segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Direitos de Autor

O lançamento do livro “Speculations and Trends”, livre de direitos de autor e aberto para que a sociedade o utilize em seu proveito, veio relançar a discussão sobre o tema da propriedade intelectual e dos direitos que cada criador tem e deve ter sobre as obras que produz.
Refira-se que os direitos de autor são uma barreira ao desenvolvimento célere do conhecimento, porquanto atrasam, limitam ou impedem a utilização da informação para criação de novas versões, melhoradas ou diferentes. O remix de conteúdos da área do conhecimento – mashups - tem acelerado aquilo que se designa vulgarmente por sociedade do conhecimento, onde países como a Índia, Rússia e China desempenham um papel cada vez mais relevante, fruto da sua flexibilidade em matéria de direitos de autor. Naturalmente, os direitos de autor foram criados para remunerar os autores e esse é um assunto que tem de ser resolvido, agora que urge liberalizar a utilização das obras – sejam músicas, filmes ou livros.
Na sociedade de hoje, os autores dispõem de um sem número de outras formas de remuneração, como concertos, seminários, conferências ou pareceres, para além do mais óbvio : a venda dos seus produtos. Há quem confunda uma margem da venda de um produto de sua criação com proibição de reprodução e limitação de utilização das obras. Se a primeira é legítima e recomendada, a segunda faz parte do passado.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

E você? (*)

É minha convicção de que a grande decisão geopolítica que se avizinha é o referendo ao federalismo europeu no espaço da zona euro. Ocorrerá, provavelmente, dentro de poucos anos. Ao contrário de outras tentativas de integração, realizadas noutros tempos da nossa História, a União Europeia, como nós a conhecemos hoje, assenta num conjunto de benefícios e responsabilidades mútuas. É uma espécie de clube privado, onde, até aqui, o principal elo de ligação tem sido o euro. Ora, tal como um governo que inicia uma nova legislatura, o euro também teve direito ao seu período de graça. Mas esse período de graça acabou. Na ausência de uma união política entre os membros da zona euro, a indisciplina de alguns convidados do clube está finalmente a emergir. Como? Na forma de uma crise das finanças públicas, na Grécia, na Irlanda e, em breve, noutros países, entre os quais Portugal. A opção de sair do euro, diz-se, não é opção. Contudo, nos mercados, como a crise bancária do ano passado evidenciou, um “bluff” mal feito pode custar muito caro. Assim, se nada mudar, e sem espaço para se aumentarem impostos, a despesa pública em alguns países europeus cairá drasticamente. À contestação social que surgir, seguir-se-á a pressão para abandonar o euro; para gáudio da multidão, mas sem benefício para o país. Será, pois, nesse dia que alguém exclamará: votemos pela Europa! E você…como reagirá? (*) Publicado no jornal METRO a 22 de Janeiro de 2010.

Plano B

B-Task

Frequentemente, as organizações necessitam de competências fora do seu âmbito central de actuação, sobretudo em áreas ligadas às novas tecnologias. Nestes casos, ou em necessidades ocasionais de conhecimentos em áreas onde a empresa não tem competências desenvolvidas, a solução mais comum da gestão contemporânea passa por um denominador comum: subcontratação.

Dentro das empresas, nos níveis e funções mais improváveis, os gestores encontrariam quase sempre alguém com microcompetências que satisfariam as necessidades mais imediatas, sem o investimento em tempo e dinheiro que o outsourcing exige. Cozinheiros que sabem integrar o iPod com o Blogger, repositores que podem resolver problemas de manutenção nas arcas frigorificas ou telefonistas com competências no Photoshop são situações recorrentes e quase permanentes nas empresas, fruto de outras experiências profissionais e hobbies ou interesses pessoais dos respectivos colaboradores. Em alguns casos, a empresa poderia aproveitar estas competências, poupando tempo e dinheiro e motivando os recursos. Noutros, mais estruturais, poderia utilizar os conhecimentos para o briefing da subcontratação.

As empresas não utilizem estas competências complementares dos seus recursos por desconhecimento, pelo que parece fazer sentido reinventar processos noutras áreas da gestão de pessoas, nomeadamente nos projectos de desenvolvimento pessoal.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

PuraMente #39 - Micro Trends

Micro Trends
Nome: Micro Trends
Autor: Marc Penn & E. Kinney Zalesne
Data Original: Outubro 2007
Frase: "Surprising tales of the way we live today"
Keywords: trends; social; economy; health; lifestyle; education;Technology
Apreciação: ***
Micro Trends é uma curiosa e interessante mistura de livro técnico com romance, no sentido que divaga de forma conscientemente pouco cientifica – área que não aprofunda demasiado para tornar a obra mais acessível a todos - sobre temas da maior importância, dando-lhe o rigor estatístico necessário.
O livro está dividido em 15 capítulos, que representam agrupamentos de assuntos considerados críticos pelos autores, em matéria de tendências para os próximos anos. Micro Trends trata dos pequenos grupos de tendências que criarão grandes alterações no futuro próximo, explorando de forma intrigante as diferenças entre as pessoas e como essas diferenças, sistematizadas no fim da uniformização, podem consistir na resposta para os muitos dos problemas.
Noutro registo, Micro Trends demonstra que “small is the new big”, através de um completo exercício de nano-sociologia, explanado através de análises em áreas como negócios, imagem, adolescência, vida em família, religião, cultura, educação, política, entretenimento ou dieta. Mark Penn sustenta a tese de que serão micro tendências nestas áreas que condicionarão o futuro e acelerarão a mudança. A importância da tese relaciona-se com o facto de se tratarem de micro tendências pouco estudadas, acompanhadas e vigiadas, o que conduz a uma conclusão da insuficiente informação que os gestores e políticos actuais têm sobre o futuro, bem como – não menos importante – em conhecer a origem e explicação dos problemas na nascente do seu caudal, antes de se tornarem grandes e incontroláveis rios, repletos de cocktails de micro razões potenciais, dificilmente estudáveis ou tratáveis.
Micro Trends não é um livro obrigatório, mas recomenda-se a todos que procurem conhecer fenómenos sociais que influenciam o futuro próximo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

