quinta-feira, 28 de outubro de 2010

É preciso ter calma



A impossibilidade de se chegar a um acordo relativamente ao orçamento de 2011 em Portugal merece alguma atenção e obriga a focar no que é importante.

Não obstante a questão orçamental poder levar também a uma crise política, parece-nos que há algum dramatismo e exagero na forma como a questão está a ser tratada, nomeadamente pelos media e nas “conversas de bastidores”. É relativamente comum assistir a impasses orçamentais e a crises políticas em todo o mundo, sem que daí surjam situações dramáticas para os agentes económicos. Não pretendemos desvalorizar o actual momento económico-financeiro do país, mas as empresas devem tentar focar no seu negócio e tomar decisões sem se deixar envolver por um clima demasiadamente “quente” e até emotivo.

Na minha opinião, a economia portuguesa, nomeadamente o seu sistema financeiro, estiveram bem mais em risco no final de 2008 e no início de 2009 do que agora. Mais do que isso, os clientes de Portugal estão hoje em crescimento e não em recessão ou em “choque” como nessa altura. A eventualidade de uma intervenção do FMI (apenas um dos cenários para já) nem seria catastrófica para as empresas.

Esta é uma crise inevitável do Estado português, após muitos anos de défices e de endividamento externo. Há vasos comunicantes, mas é muito mais uma crise do Estado que uma crise do país e ainda menos uma crise das empresas, que deverão continuar a monitorizar as suas condições de negócio como até aqui, sem se deixar influenciar em demasia pelo frenesim que beneficia sobretudo os media e alguns sectores políticos.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros


4 comentários:

Ana Paula Cruz disse...

Ora aí está uma posição sensata e de quem conhece a força dos Media. Não há dúvida de que, com a necessidade de criar notícia (e vender) os nossos Meios de Comunicação Social chegam a ser disfuncionais. Ao invés de cumprirem a sua Função de mediador entre intervenientes da esfera pública e da privada, acabam por cair num sistema, ele próprio disfuncional. Veja-se o caso da nossa "pandemia" da Gripe A que em Espanha não mereceu mais do que umas notitas de imprensa e que aqui fez correr rios de tinta.

Pedro Sequeira disse...

Estou de acordo com as disfunções da Comunicação social sobre a situação que estamos a viver.
Já quanto às consequências para as empresas no caso de entrada do FMI, não sei se era mais ou menos catastrófica, mas que seria mau seria. As empresas estão pouco capitalizadas, os grandes accionistas estão sem dinheiro (já nem falo dos pequenos) e as restrições ao crédito iriam ser sentidas com muito mais força. O financiamento do negócio das empresas seria um problema ainda maior do que já é actualmente. Isso não seria bom seguramente, porque para acompanhar o crescimento dos outros países, é preciso sermos competitivos. E para sermos competitivos, é preciso haver investimento. E para haver investimento, é preciso crédito.
Mas que vai ser inevitável um caminho diferente, acho que vai, não sei bem é quando.

Filipe Garcia disse...

Uma eventual entrada do FMI poderia ter aspectos positivos, embora seja um "risk event".

Seria de esperar que uma eventual entrada do FMI viesse a tornar obrigatórias algumas reformas na legislação do mercado de trabalho.

aliás penso que é por isso que a UGT agora já prefere que o orçamento passe.

Pedro Sequeira disse...

A entrada do FMI teria seguramente aspectos positivos e muitos até. Mas neste momento os riscos para as empresas seriam enormes, na minha modesta opinião. Note-se que a retracção do crédito já é hoje uma realidade e com a presença do FMI seria muito superior. Termino com uma frase do nosso Presidente da Republica na comunicação ao país efectuada há minutos: "a nossa economia não consegue funcionar satisfatoriamente sem recurso ao financiamento externo ... conduzirá à retracção da economia ... e graves implicações nas empresas e famnílias."