quarta-feira, 6 de maio de 2009

Crime e Castigo



A evolução do emprego é preocupante, mas nada acontece por acaso. As tendências no mercado de trabalho são o "castigo"  para uma economia que não soube ou não quis flexibilizar as regras em tempo útil. Cometeu-se um "crime".

Em economia, tudo é uma questão de tempo. Era necessário reduzir a rigidez do mercado e dos custos associados à criação de emprego. Não aconteceu “a bem”, mudando a legislação numa conjuntura mais favorável a acomodar os efeitos negativos. Acontece agora “a mal”, com as empresas a procederem aos acertos necessários ou, pior, a cortes irremediáveis que acompanham o seu processo de falência.
 
Há três tendências a notar: o desemprego, o outsourcing laboral e o subemprego. Do desemprego muito se fala, mas há outros fenómenos que merecem atenção. As empresas estão a deixar de contratar, recorrendo a empresas de trabalho temporário. Através deste outsourcing flexibilizam a mão-de-obra e o trabalhador é pago a “recibos verdes”. Mais grave é a situação de subemprego. Há cada vez mais trabalhadores a receber em dinheiro vivo, salários baixos, que acumulam ao subsídio de desemprego. Sabe-se de empresas que despedem os funcionários, voltando a “contratá-los” com total informalidade. Perde o Estado e perde o trabalhador.

Enquanto não se compreender que flexibilizar dá sustentabilidade ao mercado do trabalho e que as as medidas proteccionistas implicarão mais emprego precário, continuaremos a ter períodos de ineficiência seguidos de desemprego, subemprego, outsourcing e economia informal. Não será por acaso que as receitas do IVA desceram muito mais do que o PIB.

É o castigo.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado no jornal Meia Hora em 6 de Maio de 2009


7 comentários:

Pedro disse...

O maior desafio que a flexibilização comporta, é o de prevenir, tanto quanto possível, a tentação que os agentes empregadores terão de em tornar "tudo" flexível, reduzindo a sua própria competitividade por via da pouca familiaridade que os trabalhadores acabarão por ter. No meu entendimento, ainda temos pouca educação desta pratica, sendo prova disso mesmo as praticas a que os empresários se prestam referidas na crónica.
Pedro Gonzaga

Ana Paula Cruz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Paula Cruz disse...

Com o pouco tempo com que estou, aqui fica o meu comment: Esta questão do subemprego é mesmo real…
Tenho uma amiga k trabalhou até agora numa grande editora e despediram-na porque a crise e não sei mais o quê… A seguir propuseram-lhe menos dinheiro e recibos verdes. Ela, evidentemente, aceitou até encontrar algo melhor… (mas o nosso mercado, a partir dos 35, por razões várias...)

Por outro lado, tenho um outro amigo (free lancer professor, free lancer consultor, free lancer gestor…) que prefere a precariedade certa do que a certeza precária, lol, o que neste contexto me parece o mais saudável.

André Castro Pinheiro disse...

Concordo 100% com a tua opinião. O maior inimigo do trabalho digno e justamente recompensado (não do 'emprego') é a rigidez da lei laboral.

Ricardo Arroja disse...

Excelente artigo...na sequência de uma discussão tida no meu jantar de aniversário, correcto meu caro? Se bem me recordo, falta-te apenas tratar a dimensão dessa "informalidade" ou "economia paralela". Mas isso é tema para outro artigo.

Contudo, voltando à questão de fundo, o enquadramento do emprego e das leis do trabalho, eu sou da opinião que se, no limite, toda a gente trabalhasse a recibos verdes, a economia como um todo ganhava, aumentando o nível médio dos salários. Infelizmente, dada a iliteracia e a forma imediatista como vive a generalidades dos portugueses, ninguém iria auto financiar a sua própria Segurança Social, com todos os perigos daí decorrentes. Uma pena...porque é devido ao Estado social que temos estas leis do trabalho e este elevado nível de impostos que afugentam qualquer empregador!

Anónimo disse...

Excelente artigo, com comentarios que so demonstram o quanto obvio o tema e e o quanto estupida pode ser uma economia quando e movida por opinioes publicas baseadas no pouplismo e na demagogia .

Espero que sindicatos e partidos que tanto defendem os trabalhadores eswtejam a beber champagne ...

Pedro Barbosa

Anónimo disse...

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