No tempo certo

Foto: Luís Ferreira
Houve momento de respostas urgentes – pacificar ânimos, injectar liquidez, intervir em sectores sensíveis, acalmar mercados. Com o restaurar da confiança e a retoma no horizonte, é tempo de apostas prioritárias – aproveitar a recuperação da economia para fazer germinar novos modelos de desenvolvimento assentes em inovadores factores competitivos.
Situações exigentes requerem respostas inteligentes. Com diminuta margem de manobra, Estados, empresas e famílias, vêem-se obrigados a ser muito rigorosos e decididos nas apostas a levar a cabo. É vital ter uma noção clara dos diferentes planos de tempo onde actuam estas escolhas: destrinçar aquelas próximas, de curto prazo, das mais estratégicas dirigidas a um tempo mais dilatado. Muito perigosa é a mistura das estações. Ceder à pressão do dia-a-dia e à urgência de interesses imediatos, hipotecando o futuro, não sendo capaz de dinamizar diligentemente as acções – mais críticas – de longo prazo.
Do Estado espera-se drástico emagrecimento e séria aposta na reestruturação das principais referências da economia; das empresas, afastando-se da subsídio-dependência, que tenham resiliência e audácia, ousando uma criatividade diferenciadora; das famílias que substituam os apelos de consumo por maior planeamento do futuro. A todos é prescrita visão mais lata, menos facilitadora e menos egoísta.
Publicado no jornal "METRO" em 18-Jan-2010

domingo, 17 de janeiro de 2010

Não basta parecê-lo. É preciso sê-lo.

À medida que as pessoas vão incrementando a compra de produtos e serviços on-line, é muito provável que se questionem cada vez mais se aquilo que é percepcionado é garantido. Actualmente, antes de comprarem on-line, ainda querem ser tranquilizadas por alguém que conhecem, como um pai, um amigo ou colega de trabalho. O rating atribuído a um fornecedor, garantindo que é trustworthy, será determinante no incentivo e incremento das compras on-line.

PuraMente #38 - Drive

Nome : Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us

Autor: Daniel Pink

Data Original: Dezembro 2009

Frase: "A ciência é apenas uma das formas de compreender o mundo – Boa sorte na era da Arte e da Emoção"

Keywords: Motivação; Maslow; Motivação 3.0; Comportamento; Recursos Humanos; Eficácia

Apreciação: ****

Depois do sucesso da “Nova Inteligência”, uma obra que constituiu um relevante milestone na explicação sobre as competências da área direita e esquerda do cérebro, Daniel Pink surge agora com Drive – A Verdade Surpreendente sobre o que nos motiva, publicado originalmente na última semana de 2009. É raro - muito raro – assistir-se a um autor que a um grande sucesso surpreenda rapidamente com outra obra relevante e que não seja uma repetição maquilhada da anterior.

Drive é uma obra sobre motivação. Pink divide os estágios de motivação em 3 gerações, que caracteriza com exemplos interessantes: a Motivação 1.0, que funciona como um sistema operativo e que se regula por fazer cumprir os objectivos mínimos da humanidade, como comida, roupa, reprodução – a base da pirâmide de Maslow, repetida variadas vezes neste livro; a Motivação 2.0, caracterizada com base na cenoura : prémio por resultado ou castigo por não obtenção dos objectivos - funciona bem em geral, mas não é suficiente em muitas situações; A Motivação 3.0 pretende superar algumas lacunas da segunda geração, como o enfoque no curto prazo ou o comportamento menos ético.

Pink divide a motivação em dois tipos – tipo I e tipo X – representando as motivações intrínsecas e extrínsecas das pessoas. As primeiras estão menos expostas a prémios e aceleradores externos, e mais a valores e vontades próprias, ao gozo e ao prazer. As segundas possuem três elementos principais: autonomia, controlo e propósito.

Num mundo cada vez mais competitivo, o conteúdo de Drive – que sustenta a importância das motivações intrínsecas raramente tratadas pelas organizações - ganha relevância e torna-o em mais uma obra de incontornável importância.

Sinais pouco claros

Foto: Luís Ferreira

Num cenário em que a componente mais financeira da crise parece estar controlada – as enérgicas medidas devolvem lentamente a confiança e a estabilidade ao sistema financeiro –, a sustentabilidade da recuperação e a nova ordem mundial revelam outra dimensão do problema, porventura um desafio bem mais exigente e complexo.

São magras as previsões de recuperação da economia mundial para 2010 e ainda menos generosas para os Estados Unidos – cujo modelo de negócio faliu – e a Europa – com graves problemas em gerir défices públicos que treparam para níveis muito acima do desejado. Espera-se rápida e robusta recuperação da economia chinesa, que tem servido de motor ao desenvolvimento global nos últimos anos, e aposta-se no dinamismo dos mercados emergentes.

Porém, ainda que parca, a recuperação das principais economias industriais tem revelado outra debilidade: o novo modelo de desenvolvimento não resolve, como tradicionalmente, o problema do desemprego. Aliás, por paradoxal que possa parecer, pode até agravá-lo. Novos vectores de desenvolvimento valorizam a inovação, a sociedade do conhecimento e o imperativo da sustentabilidade, requerendo uma força de trabalho mais qualificada e versátil mas, seguramente, menos numerosa.

Os países, com ênfase nos europeus, enfrentam um importante teste à sua criatividade: como transitar para um modelo sustentável de desenvolvimento sem provocar uma expressiva destruição de emprego?

Publicado no jornal "Metro" em 15-Jan-2010.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Geração X precisa de ajuda

Apesar de altamente qualificados, esta geração tomou medidas pouco seguras para garantir a sua independência financeira - um problema agravado pela crise. Têm desenvolvido maus hábitos financeiros e estão mal preparados para planear o seu futuro nesta frente, situação agravada pela pouca formação nesta área. Esta geração não está a conseguir alcançar o patamar financeiro dos seus pais e, muitos deles, acabam por viver o dia-a-dia. Vivem momentos críticos, em que o modo de vida é o "chapa ganha chapa gasta".

