segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um querer de verdade

É normal no início de cada ano avaliarmos o que foi feito, o que ficou por fazer e identificarmos objectivos para o ano que agora nos desafia.
Neste balanço, normalmente damo-nos conta que muito ficou por fazer. Ou porque não estavam reunidas as condições, ou porque não surgiu a oportunidade. Talvez tenha sido por falta de tempo, ou de verbas. Seja porque motivo for, na maior parte das vezes, os objectivos não se cumpriram.
Para se conseguir não basta querer, é preciso querer muito.
Um desses exemplos, é o de uma pequena equipa de voluntários que decidiu ajudar um orfanato no longínquo Uganda. Inicialmente, no Natal de 2006, a ideia era a de enviar brinquedos para as crianças. A partir daí, a ambição foi crescendo e os desafios cada ano maiores. Foram enviadas cabras e coelhos, redes para mosquitos e roupa mas o grande projecto para 2009 era o de construir um poço que proporcionasse água potável ao orfanato, naquele que seria um primeiro passo para a auto sustentabilidade da instituição.
Seja porque motivo for, este grupo conseguiu criar as condições e a oportunidade, encontrou o tempo e as verbas. Seja porque motivo for, um grupo de Portugueses fez com que hoje, no meio de África, corra um poço de água potável para crianças necessitadas.
Numa altura onde se traçam objectivos deixe-me perguntar-lhe:
O que quer para este novo ano?
O que quer de verdade para 2010?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Puramente #37 - A Ciência das Compras

Nome: A Ciência das Compras

Autor: Paco Underhill

Data Original: Outubro 1999

Frase: "O óbvio nem sempre é aparente"

Keywords: compras; centro comercial; loja; comportamento; consumidor; observar;

Apreciação: ****

Esta é a primeira vez que o PuraMente menciona um livro de gestão contemporânea escrito no século passado. A razão é que não existem obras posteriores sobre esta temática que possam substituir os estudos de Underhill. Curiosamente, existem outras obras especializadas em áreas do comportamento do consumidor e da gestão de retalho, mas nenhuma com a abrangência deste.

A Ciência das Compras estuda com detalhe os aspectos relacionados com o mindset dos consumidores no momento da compra, mencionando com um detalhe profissionalmente relevante e pessoalmente divertido os aspectos de comportamento que cada um de nós tem determinados momentos, espaços ou situações. A função primária do livro é saber como compram os consumidores e porquê.

Paco explora e explica factores muito relevantes para os gestores das várias áreas do retalho, em especial nas zonas de interacção vendedor-comprador, e sempre num plano B2C (business to consumer). As zonas de abrandamento, as distâncias entre móveis e o desagrado do toque, o posicionamento da sinaléctica, as quotas do mobiliário, as limitações das mãos e a influência dos olhos, os tempos de paragem cerebral para absorção de mensagens e a forma como as pessoas em geral e os clientes em particular se movem são exemplos de variáveis que influenciam as decisões de compra.

Noutro registo, o livro aborda as diferenças de comportamento entre o homem e a mulher, mostrando a relevância no ciclo de compra e contextualizando estas diferenças como exemplo de alterações de comportamento em distintos segmentos.

A obra de Paco Underhill vale a pena pela sua singularidade e abrangência, apesar do seu carácter excessivamente prático – cujos danos colaterais são menos estrutura e conclusão lógica – e de alguma desactualização nos exemplos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A falsa partida

Quando escrevo este texto (sexta-feira 18) a Conferência de Copenhaga está num impasse. Apesar da presença dos principais líderes Mundiais, o último dia deste encontro não trouxe ainda quaisquer novidades sobre o cenário de combate às alterações climáticas num cenário pós-Protocolo de Quioto.

