iremos sequer testemunhar um crescimento positivo a nível global no próximo ano.
Portugal não estará imune a este cenário. Em 2008 a economia deverá crescer em cima dos 1% (talvez abaixo), com um prognóstico muito reservado para o ano seguinte. Analisemos então cada uma das componentes do PIB:
Consumo Privado - Já analisado no ponto 1. Como já referimos as perspectivas não são animadoras. Esperamos uma forte desaceleração no consumo privado, sobretudo em 2009, com a enorme dificuldade na obtenção de crédito a piorar o cenário. Melhorias só no fim de 2009, sendo optimista.
Consumo Público - É uma enorme interrogação. A equipa do Ministério das Finanças deve estar neste momento com uma grande dor de cabeça ao pensar no orçamento de 2009. Nesta altura ainda não é certo que tipo de meios terá de aplicar no auxílio ao sistema financeiro e às famílias, neste ano ou no próximo. Por outro lado o modelo escolhido para as obras públicas passa pelas parcerias público-privadas, mas as actuais dificuldades de financiamento obrigarão o Estado ou a avançar com mais verbas ou a cancelar inciativas. A tudo isto acresce a imprevisibilidade das receitas fiscais para 2009. 
Investimento - Regra geral investir implica confiança e uma expectativa positiva quanto à economia no médio prazo. Em face de tudo o que se tem observado as empresas estão mais preocupadas em sobreviver do que em crescer e, por outro lado, mesmo os investimentos de reposição e modernização poderão ficar comprometidos por falta de financiamento ou de confiança. Pelo menos até meados de 2009 não é de esperar alterações neste cenário negativo.
Comércio Externo - Uma parte significativa do crescimento estava a ser conseguido pelo bom desempenho do sector exportador. A queda do euro ajuda os exportadores, mas os nossos principais clientes - Espanha, Alemanha, EUA, Inglaterra e França - estão no epicentro da crise. A paralisação na Auto Europa é um aviso do que pode vir por aí. A queda dos preços do petróleo deverá ajudar a  Balança comercial, mas a menor procura de produtos refinados deve prejudicar uma das exportações com mais peso. Dada a rigidez de grande parte das importações nacionais é de esperar uma evolução negativa no comércio externo.
Então o quadro é péssimo para Portugal? Em termos relativos nem tudo será mau porque haverá países em piores circunstâncias, mas seria irrealista traçar um panorama risonho para os próximos 12 meses. 
O país deve aproveitar precisamente o que muitos apontam como sendo uma debilidade - a sua grande integração, nomeadamente no euro. Será no quadro da UE e da UEM que Portugal se poderá destacar, caso garanta o normal funcionamento do sistema financeiro e da economia em geral. Daqui poderá retirar importantes dividendos no futuro.
Algo que seria seguramente impossível caso se tratasse de uma economia isolada, como o caso da Islândia - na bancarrota - bem exemplifica.

3. Os Mercados
Lembrando um texto do passado dia 11 de Setembro:
"A história é cíclica. A liberdade e a democracia estão a ser ameaçadas pelo regresso do autoritarismo. Os indícios são muitos e à vista de todos [...]  E às vezes o liberalismo também se "põe a jeito". A ganância e a fraca supervisão permitiram ao sistema financeiro aceitar riscos que hoje se pagam." 

A Regulação
É o tema "quente" do momento. Nesta altura procuram-se culpados para a crise e soluções simples, rápidas e eficazes. Sem discutir a pertinência de processos regulatórios mais fortes, parece claro que vão surgir, quanto mais não seja por exigência popular (e governamental). O caminhar para um ambiente de mercado menos liberal já não vem de agora e é coerente com uma tendência de maior autoritarismo a nível mundial. Tem-se notado uma certa tentação de os governos tomarem um papel mais interventivo nas economias. a actual crise oferece o terreno ideal para que tal suceda. consideramos que será cada vez mais díficil assegurar a independência total de entidades como os bancos centrais.
Ao nível do sistema financeiro é de esperar uma redobrada vigilância e legislação sobre a engenharia de produtos financeiros e sistemas de incentivos. Os activos das instituições financeiras, nomeadamente participações em empresas, serão mais escrutinados e as aquisições e alienações poderão mesmo ser alvo de validação prévia governamental. Os sistemas de rating, cujo carácter obsoleto veio à tona, deverão ser completamente modificados. Alguns aspectos de "Basileia II" serão colocados em causa - a crise ou acelerará a sua implementação ou o seu abandono. A regra do "mark-to-market" terá que ser revista de forma a prever situações extremas em que o mercado poderá não ter condições de formular um preço "razoável". De resto, a aplicação total do "mark-to-market" poderia levar à implosão do sistema.
Algumas destas medidas mostram-se hoje necessárias, mas não acreditamos que o futuro nos traga uma sistema financeiro mais eficiente e imune a crises desta ou de maior dimensão. 