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Jovens alienados (*)

O maior problema que o mundo desenvolvido atravessa nos dias de hoje é o aumento do desemprego, que continua a crescer. Na Europa e nos Estados Unidos, a taxa de desemprego ronda os 10%, porém, essa média esconde um fenómeno cada vez mais inquietante: o desemprego entre os jovens. Em Espanha, na camada etária compreendida entre os 16 e os 24 anos de idade, cerca de 43% dos jovens estão desempregados! Na Irlanda, no mesmo universo de idades, 27% não tem emprego. Na Grécia, a leitura é sensivelmente idêntica: 25% dos jovens estão sem nada para fazer. E em Portugal, o drama é semelhante. Além disso, se à idade, juntarmos outros elementos como a raça, minorias religiosas e afins conseguem-se detectar divergências ainda maiores. É o caso dos jovens negros na América, entre os quais o desemprego é superior aos 50%! O problema é especialmente delicado, na medida em que, também, é neste mundo ocidental que se concentram os principais desequilíbrios demográficos: demasiados idosos, relativamente poucos jovens e pesadas estruturas de Segurança Social para financiar. Assim, a alienação dos jovens e, em especial, os reduzidos incentivos à sua integração no mercado de emprego constituem erros estratégicos muito graves. A alternativa está na frugalidade do Estado: menos despesa. E, de seguida, menos impostos: reduzir IRS, IRC e Contribuições Sociais. Mais emprego, maiores oportunidades. (*) Publicado no jornal Metro a 8/01/2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Money for nothing

Recentemente, o congresso dos Estados Unidos aprovou o financiamento de novas medidas anti-pirataria nos Estados Unidos, num valor total de 30 milhões de dólares. Se no orçamento de estado dos EUA este é um valor irrisório, no contexto de artistas independentes, é astronómico. Esse montante serviria para financiar várias acções, desde uma tour europeia a cerca de 2000 bandas, a exemplo de uma banda que decidiu iniciar uma angariação de fundos com esse propósito, ou financiar em parte um bom número de filmes de orçamento mais modesto.
Pode não ser papel do governo financiar estas "aventuras", mas é questionável se também o é ajudar entidades cujos métodos não diferem muito de um sistema de protecção do tipo "máfia". Esses métodos aparecerão "justificados" nos media, contando histórias sobre o drama das editoras durante o lançamento dos números de 2009 e tentando justificar as quebras de vendas em meia dúzia de "piratas" e não na recessão ou num modelo de negócio falido.
Vale a pena ainda referir mais um escândalo onde os protagonistas voltam a ser os alegados "representantes" dos artistas: No Canadá, a associação fonográfica local foi processada, num valor que pode chegar aos 4 mil milhões de Euros. O motivo? Uso inapropriado de músicas em compilações, utilizadas num formato de "use primeiro, pague depois". E quando chega o "depois" ?
Luís Silva
Crítico Musical

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um querer de verdade

É normal no início de cada ano avaliarmos o que foi feito, o que ficou por fazer e identificarmos objectivos para o ano que agora nos desafia.
Neste balanço, normalmente damo-nos conta que muito ficou por fazer. Ou porque não estavam reunidas as condições, ou porque não surgiu a oportunidade. Talvez tenha sido por falta de tempo, ou de verbas. Seja porque motivo for, na maior parte das vezes, os objectivos não se cumpriram.
Para se conseguir não basta querer, é preciso querer muito.
Um desses exemplos, é o de uma pequena equipa de voluntários que decidiu ajudar um orfanato no longínquo Uganda. Inicialmente, no Natal de 2006, a ideia era a de enviar brinquedos para as crianças. A partir daí, a ambição foi crescendo e os desafios cada ano maiores. Foram enviadas cabras e coelhos, redes para mosquitos e roupa mas o grande projecto para 2009 era o de construir um poço que proporcionasse água potável ao orfanato, naquele que seria um primeiro passo para a auto sustentabilidade da instituição.
Seja porque motivo for, este grupo conseguiu criar as condições e a oportunidade, encontrou o tempo e as verbas. Seja porque motivo for, um grupo de Portugueses fez com que hoje, no meio de África, corra um poço de água potável para crianças necessitadas.
Numa altura onde se traçam objectivos deixe-me perguntar-lhe:
O que quer para este novo ano?
O que quer de verdade para 2010?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Puramente #37 - A Ciência das Compras

Nome: A Ciência das Compras

Autor: Paco Underhill

Data Original: Outubro 1999

Frase: "O óbvio nem sempre é aparente"

Keywords: compras; centro comercial; loja; comportamento; consumidor; observar;

Apreciação: ****

Esta é a primeira vez que o PuraMente menciona um livro de gestão contemporânea escrito no século passado. A razão é que não existem obras posteriores sobre esta temática que possam substituir os estudos de Underhill. Curiosamente, existem outras obras especializadas em áreas do comportamento do consumidor e da gestão de retalho, mas nenhuma com a abrangência deste.

A Ciência das Compras estuda com detalhe os aspectos relacionados com o mindset dos consumidores no momento da compra, mencionando com um detalhe profissionalmente relevante e pessoalmente divertido os aspectos de comportamento que cada um de nós tem determinados momentos, espaços ou situações. A função primária do livro é saber como compram os consumidores e porquê.

Paco explora e explica factores muito relevantes para os gestores das várias áreas do retalho, em especial nas zonas de interacção vendedor-comprador, e sempre num plano B2C (business to consumer). As zonas de abrandamento, as distâncias entre móveis e o desagrado do toque, o posicionamento da sinaléctica, as quotas do mobiliário, as limitações das mãos e a influência dos olhos, os tempos de paragem cerebral para absorção de mensagens e a forma como as pessoas em geral e os clientes em particular se movem são exemplos de variáveis que influenciam as decisões de compra.

Noutro registo, o livro aborda as diferenças de comportamento entre o homem e a mulher, mostrando a relevância no ciclo de compra e contextualizando estas diferenças como exemplo de alterações de comportamento em distintos segmentos.