A discussão centrou-se na definição de objectivos de redução de emissões de gases com efeito de estufa (80 % de redução até 2050 para os países ricos é uma das propostas), no financiamento aos países subdesenvolvidos e no papel que as economias emergentes terão num futuro acordo climático. Mas esta foi também a conferência onde ficou evidente que a nova ordem Mundial também existe para as questões climáticas (as 2 maiores potências, EUA e China, são também os maiores emissores e decisores) e que a clivagem entre as intenções dos países “ricos” e as expectativas de desenvolvimento dos países “pobres” é uma realidade.

Esta falsa partida do sucessor de Quioto traduz-se numa oportunidade perdida. Uma oportunidade para se iniciar a alteração de paradigma energético e dos nossos hábitos de consumo, mas também para nos adaptarmos de forma decisiva às consequências das alterações climáticas. Com ou sem acordo vinculativo as mudanças são necessárias e urgentes. As discussões certamente continuarão mas um acordo eficaz só existirá com uma efectiva partilha de responsabilidades entre todos. Aguardamos as cenas dos próximos episódios durante 2010.

Francisco Parada

Engenheiro Artigo publicado no Jornal Metro de 21 de Dezembro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Eucalipto



O anúncio da passagem da Red Bull Air Race para Lisboa apenas confirma o que já se suspeitava há meses.

É certo que estamos num espaço concorrencial e que isso inclui a disputa, entre cidades, pelos melhores eventos. Mas, ao que se diz, Lisboa ganhou por apresentar patrocínios elevados, concedidos por empresas cuja gestão é, no mínimo, influenciada pelo Estado. Essas empresas teriam a ganhar sensivelmente o mesmo se apoiassem o evento no Porto, Coimbra, Faro ou em outra cidade. É concorrência? Não, o que temos é abuso de posição dominante.

É mais um sintoma de como o país é centralizado. Não é a maior maldade que se faz às regiões, já que as verbas do QREN, por exemplo, têm um impacto mais duradouro. Em vez de se tentar promover um desenvolvimento harmonizado, cai-se na tentação engordar a capital, onde tudo tem que acontecer. Nada sobra para as outras cidades.

Lisboa é um eucalipto que seca o país.

Fico triste pelo Porto? Sim, mas fico muito mais triste por Portugal. O país não tem estratégia, está cada vez mais desequilibrado e menos sustentável.

Esperemos que no Domingo o Porto marque pontos, pelo menos no futebol, como tem acontecido nas últimas décadas.

Mas não chega....


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 17 de Dezembro de 2009

(remake do post A "Face Oculta" dos Aviões, de 7 de Dezembro de 2009)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

PuraMente #36 - Speculations & Trends



Nome: "Speculations & Trends"

Autor: Pedro Barbosa

Editora e Data: Vida Económica - 2009

Frase: "Não olhe para o retrovisor, porque o que está à frente dificilmente será igual ao que ficou lá atrás"

Palavras Chave: "Global Trends"; "Harvard Trends"; "Mashup"; "Antecipe-se"; "Wisdom of Crowds"; 

Apreciação: ****

É prudente avisar desde já: a análise a este livro é especial. O autor, Pedro Barbosa, é um dos responsáveis por esta coluna semanal e eu próprio tive o prazer de prefaciar "Speculations & Trends". Por este motivo, este texto pode sofrer algum enviesamento, ainda que involuntário.

"Speculation & Trends" propõe-se falar de tendências para os próximos três anos. Num registo bastante informal, e sem a pretensão de adivinhar o futuro, tenta-se ler no presente os sinais do que poderá acontecer a partir de agora.

A primeira parte resume uma visão do autor e de 712 pessoas que foram consultadas na preparação do livro, numa lógica de "mashup" e "Sabedoria das Multidões". Divide-se em oito capítulos, onde são abordados assuntos distintos como consumo, saúde, tecnologia, energia, entre outros. Na segunda parte, o autor recorre menos ao "vox populi" e a "trend setters", preferindo dissertar em pequenos textos sobre assuntos discutidos em meios académicos, com destaque para Harvard.