Investimentos e tendências
Numa primeira fase é de esperar que os investidores passem a ter mais atenção ao risco de contraparte, até aqui muito negligenciado. Ou seja, importa saber, por exemplo num produto estruturado de capital garantido,  quem é o tomador firme do produto. Os riscos em geral passarão a ser mais valorizados, pelo menos durante algum tempo. O regresso às acções será paulatino e demorado, mas não nos parece que seja muito diferente de outros períodos da história. Os gestores de investimentos passarão a dar mais importância aos cenários menos prováveis. Tal implica a adopção de estratégias um pouco mais defensivas, sempre limitando as perdas.

Nestas alturas promove-se uma série de alterações com a expectativa que no futuro tudo será diferente. Não é isso que nos mostra a história. Mesmo que as medidas a ser tomadas venham a ter sucesso nos próximos tempos, será inocente pensar que não voltaremos a estar perante uma grave crise nos próximos 10 a 15 anos - o tempo necessário a que chegue aos lugares de chefia uma geração que ainda não sentiu verdadeiramente os efeitos de uma crise provocada pelo excesso.

Filipe Garcia - Mercado Puro - 9 de Outubro 2008

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Quo Vadis Norte?

Há muitos anos que se percebeu que na competitividade intra-Europa o que conta não são os Estados, mas as Regiões. Os Estados são apenas influenciadores relativamente a politicas, regulações e legislações, que influem na competitividade entre regiões.
Sob o pretexto que do Norte de Portugal só se quer dividir e com argumentos anti-pseudosectarismo por parte de auto-convenientes centralistas, a voz do Norte do país não se tem feito ouvir e perdeu a força de outros tempos.
O resultado é este: a região de Lisboa já aparece comparada à de Paris e outras zonas chamadas de "ricas", enquanto o Norte, do Douro Litoral a Trás os Montes passando leoo Minho, está posicionado na cauda - na verdadeira cauda da Europa, a par com regiões menos conhecidas do leste europeu.
Sempre que alguém falar nisto, outro responderá da capital: Querem é a regionalização, a separação, a divisão de um Portugal pequenino. São uns separatistas, bla bla bla.
Foi à custa do Norte se calar que chegou aqui. Quo Vadis?

A propósito do que se diz dos bancos europeus

Ver este artigo do Telegraph.
Tá feia a coisa...

Leitura adicional

A propósito do meu post anterior, gostava também de sugerir a leitura deste texto.

Sistema de incentivos

Há algumas semanas atrás, defendi nesta rubrica a incapacidade auto reguladora do actual sistema financeiro e a necessidade de maior intervenção estatal. Contudo, existe uma fronteira que urge salvaguardar no inevitável ímpeto reformista que agora se seguirá: a economia de mercado. Esta crise não põe em causa o capitalismo. Apenas coloca em dúvida o sistema de incentivos que existe em redor do capitalismo, em particular aqueles que decorrem do excesso de criação monetária. Ao longo de décadas, os bancos centrais emitiram moeda em excesso, os bancos comerciais exageraram na concessão de crédito e os bancos de investimento inventaram produtos exóticos. Os reguladores não acompanharam a inovação e as sociedades de “rating” ajoelharam-se perante quem sempre lhes pagou pelos seus serviços – os bancos. Portanto, agora há que actuar sobre a origem deste sistema de incentivos. Primeiro, os bancos centrais, que não podem continuar a imprimir papel conforme lhes apetece. O dinheiro, provavelmente, necessita de voltar a ter um qualquer suporte tangível. Segundo, os bancos comerciais, que têm de ser mais conservadores. Terceiro, as lacunas na lei, que permitiram o crescimento de mercados não cotados à margem da regulação pública culminado em risco sistémico, e que têm de ser eliminadas. Quarto, a regulação privada, representada nas sociedades de “rating”, que tem de ser paga por quem compra e não por quem vende. E ponto final. A reforma pára aqui. E o capitalismo retoma o seu caminho – sem acidentes de percurso. Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 10/10/2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