A obra de Paco Underhill vale a pena pela sua singularidade e abrangência, apesar do seu carácter excessivamente prático – cujos danos colaterais são menos estrutura e conclusão lógica – e de alguma desactualização nos exemplos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A falsa partida

Quando escrevo este texto (sexta-feira 18) a Conferência de Copenhaga está num impasse. Apesar da presença dos principais líderes Mundiais, o último dia deste encontro não trouxe ainda quaisquer novidades sobre o cenário de combate às alterações climáticas num cenário pós-Protocolo de Quioto.

A discussão centrou-se na definição de objectivos de redução de emissões de gases com efeito de estufa (80 % de redução até 2050 para os países ricos é uma das propostas), no financiamento aos países subdesenvolvidos e no papel que as economias emergentes terão num futuro acordo climático. Mas esta foi também a conferência onde ficou evidente que a nova ordem Mundial também existe para as questões climáticas (as 2 maiores potências, EUA e China, são também os maiores emissores e decisores) e que a clivagem entre as intenções dos países “ricos” e as expectativas de desenvolvimento dos países “pobres” é uma realidade.

Esta falsa partida do sucessor de Quioto traduz-se numa oportunidade perdida. Uma oportunidade para se iniciar a alteração de paradigma energético e dos nossos hábitos de consumo, mas também para nos adaptarmos de forma decisiva às consequências das alterações climáticas. Com ou sem acordo vinculativo as mudanças são necessárias e urgentes. As discussões certamente continuarão mas um acordo eficaz só existirá com uma efectiva partilha de responsabilidades entre todos. Aguardamos as cenas dos próximos episódios durante 2010.

Francisco Parada

Engenheiro Artigo publicado no Jornal Metro de 21 de Dezembro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Eucalipto



O anúncio da passagem da Red Bull Air Race para Lisboa apenas confirma o que já se suspeitava há meses.

É certo que estamos num espaço concorrencial e que isso inclui a disputa, entre cidades, pelos melhores eventos. Mas, ao que se diz, Lisboa ganhou por apresentar patrocínios elevados, concedidos por empresas cuja gestão é, no mínimo, influenciada pelo Estado. Essas empresas teriam a ganhar sensivelmente o mesmo se apoiassem o evento no Porto, Coimbra, Faro ou em outra cidade. É concorrência? Não, o que temos é abuso de posição dominante.

É mais um sintoma de como o país é centralizado. Não é a maior maldade que se faz às regiões, já que as verbas do QREN, por exemplo, têm um impacto mais duradouro. Em vez de se tentar promover um desenvolvimento harmonizado, cai-se na tentação engordar a capital, onde tudo tem que acontecer. Nada sobra para as outras cidades.

Lisboa é um eucalipto que seca o país.

Fico triste pelo Porto? Sim, mas fico muito mais triste por Portugal. O país não tem estratégia, está cada vez mais desequilibrado e menos sustentável.

Esperemos que no Domingo o Porto marque pontos, pelo menos no futebol, como tem acontecido nas últimas décadas.

Mas não chega....


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 17 de Dezembro de 2009

(remake do post A "Face Oculta" dos Aviões, de 7 de Dezembro de 2009)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

PuraMente #36 - Speculations & Trends



Nome: "Speculations & Trends"

Autor: Pedro Barbosa

Editora e Data: Vida Económica - 2009

Frase: "Não olhe para o retrovisor, porque o que está à frente dificilmente será igual ao que ficou lá atrás"

Palavras Chave: "Global Trends"; "Harvard Trends"; "Mashup"; "Antecipe-se"; "Wisdom of Crowds"; 

Apreciação: ****

É prudente avisar desde já: a análise a este livro é especial. O autor, Pedro Barbosa, é um dos responsáveis por esta coluna semanal e eu próprio tive o prazer de prefaciar "Speculations & Trends". Por este motivo, este texto pode sofrer algum enviesamento, ainda que involuntário.

"Speculation & Trends" propõe-se falar de tendências para os próximos três anos. Num registo bastante informal, e sem a pretensão de adivinhar o futuro, tenta-se ler no presente os sinais do que poderá acontecer a partir de agora.

A primeira parte resume uma visão do autor e de 712 pessoas que foram consultadas na preparação do livro, numa lógica de "mashup" e "Sabedoria das Multidões". Divide-se em oito capítulos, onde são abordados assuntos distintos como consumo, saúde, tecnologia, energia, entre outros. Na segunda parte, o autor recorre menos ao "vox populi" e a "trend setters", preferindo dissertar em pequenos textos sobre assuntos discutidos em meios académicos, com destaque para Harvard.

Deve reforçar-se a ideia que, neste livro, não se encontra apenas a perspectiva do autor. Houve o cuidado de consultar centenas de pessoas e fontes, muitas opiniões e críticas. O leitor, mais do que procurar respostas, deverá abordar criticamente o que vai encontrando página a página, permitindo as suas próprias especulações e reflexões.  Também por isso, "Speculation & Trends" pretende dirigir-se aos intelectualmente curiosos e forward thinkers.

Um outro aspecto que torna o livro diferente é o facto de não ter direitos de autor, podendo ser livremente copiado ou citado, em parte ou no seu todo. É uma tentativa do autor de se antecipar, ou ser um dos pioneiros na adopção de uma tendência de "open source" e "mashup". Porque, como o autor defende, no futuro o conhecimento será cada vez mais livre e passível de ser utilizado e acrescentado pela comunidade. 

Uma obra altamente recomendável.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no Jornal de Negócios de 16 de Dezembro de 2009


Uma questão contabilística

Cada vez mais as empresas têm a sua actividade assente em projectos ou empreitadas, com elevados factores de imprevisibilidade, o que as “obriga” a recorrer ao trabalho temporário, dada a inflexibilidade do actual código de trabalho, para evitar danos maiores aquando da suspensão de um dos projectos em que se encontrem envolvidas.

Não será a melhor forma de estabelecer relações contratuais, mas adapta-se à realidade.

