sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Vícios da banca

Nos últimos dias, foi notícia a proibição que o Banco de Portugal (BdP) decretou sobre a cobrança de comissões bancárias não previstas no preçário dos bancos junto dos seus clientes. Na minha opinião, trata-se de uma iniciativa extraordinária da entidade reguladora porque confirma uma realidade há muito debatida: que muitos bancos se fazem pagar às escondidas, provavelmente, em violação contratual das suas responsabilidades fiduciárias. Entretanto, a Associação Portuguesa de Bancos (APB), na voz do seu presidente João Salgueiro, já reagiu. De acordo com citações publicadas na imprensa especializada, a APB afirma que não são de esperar alterações significativas e que tudo se deve à ignorância financeira da generalidade dos portugueses. Ou seja, afinal, os vilões são os clientes! A verdade, porém, é que os abusos sobre os clientes acumulam-se ano após ano e não se registam apenas no domínio daquelas pequenas comissões que ninguém nota, mas cuja cobrança, multiplicada por milhares de clientes, resulta em receitas significativas para os bancos. Há outros vícios na banca. Por exemplo, as taxas de juro que em alguns casos são enganosamente publicitadas e noutros são mal arredondadas. Sempre em prejuízo do cliente. Ou então, os depósitos a prazo que nem sempre o são. E, também, os fundos de investimento com risco, mas que na sequência de anos de conjuntura positiva nos mercados são apresentados como veículos sem risco. Enfim, a ética deve preceder o lucro. A transparência em lugar do embuste. E a simplicidade em alternativa à sofisticação. (*) Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 9/01/2009.

6 comentários:

Pedro Sequeira disse...

Ponto prévio, trabalho num banco. Ricardo, acho que estás a ter uma opinião tendenciosa e assente em premissas erradas. A banca erra, mas não vamos ser sectários e “bloquistas” para colocar sempre em causa a actuação da banca. Em primeiro lugar, os bancos já são há muito tempo obrigados a divulgar e expor em local visível o preçário dos produtos e serviços, apesar de haver quem afirme que ainda não é uma boa prática instalada. Em segundo lugar, mais uma vez só se está a defender um lado. Lembro-me da altura em que a Euribor estava a subir vertiginosamente e os “comentadores de serviço” vinham a público defender os coitadinhos que tinham 10 empréstimos em simultâneo e que não conseguiam pagar por culpa dos bancos. Sim, muitos casos eram 10 empréstimos! A culpa destes casos era dos bancos. O cliente tentava não assinar, mas os bancos provavelmente obrigavam os clientes com uma “faca ao peito”. Em terceiro lugar, dou o exemplo de que agora se fala da comissão das contas a descoberto: Se o cliente é avisado (e não vale a pena dizer que o cliente não é avisado) que deverá evitar passar um cheque a descoberto, e que se passa terá um preçário específico aplicado a esse descoberto indevido, o cliente só tem duas alternativas: Ou continua a passar a descoberto e aceita o preçário, ou deixa de passar cheques sobre dinheiro que não lhe pertence, ou não aceita o preçário e aí tem sempre a opção de mudar de banco, caso contrário terá um cheque devolvido. Não vejo sinceramente qualquer problema nesta situação. O cliente é livre de escolher e, no limite tem sempre a hipótese de ir abrir conta na CGD. Em quarto lugar, o arredondamento das taxas já é uma realidade instalada e de acordo com as regras do decreto-lei que regulamentou esta matéria. A banca cumpre as regras que lhe são impostas, sem pestanejar, mas tentando como é obvio encontrar formas legítimas de manter o seu negócio, encontrando alternativas à manutenção da receita que pretende ter. Quem não o faz ? É ilegítimo ? De quem é o negócio afinal ? Em último lugar, sobre os depósitos a prazo, não vale a pena falarmos muito, mas a questão é simples. Não escondo que há abusos de alguns comerciais dos bancos, que induzem os clientes para determinados produtos de risco, quando os clientes pensam que não tem risco (colocando de lado agora o verdadeiro conceito de risco, uma vez que um depósito a prazo também tem risco). Mas isso são péssimos colaboradores que existem em qualquer sector de actividade e em qualquer empresa. Há por aí aos montes, e são esses que estão mais em risco de incorporar o indicador do aumento de desemprego. Mas há também uma questão mais complexa, que é a ignorância absoluta sobre a característica dos produtos financeiros numa grande parte dos clientes, e aqui há muito trabalho a fazer, não sendo da competencia exclusiva dos bancos. A cultura financeira deveria começar na escola primária, e portanto se há culpas nesta matéria viremo-nos para quem pode mudar o estado das coisas, que neste momento é o Governo que temos. Infelizmente penso que ainda não é com este que as coisas vão mudar.

