domingo, 14 de dezembro de 2008

Direito à Indignação

Lentamente, fui saindo da zona de conforto onde tendemos a nos recatar quando percebemos que uma vaga de pensamentos falantes opina e pressiona num determinado sentido, numa única direcção, num uníssono que de tão estranho merece desconfiança. Crescemos a ouvir falar de mercado livre e concorrencial, como argumentos de evolução (entretanto se transformou em evolução sustentável) num ambiente democrático, e não obstante satisfazemo-nos com muito pouco.
Demasiado pouco, devo acrescentar. O país em que a maior oportunidade real de crescimento no longo prazo se sustenta no turismo é o mesmo país que despediu a ASAE por excesso de competência. Uma nação que prefere abdicar do controlo alimentar com comprovados resultados só para não ter de aturar os excessos de alguém, que prefere um controlo brando e ineficaz a um eficiente - e que produz, para além de maior segurança para todos, um novo nível de standard de qualidade para o mercado - não parece ser uma nação com vontade de evoluir. A falácia poderá estar não na falta de racional de cada um de nós, mas na mediatização extrema das patetadas de meias dúzia de incomodados e de um líder partidário à procura do protagonismo dos tempos de jornalista. E assim, voltamos a perder muito do que já tinha sido feito.
Voltaram as refeições congeladas aos frigoríficos de muitos restaurantes, os DVD´s piratas às bancas das feiras, as publicidades de hipermercado com descontos de 50% que na realidade são de 33%, os anúncios de “10 meses sem juros “ com TAEG de 9,8%, os cruzamentos microbiológicos na preparação alimentar e o relaxe total na falta de licença de milhares de cafés e restaurantes de portas abertas. Voltaram as fotocópias ilegais, a contrafacção livre em feiras policiadas com o dinheiro dos contribuintes, o mercado paralelo, negro ou pirata que é capaz de capar o investimento, emprego e evolução.
Para os incomodados voltou a paz, para o Governo voltou a tranquilidade, para o imenso silêncio dos prejudicados quedou-se a ignorância, a inconsciência ou a preguiça. Tenho todo o direito à indignação!

9 comentários:

Anónimo disse...

Pois eu estou indignidado é por verificar que ainda existem pessoas que não perceberam que com mais leis e com uma leitura e fiscalização fundamentalista da lei apenas se promove a redução e concentração do número de agentes económicos, reduzindo a diversidade e possibilidade de escolha do consumidor e fazendo com que os acidentes, quando ocorrem, atinjam cada vez mais um maior número de pessoas, como as regulares crises alimentares tão bem ilustram (veja-se o caso das dioxinas na carne de porco irlandesa que implicam a recolha de toda a produção de um país). Acho que não é difícil perceber que, a longo prazo, acções com lógica ASAE (tipo fecha-se) contribuem mais para a insegurança alimentar e económica do que o contrário.

Pedro Barbosa disse...

Nao reparei em alguem que tivesse sugerido mais leis.

Pelo contrario, estamos de acordo que as leis chegam, ou pelo menos nao sao o mais importante.

Estamos de acordo que precisamos de segurança alimentar e nao da insegurança que ainda hoje reina na maioria dos cafés e restaurantes. Sim, nna MAIORIA.

Leram bem.

NM disse...

Pois olhe que eu acho que reina ainda mais insegurança na opinião de muita gente. A acção da ASAE e afins levada ao extremo, ao estilo deste post, tem um efeito paradoxal. Mas, já agora, quem é que despediu a ASAE?

Pedro Barbosa disse...

E evidente que a ASAE exagerou, mas acreditem que muito começou a mudar por sua pressao. E acreditem que na area alimentar nao e preciso descer aos chineses para se estar em situaçoes muito mas. E apenas mas sao uns 60% dos restaurantes. Digo maus como sem cuimprimento da lei em termos de regras basicas de higiene e de autocontrolo, de equipamentos que reduzam a probabilidade de problemas microbiologicos...

Quem despediu a ASAE foi a pressao dos incomodados primeiro, ajudados por jornalistas depois, coadjudados pelo Pualo Portas e finalmente pelo Governo, que os tera mandado acalmar, para evitar piores coisas.