200

Os analistas, jornalistas e colunistas escrevem aos magotes. Escrevemos todos sobre o petróleo, depois vamos todos à inflação, segue-se os cereais, depois a insegurança, finalmente a Lehman & crises bolsistas. Um pelotão de ideias e opiniões, raramente sugestões, que seguem uma tendência quase estatisticamente normal. Contrariamente a esta tendência e com uma opinião bem diferente do habitual, escreverei sobre a insustentabilidade do preço do petróleo, demasiado baixo. As descidas progressivas de valores de 150 para cerca de 90 são um movimento que considero temporário, face às condições de evidente crescimento de procura, não acompanhadas pela oferta. Apenas a menor liquidez para criação de reservas – um acontecimento temporário - e outros factores geopolíticos levaram a esta situação, que mais não é do que uma excelente oportunidade para comprar. O crude deverá subir ainda em 2008 para valores na casa dos 110 dólares, e deverão oscilar entre os 120 e os 160 em 2009, sendo inevitável que chegue a 200 entre 2010 e 2012 – falta saber que elasticidade aos preços terão alguns sectores e países, traduzindo as respectivas elasticidades no consumo, amortecidas pelos respectivos programas regionais. De resto, este aumento do preço do crude é fundamental para se criarem alternativas à combustão de fósseis. Tudo o que conhecemos hoje não são energias alternativas, mas complementares. E só com crude caro começam a compensar outros tipos de energia, cujo desenvolvimento poderá em fases posteriores descer para valores muito mais baixos, fazendo decrescer o petróleo nessa altura, por substituição na procura.

O que vem a seguir? (3)

O que vem a seguir?
3. Os Mercados
Lembrando um texto do passado dia 11 de Setembro:
"A história é cíclica. A liberdade e a democracia estão a ser ameaçadas pelo regresso do autoritarismo. Os indícios são muitos e à vista de todos [...]  E às vezes o liberalismo também se "põe a jeito". A ganância e a fraca supervisão permitiram ao sistema financeiro aceitar riscos que hoje se pagam." 
A Regulação
É o tema "quente" do momento. Nesta altura procuram-se culpados para a crise e soluções simples, rápidas e eficazes. Sem discutir a pertinência de processos regulatórios mais fortes, parece claro que vão surgir, quanto mais não seja por exigência popular (e governamental). O caminhar para um ambiente de mercado menos liberal já não vem de agora e é coerente com uma tendência de maior autoritarismo a nível mundial. Tem-se notado uma certa tentação de os governos tomarem um papel mais interventivo nas economias. a actual crise oferece o terreno ideal para que tal suceda. consideramos que será cada vez mais díficil assegurar a independência total de entidades como os bancos centrais.
Ao nível do sistema financeiro é de esperar uma redobrada vigilância e legislação sobre a engenharia de produtos financeiros e sistemas de incentivos. Os activos das instituições financeiras, nomeadamente participações em empresas, serão mais escrutinados e as aquisições e alienações poderão mesmo ser alvo de validação prévia governamental. Os sistemas de rating, cujo carácter obsoleto veio à tona, deverão ser completamente modificados. Alguns aspectos de "Basileia II" serão colocados em causa - a crise ou acelerará a sua implementação ou o seu abandono. A regra do "mark-to-market" terá que ser revista de forma a prever situações extremas em que o mercado poderá não ter condições de formular um preço "razoável". De resto, a aplicação total do "mark-to-market" poderia levar à implosão do sistema.
Algumas destas medidas mostram-se hoje necessárias, mas não acreditamos que o futuro nos traga uma sistema financeiro mais eficiente e imune a crises desta ou de maior dimensão. 
Investimentos e tendências
Numa primeira fase é de esperar que os investidores passem a ter mais atenção ao risco de contraparte, até aqui muito negligenciado. Ou seja, importa saber, por exemplo num produto estruturado de capital garantido,  quem é o tomador firme do produto. Os riscos em geral passarão a ser mais valorizados, pelo menos durante algum tempo. O regresso às acções será paulatino e demorado, mas não nos parece que seja muito diferente de outros períodos da história. Os gestores de investimentos passarão a dar mais importância aos cenários menos prováveis. Tal implica a adopção de estratégias um pouco mais defensivas, sempre limitando as perdas.
Nestas alturas promove-se uma série de alterações com a expectativa que no futuro tudo será diferente. Não é isso que nos mostra a história. Mesmo que as medidas a ser tomadas venham a ter sucesso nos próximos tempos, será inocente pensar que não voltaremos a estar perante uma grave crise nos próximos 10 a 15 anos - o tempo necessário a que chegue aos lugares de chefia uma geração que ainda não sentiu verdadeiramente os efeitos de uma crise provocada pelo excesso.
(Esta é a terceira parte da Trilogia "O que vem a seguir?" 1. O Consumidor; 2. A Economia [portuguesa]; 3. Os Mercados)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O que vem a seguir? (2)