Filipe Garcia disse...

sinceramente acho q o mais grave nos bancos tem sido a forma como tem ficado claro o pouco cuidado com a sua própria sobrevivência... com as consequências q isso tem para todos...

Pedro Sequeira disse...

Certo Filipe, mas é outro tema esse.

Anónimo disse...

Pedro,

Quanto aos temas que mencionas deixa-me fazer o contradiório!

Quanto ao preçário, apesar da divulgação que já existe, é evidente que continuam a existir abusos e comissões não standard que são aplicadas sem critério. Não será generalizado, mas que existem, não há dúvidas. Caso contrário, não seria o próprio BdP a alertar para isso!

Em relação aos "vilões", concordo contigo: existirão muitos clientes que são os maus da fita. Nomeadamente, aqueles que, de forma consciente e informada, contraem empréstimos em catadupa numa permanente fuga para a frente. Contudo, não é menos verdade que também existem outros casos em que é o banco a impingir crédito a clientes desinformados, muitas vezes com tácticas publicitárias demoniacamente agressivas. Estou a recordar-me por exemplo da campanha do Santander em que telefonavam às pessoas com a seguinte conversa fiada "Soubemos que está a pensar abrir um negócio próprio (?!?!) e cá estamos então para lhe oferecer XXX euros". Isto é inqualificável. Aconteceu comigo e com vários conhecidos meus - sempre com a mesma treta. No meu caso não colou e a menina levou logo uma rabecada que acabou a conversa a pedir-me desculpa.

No domínio dos depósitos, há um ano atrás uma boa parte dos autocarros na cidade do Porto exibiam reclamos a anunciar 10% de taxa de juro...na letra miúda descobria-se que afinal era 10% mas só no primeiro mês. Na altura, o Jornal de Negócios fez uma excelente reportagem, que serviu de mote para um dos meus artigos na Vida Económica, onde analisou 16 DP's de vários bancos (nacionais e estrangeiros) e concluiu que, em média, o depositante recebia apenas 36% da taxa publicitada. Francamente, o que é que se chama a isto? Eu chamo-lhe: um embuste.

Agora, concordo contigo, a banca é um negócio que tem de remunerar o capital dos seus accionistas. Nada contra isso. O problema é que uma boa parte do negócio da banca consiste na utilização de uma linguagem imperceptível para a maioria. E não estou a falar de analfabetos. No decurso da minha vida profissional, já tive a oportunidade de me cruzar com médicos, engenheiros, arquitectos, professores que se queixam do mesmo.

Portanto, na minha opinião, os bancos têm um problema muito sério de má comunicação. Bem sei que a pressão concorrencial é enorme, tanto aquela que se exerce entre bancos como aquela que se exerce dentro das próprias instituições, mas algo deve ser feito no sentido de melhor proteger o cliente. Julgo que uma comunicação menos artilhada, envolvendo produtos e contratos menos sofisticados, ajudaria e muito. Infelizmente, só a APB ainda não percebeu isso.

De resto, para concluir, este artigo não é uma afronta aos profissionais da banca. Eu próprio trabalho num sector relacionado. Trata-se apenas de uma crítica a alguns comportamentos na banca que devem ser corrigidos.

Ricardo Arroja

P Miranda disse...

Acho que voltamos ao velho "quem não deve não teme". É uma medida que responde ás preocupações dos simples depositantes e "aparentemente" não condiciona as práticas já instituidas no sector, pelo menos pela maioria.
(segundo o Pedro).
Se fosse político era a típica resolução que gostaria de tomar.

superior disse...
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