Deve reforçar-se a ideia que, neste livro, não se encontra apenas a perspectiva do autor. Houve o cuidado de consultar centenas de pessoas e fontes, muitas opiniões e críticas. O leitor, mais do que procurar respostas, deverá abordar criticamente o que vai encontrando página a página, permitindo as suas próprias especulações e reflexões.  Também por isso, "Speculation & Trends" pretende dirigir-se aos intelectualmente curiosos e forward thinkers.

Um outro aspecto que torna o livro diferente é o facto de não ter direitos de autor, podendo ser livremente copiado ou citado, em parte ou no seu todo. É uma tentativa do autor de se antecipar, ou ser um dos pioneiros na adopção de uma tendência de "open source" e "mashup". Porque, como o autor defende, no futuro o conhecimento será cada vez mais livre e passível de ser utilizado e acrescentado pela comunidade. 

Uma obra altamente recomendável.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no Jornal de Negócios de 16 de Dezembro de 2009


Uma questão contabilística

Cada vez mais as empresas têm a sua actividade assente em projectos ou empreitadas, com elevados factores de imprevisibilidade, o que as “obriga” a recorrer ao trabalho temporário, dada a inflexibilidade do actual código de trabalho, para evitar danos maiores aquando da suspensão de um dos projectos em que se encontrem envolvidas.

Não será a melhor forma de estabelecer relações contratuais, mas adapta-se à realidade.

Já não é aceitável eternizar relações contratuais assentes nesta ferramenta quando a necessidade de trabalho é permanente.Um utilizador frequente é o Estado; reduz os custos com pessoal e foge às regras dos contratos colectivos de trabalho e consequentes regalias.

Acontece que muitos dos colaboradores neste regime, após cumprirem o limite de 24 meses de trabalho, são enviados para o desemprego, sendo novamente chamados 3 ou 4 meses depois. A alternativa é recrutar outras pessoas que vão ter de aprender a fazer aquilo que as anteriores já sabiam, com a consequente improdutividade.

Com esta atitude nada se ganha. Estas pessoas deixam de produzir mas o seu custo mantém-se no estado, mas agora pelo pagamento do subsídio de desemprego.

Troca-se a conta, mantém-se o custo, elimina-se a produção!

Não seria mais racional mantê-las no activo? Pelo menos o seu custo, suportado por todos os contribuintes, era ressarcido pelo seu esforçado desempenho.

Jorge Serra
Gestor

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um Mundo mais Verde? Depende de Si

Com a incapacidade das Instituições em executarem um caminho que permita a preservação do Planeta, temos de ser nós, os indivíduos, a determinar esse caminho e a velocidade da caminhada; para o efeito podemos usar as decisões de compra e o voto político. Quem não se lembra do boicote aos produtos indonésios em prol da causa de Timor ou da não compra de determinadas marcas porque produziam os seus produtos em fábricas com exploração infantil ou porque utilizavam produtos geneticamente modificados; se quisermos, poderemos voltar a fazê-lo. As empresas embora tenham como objectivo o lucro, tem de o obter atendendo às preferências e comportamentos dos seus consumidores; é pois aí que se inicia a nossa capacidade de intervenção, preferindo produtos mais verdes e sancionando produtos ou origens mais poluentes. As empresas estão disponíveis para fazer a sua parte; são exemplo as investigações que desenvolvem e os novos produtos que colocam no Mercado, os edifícios energeticamente mais sustentáveis e as embalagens retornáveis e não deriváveis do petróleo. Por outro lado, o direito de voto exercido em eleições, também pode sancionar propostas governativas que não contemplem este eixo de sobrevivência estratégica. Não desanimemos, tenhamos presente a nossa vontade, actuemos em conformidade, e um Mundo mais Verde será uma consequência. António Jorge Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas Publicado no Jornal "Metro" a 11Dez09

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Post atípico : Back Here!