O que vem a seguir?
2. A Economia [portuguesa]
Portugal é uma economia aberta que está sujeita aos ciclos económicos dos principais parceiros. O facto de existirem poucos mecanismos proteccionistas e de se integrar de forma quase plena em todos os grandes mercados (monetário, cambial, capitais, mercadorias e serviços) apenas ilusoriamente se traduz numa maior vulnerabilidade a um 'outlook' económico negativo. Pelo contrário, é a integração da economia portuguesa que permite que se vá ajustando de forma contínua, dificultando a ocorrência de choques mais graves como os que prevemos acontecer em economias de dimensão semelhante, mas mais rígidas e intervencionadas como as da América Latina.
Em face do sucedido nos mercados financeiros a nível global, o PIB mundial terá de ser revisto em baixa de forma substancial. O FMI fala num crescimento mundial de 3% em 2009, números que consideramos muito optimistas. É discutível se iremos sequer testemunhar um crescimento positivo a nível global no próximo ano.
Portugal não estará imune a este cenário. Em 2008 a economia deverá crescer em cima dos 1% (talvez abaixo), com um prognóstico muito reservado para o ano seguinte. Analisemos então cada uma das componentes do PIB:
Consumo Privado - Já analisado no ponto 1. Como já referimos as perspectivas não são animadoras. Esperamos uma forte desaceleração no consumo privado, sobretudo em 2009, com a enorme dificuldade na obtenção de crédito a piorar o cenário. Melhorias só no fim de 2009, sendo optimista.
Consumo Público - É uma enorme interrogação. A equipa do Ministério das Finanças deve estar neste momento com uma grande dor de cabeça ao pensar no orçamento de 2009. Nesta altura ainda não é certo que tipo de meios terá de aplicar no auxílio ao sistema financeiro e às famílias, neste ano ou no próximo. Por outro lado o modelo escolhido para as obras públicas passa pelas parcerias público-privadas, mas as actuais dificuldades de financiamento obrigarão o Estado ou a avançar com mais verbas ou a cancelar inciativas. A tudo isto acresce a imprevisibilidade das receitas fiscais para 2009. 
Investimento - Regra geral investir implica confiança e uma expectativa positiva quanto à economia no médio prazo. Em face de tudo o que se tem observado as empresas estão mais preocupadas em sobreviver do que em crescer e, por outro lado, mesmo os investimentos de reposição e modernização poderão ficar comprometidos por falta de financiamento ou de confiança. Pelo menos até meados de 2009 não é de esperar alterações neste cenário negativo.
Comércio Externo - Uma parte significativa do crescimento estava a ser conseguido pelo bom desempenho do sector exportador. A queda do euro ajuda os exportadores, mas os nossos principais clientes - Espanha, Alemanha, EUA, Inglaterra e França - estão no epicentro da crise. A paralisação na Auto Europa é um aviso do que pode vir por aí. A queda dos preços do petróleo deverá ajudar a  Balança comercial, mas a menor procura de produtos refinados deve prejudicar uma das exportações com mais peso. Dada a rigidez de grande parte das importações nacionais é de esperar uma evolução negativa no comércio externo.
Então o quadro é péssimo para Portugal? Em termos relativos nem tudo será mau porque haverá países em piores circunstâncias, mas seria irrealista traçar um panorama risonho para os próximos 12 meses. 
O país deve aproveitar precisamente o que muitos apontam como sendo uma debilidade - a sua grande integração, nomeadamente no euro. Será no quadro da UE e da UEM que Portugal se poderá destacar, caso garanta o normal funcionamento do sistema financeiro e da economia em geral. Daqui poderá retirar importantes dividendos no futuro.
Algo que seria seguramente impossível caso se tratasse de uma economia isolada, como o caso da Islândia - na bancarrota - bem exemplifica.
(Este é a segunda parte da Trilogia "O que vem a seguir?" 1. O Consumidor; 2. A Economia [portuguesa]; 3. Os Mercados)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O que vem a seguir?