Já não é aceitável eternizar relações contratuais assentes nesta ferramenta quando a necessidade de trabalho é permanente.Um utilizador frequente é o Estado; reduz os custos com pessoal e foge às regras dos contratos colectivos de trabalho e consequentes regalias.

Acontece que muitos dos colaboradores neste regime, após cumprirem o limite de 24 meses de trabalho, são enviados para o desemprego, sendo novamente chamados 3 ou 4 meses depois. A alternativa é recrutar outras pessoas que vão ter de aprender a fazer aquilo que as anteriores já sabiam, com a consequente improdutividade.

Com esta atitude nada se ganha. Estas pessoas deixam de produzir mas o seu custo mantém-se no estado, mas agora pelo pagamento do subsídio de desemprego.

Troca-se a conta, mantém-se o custo, elimina-se a produção!

Não seria mais racional mantê-las no activo? Pelo menos o seu custo, suportado por todos os contribuintes, era ressarcido pelo seu esforçado desempenho.

Jorge Serra
Gestor

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um Mundo mais Verde? Depende de Si

Com a incapacidade das Instituições em executarem um caminho que permita a preservação do Planeta, temos de ser nós, os indivíduos, a determinar esse caminho e a velocidade da caminhada; para o efeito podemos usar as decisões de compra e o voto político. Quem não se lembra do boicote aos produtos indonésios em prol da causa de Timor ou da não compra de determinadas marcas porque produziam os seus produtos em fábricas com exploração infantil ou porque utilizavam produtos geneticamente modificados; se quisermos, poderemos voltar a fazê-lo. As empresas embora tenham como objectivo o lucro, tem de o obter atendendo às preferências e comportamentos dos seus consumidores; é pois aí que se inicia a nossa capacidade de intervenção, preferindo produtos mais verdes e sancionando produtos ou origens mais poluentes. As empresas estão disponíveis para fazer a sua parte; são exemplo as investigações que desenvolvem e os novos produtos que colocam no Mercado, os edifícios energeticamente mais sustentáveis e as embalagens retornáveis e não deriváveis do petróleo. Por outro lado, o direito de voto exercido em eleições, também pode sancionar propostas governativas que não contemplem este eixo de sobrevivência estratégica. Não desanimemos, tenhamos presente a nossa vontade, actuemos em conformidade, e um Mundo mais Verde será uma consequência. António Jorge Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas Publicado no Jornal "Metro" a 11Dez09

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Post atípico : Back Here!

Foi ontem e hoje publicado o livro "Speculations & Trenbds " - "Tendências 2010-2012", lançamentos no El Corte Inglés de Lisboa e Gaia Porto.
O livro é, em toda a linha, made in Mercado Puro. Escrito por mim, prefaciado pelo Filipe Garcia e com a ajuda de muitos dos co-autores deste blog. Obrigado a todos, mais detalhes em www.speculationsandtrends.com Este post serve de base a um pedido de deculpas a todos pela minha relativa distância dos conteúdos do Mercado Puro, nestas semanas de preparação do livro. Continuei as minhas colaborações habituais com o Metro e Jornal de Negócios, mas com uma cadência menos acelerada. Estou aqui para dizer-vos : estou de volta. Obrigado a todos que ajudaram na construção do livro e estiveram nos seus lançamentos. Um abraço, Pedro Barbosa

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Inquérito: como classificamos esta década?

O jornal "Público" tem um inquérito on-line que me fez reflectir um pouco.
A questão é muito clara:
Como classificaria esta década?
A resposta talvez não tão simples: 1 - Década da Crise 2 - Década dos Países Emergentes 3 - Década da Internet e da Tecnologia 4 - Década da Ecologia 5 - Década do Terrorismo
E no que toca ao "Mercado Puro", como é que cada distinto membro responde a esta questão?
Existem algumas sugestões de resposta que não necessariamente as do "Público"?
...
Alguns marcos dos anos 2000, elaborado com ajuda da Wikipedia:
Uma longa década que "começa" com os atentados de 9/11 ao World Trade Center e "termina" com a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, tendo pelo meio a guerra no Afeganistão, a invasão e a guerra no Iraque, a independência de Timor-Leste (2002)...
Uma das décadas mais estáveis e prosperas da economia mundial até finais de 2007 quando a crise económica coloca em risco a economia mundial, levando muitos países a entrar em recessão e pondo, inclusivamente, em causa o próprio modelo de desenvolvimento assente na globalização. A China atinge um crescimento económico sem precedentes, anunciando a sua entrada (liderança?) no restrito clube das superpotências mundiais...
Na tecnologia, são inúmeras as novidades - quase uma revolução (?)
Cresce a penetração da banda larga, revolucionando as tecnologias de informação e comunicação – desde a popularização dos serviços de mensagens instantâneas (MSN, Skype, entre outros) aos primeiros serviços de relacionamento on-line e às redes sociais (Twitter, MySpace, Hi5 e Facebook, etc.); Assinala-se o início do movimento conhecido como Web 2.0, tendo como principais ícones a Wikipédia, o Google Knol, o Youtube, os Blogs e Fóruns de discussão, o Twitter e a construção colectiva do Linux; aplicativos comuns de desktop passam gradualmente a ser fornecidos online;
Enquanto a Microsoft lança o Windows XP, o Windows Vista e o Windows Seven, havendo já a previsão para o lançamento do Windows Azure (sistema operacional para a computação em nuvem), a Apple renova os seus paradigmas tecnológicos, lançando o Mac OS X e computadores com chip da Intel;
A disquete cai em desuso, sendo substituído pelo CD-R, DVD, pen-drive e o ressurgimento dos cartões-de-memória; O Blu-ray substitui o DVD, que por sua vez torna obsoleto as fitas VHS; todavia, em 2009 já é anunciado o desenvolvimento do Holographic Versatile Disc ou HVD que é a nova tecnologia de discos ópticos que promete suceder ao Blu-ray;
A Apple lança o iPod e o Iphone, revolucionando o mercado de telemóveis e de MP3 players;
Enquanto os MP3 e MP4 Players, os telemóveis, os computadores portáteis e ultra portáteis e as câmaras digitais se tornam populares, novos conceitos, como a computação em nuvem, dão os primeiros passos…
No cinema, voltaram filmes antigos como Casablanca, 2001, uma Odisseia no Espaço, etc. e sagas de filmes antigos como o Indiana Jones; Na televisão, popularizam-se os reality shows, como o Big Brother, a par do surgimento de séries americanas de grande sucesso como LOST, Grey's Anatomy, Ugly Betty, Heroes, Prison Break e 24 horas.
A escocesa Susan Boyle torna-se célebre no mundo todo após ter no reality show inglês "Britain's Got Talent", batendo um recorde de visualizações de vídeos na internet.
A ciência permite concluir a sequenciação do ADN humano;
A descoberta do planeta-anão Éris, maior que Plutão, motiva a redefinição do sistema solar, criando a categoria dos planetas-anões, dentro da qual foram incluídos Éris e Plutão, além do antigo asteróide Ceres. Esses planetas formaram um grupo separado dos planetas principais, que voltaram a ser oito;Descoberto Gliese 581 c, o primeiro planeta possivelmente habitável fora do sistema solar;
A NASA confirma a existência de água em Marte e na Lua; Reacende-se a polémica referente ao Aquecimento Global e a sustentabilidade passa a estar na ordem do dia;
A nave Voyager 1 chega à heliopausa e ultrapassa os limites do sistema solar…
Maravilhoso Mundo Novo!