Foi ontem e hoje publicado o livro "Speculations & Trenbds " - "Tendências 2010-2012", lançamentos no El Corte Inglés de Lisboa e Gaia Porto.
O livro é, em toda a linha, made in Mercado Puro. Escrito por mim, prefaciado pelo Filipe Garcia e com a ajuda de muitos dos co-autores deste blog. Obrigado a todos, mais detalhes em www.speculationsandtrends.com Este post serve de base a um pedido de deculpas a todos pela minha relativa distância dos conteúdos do Mercado Puro, nestas semanas de preparação do livro. Continuei as minhas colaborações habituais com o Metro e Jornal de Negócios, mas com uma cadência menos acelerada. Estou aqui para dizer-vos : estou de volta. Obrigado a todos que ajudaram na construção do livro e estiveram nos seus lançamentos. Um abraço, Pedro Barbosa

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Inquérito: como classificamos esta década?

O jornal "Público" tem um inquérito on-line que me fez reflectir um pouco.
A questão é muito clara:
Como classificaria esta década?
A resposta talvez não tão simples: 1 - Década da Crise 2 - Década dos Países Emergentes 3 - Década da Internet e da Tecnologia 4 - Década da Ecologia 5 - Década do Terrorismo
E no que toca ao "Mercado Puro", como é que cada distinto membro responde a esta questão?
Existem algumas sugestões de resposta que não necessariamente as do "Público"?
...
Alguns marcos dos anos 2000, elaborado com ajuda da Wikipedia:
Uma longa década que "começa" com os atentados de 9/11 ao World Trade Center e "termina" com a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, tendo pelo meio a guerra no Afeganistão, a invasão e a guerra no Iraque, a independência de Timor-Leste (2002)...
Uma das décadas mais estáveis e prosperas da economia mundial até finais de 2007 quando a crise económica coloca em risco a economia mundial, levando muitos países a entrar em recessão e pondo, inclusivamente, em causa o próprio modelo de desenvolvimento assente na globalização. A China atinge um crescimento económico sem precedentes, anunciando a sua entrada (liderança?) no restrito clube das superpotências mundiais...
Na tecnologia, são inúmeras as novidades - quase uma revolução (?)
Cresce a penetração da banda larga, revolucionando as tecnologias de informação e comunicação – desde a popularização dos serviços de mensagens instantâneas (MSN, Skype, entre outros) aos primeiros serviços de relacionamento on-line e às redes sociais (Twitter, MySpace, Hi5 e Facebook, etc.); Assinala-se o início do movimento conhecido como Web 2.0, tendo como principais ícones a Wikipédia, o Google Knol, o Youtube, os Blogs e Fóruns de discussão, o Twitter e a construção colectiva do Linux; aplicativos comuns de desktop passam gradualmente a ser fornecidos online;
Enquanto a Microsoft lança o Windows XP, o Windows Vista e o Windows Seven, havendo já a previsão para o lançamento do Windows Azure (sistema operacional para a computação em nuvem), a Apple renova os seus paradigmas tecnológicos, lançando o Mac OS X e computadores com chip da Intel;
A disquete cai em desuso, sendo substituído pelo CD-R, DVD, pen-drive e o ressurgimento dos cartões-de-memória; O Blu-ray substitui o DVD, que por sua vez torna obsoleto as fitas VHS; todavia, em 2009 já é anunciado o desenvolvimento do Holographic Versatile Disc ou HVD que é a nova tecnologia de discos ópticos que promete suceder ao Blu-ray;
A Apple lança o iPod e o Iphone, revolucionando o mercado de telemóveis e de MP3 players;
Enquanto os MP3 e MP4 Players, os telemóveis, os computadores portáteis e ultra portáteis e as câmaras digitais se tornam populares, novos conceitos, como a computação em nuvem, dão os primeiros passos…
No cinema, voltaram filmes antigos como Casablanca, 2001, uma Odisseia no Espaço, etc. e sagas de filmes antigos como o Indiana Jones; Na televisão, popularizam-se os reality shows, como o Big Brother, a par do surgimento de séries americanas de grande sucesso como LOST, Grey's Anatomy, Ugly Betty, Heroes, Prison Break e 24 horas.
A escocesa Susan Boyle torna-se célebre no mundo todo após ter no reality show inglês "Britain's Got Talent", batendo um recorde de visualizações de vídeos na internet.
A ciência permite concluir a sequenciação do ADN humano;
A descoberta do planeta-anão Éris, maior que Plutão, motiva a redefinição do sistema solar, criando a categoria dos planetas-anões, dentro da qual foram incluídos Éris e Plutão, além do antigo asteróide Ceres. Esses planetas formaram um grupo separado dos planetas principais, que voltaram a ser oito;Descoberto Gliese 581 c, o primeiro planeta possivelmente habitável fora do sistema solar;
A NASA confirma a existência de água em Marte e na Lua; Reacende-se a polémica referente ao Aquecimento Global e a sustentabilidade passa a estar na ordem do dia;
A nave Voyager 1 chega à heliopausa e ultrapassa os limites do sistema solar…
Maravilhoso Mundo Novo!