O que vem a seguir?
1. O Consumidor
A crise financeira vai passar. Mais tarde ou mais cedo, com danos mais ou menos sérios, com mais ou menos vítimas... mas vai passar. Não é apenas a história que o diz, mas também a natureza dos processos evolutivos  que caracterizam desde sempre a realidade económica. Interessa olhar um pouco mais para a frente e começar a pensar no que aí vem. Infelizmente não é possível ser optimista para os próximos tempos. 
Partindo do princípio que da crise financeira não resultarão eventos demasiadamente graves como a queda de todo o sistema financeiro após corridas aos bancos ou falência de países ou grandes empresas - o que nos dias que correm é um pressuposto optimista - estimamos que os efeitos no consumidor apareçam já no final do ano. Os problemas poderão ser mascarados ou atenuados durante a época natalícia, mas aparecerão com toda a sua força a partir dessa altura.
Sem querer simplificar demasiadamente, o comportamento do consumidor depende essencialmente de 2 factores: rendimento disponível e confiança, sendo que o acesso ao crédito aparece como uma variável que pode condicionar ambos.  
Não há muitas razões para acreditar num aumento do rendimento. Nesta altura já há sinais muito claros de estagnação no investimento e consumo de bens duradouros - a paragem da Auto Europa é apenas mais uma evidência. Estes são indicadores leading da evolução económica. Os salários dificilmente subirão e as contratações deverão ser reduzidas ao essencial. Apesar da crise, não é líquido que os preços desçam, pelo contrário.
A confiança dos consumidores já está a diminuir. Tudo indica que à medida que as empresas se forem debatendo com dificuldades de financiamento, os trabalhadores começarão a sentir os seus postos de trabalho em risco, ou pelo menos a progressão de carreira.
Prever dificuldades no acesso ao crédito quase não é uma previsão. Vai mesmo acontecer e de forma generalizada. Atingirá bancos, empresas, particulares e até o Governo.  O menor acesso ao crédito diminuirá o rendimento disponível e afectará a confiança já que os consumidores ficam mais inseguros e com menos opções em aberto.
Se este cenário se materializar, toda a economia entrará em sérias dificuldades e durante algum tempo. "Adivinhamos" que o retalho seja gravemente atingido nesta crise - provavelmente a principal vítima. Os retalhistas poderão adoptar uma posição de risk-takers, concedendo crédito aos consumidores, à boa maneira da década de 80 quando os bancos não se atreviam a apostar no crédito ao consumo e como hoje ainda se faz nos países emergentes. É uma saída arriscada, mas não parece que existam muitas mais!
(Este é a primeira parte da Trilogia "O que vem a seguir?" 1. O Consumidor; 2. A Economia [portuguesa]; 3. Os Mercados)