O fim da hegemonia ocidental (*)

Num magnífico ensaio, publicado a 7 de Dezembro na revista “Newsweek”, o economista e historiador Niall Ferguson descreveu os passos que sempre levaram à queda dos grandes impérios. Endividamento, baixo crescimento e elevados gastos – foram sempre essas as razões do declínio económico, político e social. Ora, é bem possível que estejamos a testemunhar mais um desses momentos críticos da história. Esta semana, as agências de notação de risco apontaram armas à Grécia. Em breve, é provável que façam o mesmo com outros países europeus. E, muito mais importante ainda, foram já dizendo que a credibilidade do governo norte-americano, nomeadamente a confiança associada ao pagamento da sua dívida pública, não está imune à crise internacional. No passado, o indicador económico que melhor permitiu antecipar a queda dos impérios foi quase sempre o serviço de dívida. No século XVI e XVII, o Reino de Espanha entrou em ruptura de pagamentos catorze vezes até implodir. No século XVIII, antes da revolução que se seguiu, a França gastava mais de 60% das suas receitas no pagamento de juros. O Império Otomano, no século XIX, caiu pela mesma razão. E o Império Britânico, que, no século passado, entre as duas guerras mundiais consumia mais de 40% do seu orçamento no financiamento dos empréstimos provenientes do exterior, idem. A história repete-se e, quase, nunca é diferente. (*) publicado no jornal “METRO” a 9/12/2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sustentabilidade. Que futuro ?

Depois de nos últimos anos termos assistido a um conjunto generalizado de reformas “douradas” antecipadas em empresas privadas, públicas e organismos do Estado, será que é desta que o sistema das reformas vai mudar radicalmente? Ou pelo contrário, será que a retoma vai fazer esquecer a importância do tema da sustentabilidade da segurança social e vamos continuar com paliativos?
De acordo com estudos da Comissão Europeia, em termos médios, é esperado que até 2050 o número de cidadãos das faixas etárias acima dos 55 anos cresça exponencialmente. Por outro lado, é unanimemente aceite que é necessário garantir o equilíbrio e a sustentabilidade dos sistemas nacionais da segurança social, e que não é possível continuar a existir uma política de gestão de pessoas que generalize a atribuição de reformas antecipadas ou reformas após 35 anos de serviço.
Estes dois factores, ou seja, a inevitável alteração de grupos etários até 2050 por um lado e a necessidade de equilibrar os sistemas da segurança social por outro, vão exigir um enfoque das empresas e do Estado, enquanto empregadores, na implementação de medidas que apliquem e reforcem o princípio da solidariedade inter-geracional isto é, caberá aos trabalhadores no activo gerar os resultados necessários para fazer face às futuras responsabilidades com pensões.
Sabendo-se também que habitualmente há uma tendência para que os níveis de satisfação (e a tal felicidade que tanto se fala) estejam inversamente relacionados com a antiguidade no trabalho activo, será muito provável que se assista a uma tendência para a definição de objectivos que aumentem o envolvimento dos trabalhadores de faixas etárias superiores, potenciando os seus níveis de satisfação (felicidade), motivação e desempenho.
Mas se é provável que a experiência passe a ser considerada uma mais-valia, que deve ser valorizada e potenciada, os mais novos, à procura do primeiro emprego, “terão que dar largas à imaginação”, aguçando o seu espírito de empreendedores.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A "Face Oculta" dos Aviões



Ainda os aviões estavam no ar e já corria no Porto o rumor que Lisboa iria tentar organizar a Red Bull Air Race em 2010. Na semana passada ficamos a saber que era verdade e que o irá, provavelmente migrar a Sul. É uma mudança lícita? Faz sentido numa lógica de desenvolvimento harmonizado do país?

Antes de mais, importa constatar um facto: as corridas organizadas no Porto são um sucesso completo. As margens do rio estiveram sempre cheias, a imagem da cidade, da região e do país saiu reforçada, assim como os seus produtos, serviços e gentes. O impacto sócio-cultural foi positivo e geraram-se milhares de empregos e muitas receitas directas e indirectas.

Alguns dirão que estamos num espaço concorrencial e que isso inclui a disputa, entre as cidades, pelos melhores eventos. Mas fará sentido ter essa "guerra" no mesmo país, perante um evento de projecção internacional e que tem sido um enorme sucesso? Ao que parece, Lisboa está a ganhar a corrida por apresentar patrocínios elevados, concedidos por empresas cuja gestão é, no mínimo, influenciada pelo Estado. A Galp, Edp e PT teriam a ganhar sensivelmente o mesmo se apoiassem o evento no Porto, Coimbra, Faro ou em outra cidade.

