segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A "Face Oculta" dos Aviões



Ainda os aviões estavam no ar e já corria no Porto o rumor que Lisboa iria tentar organizar a Red Bull Air Race em 2010. Na semana passada ficamos a saber que era verdade e que o irá, provavelmente migrar a Sul. É uma mudança lícita? Faz sentido numa lógica de desenvolvimento harmonizado do país?

Antes de mais, importa constatar um facto: as corridas organizadas no Porto são um sucesso completo. As margens do rio estiveram sempre cheias, a imagem da cidade, da região e do país saiu reforçada, assim como os seus produtos, serviços e gentes. O impacto sócio-cultural foi positivo e geraram-se milhares de empregos e muitas receitas directas e indirectas.

Alguns dirão que estamos num espaço concorrencial e que isso inclui a disputa, entre as cidades, pelos melhores eventos. Mas fará sentido ter essa "guerra" no mesmo país, perante um evento de projecção internacional e que tem sido um enorme sucesso? Ao que parece, Lisboa está a ganhar a corrida por apresentar patrocínios elevados, concedidos por empresas cuja gestão é, no mínimo, influenciada pelo Estado. A Galp, Edp e PT teriam a ganhar sensivelmente o mesmo se apoiassem o evento no Porto, Coimbra, Faro ou em outra cidade.

O que está a acontecer faz lembrar o mediático processo "Face Oculta". Alguém parece utilizar as suas influências junto de grandes empresas para atingir um objectivo anti-concorrencial. Que diferença há entre beneficiar uma empresa de sucatas ou uma cidade?

Estamos perante mais um reflexo de um país centralizado. Até as cimeiras e os tratados têm que acontecer na capital, nada sobra para as outras cidades. Mesmo o TGV já foi adiado a Norte.

Lisboa é um eucalipto que seca o país.

Concorrência? Não! O que temos é abuso de posição dominante.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 7 de Dezembro de 2009



2 comentários:

Pedro Sequeira disse...

Apesar de concordar contigo neste caso particular, corremos sempre o risco de, aqui no Norte e regra geral, sermos acusados de uma visão muito provinciana dos negócios.

Filipe Garcia disse...

Estou disposto a correr esse risco. Se não 'protestamos' as coisas só pioram e ainda se diz que está tudo bem; se protestamos somos parolos... enfim. Eu no artigo defendo uma posição com um argumento que nem diz respeito ao Porto, Norte ou a uma região em concreto. Isso de ter medo de nos acharem provincianos é, de certa foram, um complexo de inferioridade que todos temos que superar.
FG