O fim da hegemonia ocidental (*)

Num magnífico ensaio, publicado a 7 de Dezembro na revista “Newsweek”, o economista e historiador Niall Ferguson descreveu os passos que sempre levaram à queda dos grandes impérios. Endividamento, baixo crescimento e elevados gastos – foram sempre essas as razões do declínio económico, político e social. Ora, é bem possível que estejamos a testemunhar mais um desses momentos críticos da história. Esta semana, as agências de notação de risco apontaram armas à Grécia. Em breve, é provável que façam o mesmo com outros países europeus. E, muito mais importante ainda, foram já dizendo que a credibilidade do governo norte-americano, nomeadamente a confiança associada ao pagamento da sua dívida pública, não está imune à crise internacional. No passado, o indicador económico que melhor permitiu antecipar a queda dos impérios foi quase sempre o serviço de dívida. No século XVI e XVII, o Reino de Espanha entrou em ruptura de pagamentos catorze vezes até implodir. No século XVIII, antes da revolução que se seguiu, a França gastava mais de 60% das suas receitas no pagamento de juros. O Império Otomano, no século XIX, caiu pela mesma razão. E o Império Britânico, que, no século passado, entre as duas guerras mundiais consumia mais de 40% do seu orçamento no financiamento dos empréstimos provenientes do exterior, idem. A história repete-se e, quase, nunca é diferente. (*) publicado no jornal “METRO” a 9/12/2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sustentabilidade. Que futuro ?

Depois de nos últimos anos termos assistido a um conjunto generalizado de reformas “douradas” antecipadas em empresas privadas, públicas e organismos do Estado, será que é desta que o sistema das reformas vai mudar radicalmente? Ou pelo contrário, será que a retoma vai fazer esquecer a importância do tema da sustentabilidade da segurança social e vamos continuar com paliativos?
De acordo com estudos da Comissão Europeia, em termos médios, é esperado que até 2050 o número de cidadãos das faixas etárias acima dos 55 anos cresça exponencialmente. Por outro lado, é unanimemente aceite que é necessário garantir o equilíbrio e a sustentabilidade dos sistemas nacionais da segurança social, e que não é possível continuar a existir uma política de gestão de pessoas que generalize a atribuição de reformas antecipadas ou reformas após 35 anos de serviço.
Estes dois factores, ou seja, a inevitável alteração de grupos etários até 2050 por um lado e a necessidade de equilibrar os sistemas da segurança social por outro, vão exigir um enfoque das empresas e do Estado, enquanto empregadores, na implementação de medidas que apliquem e reforcem o princípio da solidariedade inter-geracional isto é, caberá aos trabalhadores no activo gerar os resultados necessários para fazer face às futuras responsabilidades com pensões.
Sabendo-se também que habitualmente há uma tendência para que os níveis de satisfação (e a tal felicidade que tanto se fala) estejam inversamente relacionados com a antiguidade no trabalho activo, será muito provável que se assista a uma tendência para a definição de objectivos que aumentem o envolvimento dos trabalhadores de faixas etárias superiores, potenciando os seus níveis de satisfação (felicidade), motivação e desempenho.
Mas se é provável que a experiência passe a ser considerada uma mais-valia, que deve ser valorizada e potenciada, os mais novos, à procura do primeiro emprego, “terão que dar largas à imaginação”, aguçando o seu espírito de empreendedores.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A "Face Oculta" dos Aviões