O que está a acontecer faz lembrar o mediático processo "Face Oculta". Alguém parece utilizar as suas influências junto de grandes empresas para atingir um objectivo anti-concorrencial. Que diferença há entre beneficiar uma empresa de sucatas ou uma cidade?

Estamos perante mais um reflexo de um país centralizado. Até as cimeiras e os tratados têm que acontecer na capital, nada sobra para as outras cidades. Mesmo o TGV já foi adiado a Norte.

Lisboa é um eucalipto que seca o país.

Concorrência? Não! O que temos é abuso de posição dominante.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 7 de Dezembro de 2009



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Google, Amantes, Prostitutas e a Economia



Medir a evolução económica e social é controverso e exige novas abordagens. Apesar de o PIB ou o desemprego serem importantes, é pertinente ir por outros caminhos mais subjectivos, mas susceptíveis de serem mensuráveis, para avaliar a riqueza e performance.

Em termos de tendências, a Google tem criado ferramentas interessantes. Está disponível nos EUA o "Global Domestic Trends", que permite medir o interesse por um tema. Serve para conhecer quantas pesquisas foram feitas sobre construção, automóveis, desemprego, entre outros, permitindo conclusões sobre o que as pessoas pensam e que não é captado nos inquéritos formais.

Em Inglaterra, um site de encontros entre casados descobriu uma relação entre a bolsa e a procura por aventuras extra-matrimoniais. Quando a bolsa está em alta, a procura por um "affair" sobe, dados os níveis de confiança. Num "crash", também se regista um aumento, mas para aliviar a pressão: uma "fuga para a frente". Em períodos mornos, os casais tendem a não procurar outras pessoas. Na Letónia encontrou-se uma relação entre o que prostitutas cobram e o desempenho da economia. Antes de o PIB ou da inflação mostrarem uma queda abrupta, já os preços na rua tinha descido. Isto é um indicador avançado!

Claro que já existem alternativas ao PIB, como o IDH, o Coeficiente de Gini, entre outros. Mas, como defende o economista Stiglitz, é necessário medir o bem-estar e não só o que se produz. Não estranhemos se, um dia, for aceite a proposta de Sarkozy de incluir critérios de felicidade nas medidas da riqueza nacional. E, quando isso acontecer, em que lugar aparecerá Portugal?

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 4 de Dezembro de 2009



sábado, 28 de novembro de 2009

“Primeiro estranha-se depois entranha-se”

As notícias sobre o défice e do nível do endividamente do país a atingir números recordes gera um enorme sentido de urgência de e de falta de prespectiva para a saída do país da crise. Neste contexto temos vindo a ouvir falar que a forma de resolver isto é através de aumento de impostos, uma vez que as receitas do Estado estão a diminuir. Creio que todos gostaríamos de ter a mesma ferramenta. A família tem menos rendimento portanto nada mais simples do que dizer ao empregador pague nos mais para poder manter o meu nível de despesas, ou o mesmo na empresa para com os seus clientes. Na economia real o que acontece é que todos se tornam muito mais eficientes, o dinheiro é gasto com sentido de valor. Cada gasto é controlado de uma forma profunda de forma a garantir que é necessário para criar valor. Em conversas com alguns empresários tenho ouvido expressões como “não tinha ideia do que se consegue fazer com metade dos recursos”. No início estranhava-se a solução da subida de impostos para equilibrar as contas agora parece que se entranhou de tal forma no sistema que é sempre a primeira solução. Espero que de facto se reestruture profundamente o Estado tornando-o menos pesado e mais eficiente pois continuar a gastar como se fossemos um país rico mantendo o enorme peso do Estado na economia não será uma receita muito promissora.
Paulo Sousa
Artigo publicado no jornal Metro de 27/11/2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O dinheiro sai, mas a dívida fica



Percebe-se que as pessoas estejam confusas. Em metade do tempo ouvem dizer que o Estado deve gastar dinheiro para reanimar a economia. Mas, logo a seguir, surgem os avisos acerca da necessidade de cortar despesa, porque a situação do país é insustentável e que há riscos de insolvência. Então, em que ficamos?

A lógica do investimento público como motor de crescimento, proposta por Keynes e formalizada por Hicks, é relativamente intuitiva: o governo gasta, esse dinheiro vai parar aos bolsos das famílias e das empresas, que por sua vez também gastam, gerando produção e consumo. É um fenómeno em cadeia, denominado de efeito multiplicador. Entre outros factores, a eficácia da despesa pública dependerá da disposição dos consumidores em gastar o dinheiro que recebem e do grau de abertura da economia. E é nestes pontos que reside o problema.

Actualmente a confiança é baixa e, por isso, a propensão para consumir é reduzida. Por outro lado, a economia portuguesa é muito aberta e, em períodos de maior rendimento disponível, as famílias e empresas tendem a adquirir bens importados. E o mesmo acontece com muitos dos investimentos públicos em infraestruturas, que recorrem a matérias primas e tecnologia de outros países. Tal facto, além de degradar a balança comercial do país, tem um efeito perverso relativamente aos objectivos imediatos dos gastos públicos em tempos de crise: é que se o dinheiro é aplicado em bens importados, sai do país e vai estimular outras economias que não a portuguesa. Ainda para mais, à nossa custa.

Ou seja, o dinheiro sai do país, mas a dívida pública fica por cá... e a crescer.!