É bom para quem quer comprar roupa roubada e comer sem segurança. Eu nao deixo de me achar com direito A indignaçao.

PM disse...

Exelente e corajoso post!!!!
Na realidade ainda fomentamos uma cultura laxista e demasiado conservadora. Nesse aspecto temos muito que aprender com os Nórdicos. O tão apregoado rigôr é esmagado pelo jogo político o compadrio empresarial. Aproveite-se a crise para justificar o que já deveria ser a postura corrente.

Filipe Garcia disse...

Acho que este é um domínio em que temos o que merecemos - enquanto povo, pq eu individualmente não aprecio a "festa da salmonela"

Os portugueses são, a par de outros povos irmãos, muito exigentes no discurso e no cumprimento pelos demais, mas qdo toca a nós, à nossa "quinta" só queremos regimes de excepção

a ASAE fez overshooting das funções? com certeza! mas ate parece que estavamos melhor com as práticas da década de 70...

Anónimo disse...

A descrição que PB faz da situação dos restaurantes é vaga e nada objectiva.Há duas alternativas: ou temos uma autoridade fiscalizadora rigorosa interessada em promover a melhoria de condições de funcionamento dos agentes económicos que promove com pedagogia e punição razoável o cumprimento da lei, atendendo à sua dimensão. Ou temos um entidade fiscalizadora fundamentalista que só se sente actuante pelo estardalhaço mediático e pela imagem de exterminador implacável que procura transmitir, tratando um vendedor ambulante como um hipermercado. A segunda via pouco mais faz do que inviabilizar os pequenos e médios agentes que não conseguem diluir os custos de regulatory, de qualidade, de jurídico inerentes, nem tampouco os rendimentos auferidos justificam o risco de, inesperadamente, ver a sua cabeça aparecer a abrir os noticiários.
O resultado está cada vez mais à vista. Estamos dependentes de duas ou três marcas de cada produto alimentar, vendidas em duas ou três cadeias de hipermercados, dependedo de dois ou três fornecedores. Situação agravada por nos tormarmos também mais dependentes de países onde a legislação e os critérios de fiscalização não são os mesmos. Aí está a China para exemplificar.
Num país que importa metade do que consome esta atitude da ASAE torna, a longo prazo, objectivamente, a alimentação menos segura.

Anónimo disse...

Este post ja tem conteudo e um argumento valido : que a contaminaçao pode vir a montante. E um bom ponto.

Mas nao suporta mais do meio por cento (se tanto) dos problemas: aqueles que ou não sao superados na transformaçao alimentar (4 ppm) ou aqueles que sao consumidos crus (casos muito raros).

Na alimentaçao, e na transformaçao que esta o risco. Na transformaçao e no manusamento, e cruzamento. Tratam-se de factos elementares, e infelizmente e ai que está o centro de gravidade das discussões deste tema, pela nossa total incapacidade de progredir.

Alerto ainda que não ha essas duias possibilidades mencionadas: ha uma outra , em que o controlo e raro, duvidoso e normalmente antecipado pelos agentes económicos. Este, que e o portugues, produz o pior dos resultados. E nos somos pessimos cidadao ao ser complacentes, uma complacencia que e induzida por um medo de autocracia, que se sobrepoe a tudo o resto (legado historico)

Finalmente, referir que a alimentaçao e apenas o pico do icebergue. O mercado paralelo /negro e quase duas vezes maior do que em Espanha ou França, e assim se perdem quase 7% do "PIB latente". Isto a preços de mercadio negro, porque se for a preços de produtos substitutos e com impostos, sobe para 12 a 18...

Sei que e facil criticar a ASAE e o controlo, sobretudo porque se fez disso uma tendEncia, uma moda. Esta artigo so pretende sublinhar a minha indignaçao da nossa incipiente cidadania.

Pedro Barbosa

Anónimo disse...

Incipiente cidadania é talvez pensarmos que os portugueses são os piores de todos, que os nórdicos é que sabem (e sabem muito bem defender os seus interesses em Bruxelas), que pessoalmente somos muito exigentes com tudo o que fazemos mas à nossa volta está uma cambada negligente e badalhoca que procura ganhar a vida a enganar o seu semelhante. Comparando o que vejo em Portugal com o pouco que já vi pelo mundo fora, isso indigna-me.