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 25 de Novembro de 2009



terça-feira, 24 de novembro de 2009

PuraMente #35 - Cem Argumentos

Negrito
Nome: Cem Argumentos Autor: Paulo Morgado Data Original : Abril 2004 Frase: “A Lógica, a Retórica e o Direito ao Serviço da Argumentação” Keywords: Negociação; Argumento; Falácia; Manobra de Diversão; Discussão; Apreciação: *** Cem Argumentos é um misto de manual prático com livro de consulta, que explora a argumentação recorrendo a um formato invulgar e curioso. Paulo Morgado procurou encontrar os 100 argumentos ou técnicas de argumentação mais relevantes, organizando-os em grupos lógicos de aplicação, como “conjunto de falácias lógicas já tipificadas”, ou “demonstrar um processo de inferência mal instruído”, ou ainda “como imputar uma determinada acção a um sujeito”. Organiza-se tendo como ponto de partida três áreas distintas: a lógica, a retórica e o direito. A obra aborda o tema de negociação de uma forma alternativa, dado que recorre directamente às estratégias de argumentação que suportam a grande maioria dos processos de negociação, em especial as negociações com predominância verbal, como no caso de reuniões, conversas ou discursos políticos. O livro utiliza de forma frequente casos da vida politica portuguesa, o que não raramente facilita a inteligibilidade dos argumentos. Por outro lado, o recurso a uma semântica avançada permite apreender um admirável número de conceitos. Em particular, o capítulo que resume as falácias lógicas já tipificadas é o que parece concentrar maior valor, pela sua evidente aplicabilidade. Os capítulos finais são mais técnicos e apenas relevantes a quem pretender explorar a área de Direito. O conteúdo desta edição varia entre o realmente útil e o meramente académico e teórico, não constituindo uma leitura obrigatória, mas recomendada aos que têm na negociação uma incontornável parte do seu trabalho. Trata-se de uma obra que também aporta um relevante conhecimento de Direito, numa óptica que pode ser interessante aos gestores.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comemorar a Poupança

A 31de Outubro comemorou-se o dia mundial da poupança. Poupar é uma causa útil. Representa um sacrifício de bem-estar presente, com o objectivo de benefícios futuros para o indivíduo ou para quem deste descende.
Numa altura em que muitos têm vindo a consumir os rendimentos futuros, a poupança surge como uma forma de os repor, reduzindo o problema para as gerações futuras. Por este motivo faz sentido comemorar a poupança.
Na conjuntura actual, em que se apela ao consumo público, a poupança privada assume enorme relevância. O modelo económico europeu está assente sobre um equilíbrio “instável” entre o consumo e a poupança.
Os benefícios futuros dependem da estratégia adoptada na aplicação das poupanças, esta implica comparar e analisar produtos financeiros e optar pela escolha mais favorável e adequado ao perfil do investidor. A diversificação é essencial de forma a reduzir o risco total da carteira. Sugere-se que esta inclua depósitos a prazo e contas poupança, indicados para os mais conservadores, mas também acções ou fundos de investimento, para os que possam assumir algum risco. A aplicação das poupanças é muito pessoal e depende da relação do investidor com o risco, mas atenção a todos os detalhes de cada produto, sendo de realçar o facto de poderem ter ou não capital garantido.
Vasco Oliveira - Planeamento e Controlo de Produção
Publicado no jornal Metro de 23 de Novembro

domingo, 22 de novembro de 2009

PuraMente #34 - 50 Gurus da Gestão

Nome: 50 Gurus da Gestão
Autor: Jorge Nascimento Rodrigues (+3)
Data Original: Novembro 2005
Frase: " Dos Gurus às tendências "
Keywords: Guru; Gestão; Compilação; Súmula; Dicionário de Management; Colectânea;
Apreciação: ***
“50 Gurus para a Gestão do Séc. XXI” é um livro que reúne, em cerca de 500 páginas de fácil acesso e navegação, um conjunto de súmulas das contribuições de uma selecção daqueles que foram considerados pelos autores – um conjunto de colaboradores do Semanário Expresso - os gurus da gestão.
A obra é uma evolução de outros conceitos já avançados por Jorge Rodrigues, oferecendo a cada autor cerca de 8 páginas, onde se resume a influência deste e dos seus trabalhos e se publica uma entrevista com o mesmo, com um óbvio enfoque na matéria técnica de cada um dos destes. Trata-se de uma forma alternativa de abordar e resumir contribuições normalmente detalhadas em livros e relatórios próprios.
Como qualquer colectânea, a escolha dos autores e temas é absolutamente subjectiva. Embora pareçam faltar contribuições importantes, a compilação é equilibrada e interessante, havendo um maior investimento em nomes que representam mais tendências do que gurus. Destaque-se contudo que, 4 anos volvidos, já fazia sentido uma nova e reformulada edição, com contribuições recentes de grande relevância para gestão do século 21 (Gladwell, Taleb; Friedman e tantos outros). O livro está organizado or 5 grandes temas: futuro, globalização, inovação, capital humano e marketing.
Este formato é interessante para os que procuram uma colectânea de mini-resumos, que potencie a descoberta de autores e aquisição das suas obras noutro momento; é um livro também interessante como formato de consulta, embora os conteúdos online sejam claramente uma opção mais célere e económica. Esta obra não é destinada aos que pretendem a partir dela realmente criar valor com conteúdos dos gurus, aprofundando conhecimentos ou abrangendo novas áreas da gestão. Neste capitulo, trata-se de um formato excessivamente redutor.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Networking Credível

Empresas e gestores sempre tiveram na função de recrutamento, selecção e contratação – seja de recursos, parceiros ou subcontratados – um importante capital, influenciador dos resultados. No entanto, estes processos de escolha e filtragem estão longe de ser uma ciência exacta. Surgiram neste contexto os sistemas de networking, onde as referências passam a ganhar uma importância vital. Estes sistemas baseiam-se em teias de sub-redes de conhecimentos pessoais e profissionais, em que cada recurso tem determinados valores (créditos) para o respectivo elo referenciador, que tem também os seus créditos perante a entidade decisora.

Trata-se de um complexo sistema de relações e créditos, que funciona algoritmicamente de forma semelhante ao searching do Google: quantidade e qualidade de referências cruzadas, ao nível da credibilidade e matching de conteúdos e capacidades.

Em networking, cada pessoa vale aquilo que referencia: as pessoas que aconselha, as empresas que indica. Esta realidade, válida para a vida profissional e para as relações pessoais, nem sempre é apreendida por pessoas e gestores, que ainda misturam interesses pessoais ou amizades com referências que optimizem a eficácia do que é necessário para cada função e momento.

É fundamental compreender que em networking a credibilidade é o mais importante atributo na cadeia de valor e que a qualidade dos referenciados acabará por ser reflectida, a longo prazo, na credibilidade de quem o referencia.