Ainda os aviões estavam no ar e já corria no Porto o rumor que Lisboa iria tentar organizar a Red Bull Air Race em 2010. Na semana passada ficamos a saber que era verdade e que o irá, provavelmente migrar a Sul. É uma mudança lícita? Faz sentido numa lógica de desenvolvimento harmonizado do país?

Antes de mais, importa constatar um facto: as corridas organizadas no Porto são um sucesso completo. As margens do rio estiveram sempre cheias, a imagem da cidade, da região e do país saiu reforçada, assim como os seus produtos, serviços e gentes. O impacto sócio-cultural foi positivo e geraram-se milhares de empregos e muitas receitas directas e indirectas.

Alguns dirão que estamos num espaço concorrencial e que isso inclui a disputa, entre as cidades, pelos melhores eventos. Mas fará sentido ter essa "guerra" no mesmo país, perante um evento de projecção internacional e que tem sido um enorme sucesso? Ao que parece, Lisboa está a ganhar a corrida por apresentar patrocínios elevados, concedidos por empresas cuja gestão é, no mínimo, influenciada pelo Estado. A Galp, Edp e PT teriam a ganhar sensivelmente o mesmo se apoiassem o evento no Porto, Coimbra, Faro ou em outra cidade.

O que está a acontecer faz lembrar o mediático processo "Face Oculta". Alguém parece utilizar as suas influências junto de grandes empresas para atingir um objectivo anti-concorrencial. Que diferença há entre beneficiar uma empresa de sucatas ou uma cidade?

Estamos perante mais um reflexo de um país centralizado. Até as cimeiras e os tratados têm que acontecer na capital, nada sobra para as outras cidades. Mesmo o TGV já foi adiado a Norte.

Lisboa é um eucalipto que seca o país.

Concorrência? Não! O que temos é abuso de posição dominante.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 7 de Dezembro de 2009



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Google, Amantes, Prostitutas e a Economia



Medir a evolução económica e social é controverso e exige novas abordagens. Apesar de o PIB ou o desemprego serem importantes, é pertinente ir por outros caminhos mais subjectivos, mas susceptíveis de serem mensuráveis, para avaliar a riqueza e performance.

Em termos de tendências, a Google tem criado ferramentas interessantes. Está disponível nos EUA o "Global Domestic Trends", que permite medir o interesse por um tema. Serve para conhecer quantas pesquisas foram feitas sobre construção, automóveis, desemprego, entre outros, permitindo conclusões sobre o que as pessoas pensam e que não é captado nos inquéritos formais.

Em Inglaterra, um site de encontros entre casados descobriu uma relação entre a bolsa e a procura por aventuras extra-matrimoniais. Quando a bolsa está em alta, a procura por um "affair" sobe, dados os níveis de confiança. Num "crash", também se regista um aumento, mas para aliviar a pressão: uma "fuga para a frente". Em períodos mornos, os casais tendem a não procurar outras pessoas. Na Letónia encontrou-se uma relação entre o que prostitutas cobram e o desempenho da economia. Antes de o PIB ou da inflação mostrarem uma queda abrupta, já os preços na rua tinha descido. Isto é um indicador avançado!

Claro que já existem alternativas ao PIB, como o IDH, o Coeficiente de Gini, entre outros. Mas, como defende o economista Stiglitz, é necessário medir o bem-estar e não só o que se produz. Não estranhemos se, um dia, for aceite a proposta de Sarkozy de incluir critérios de felicidade nas medidas da riqueza nacional. E, quando isso acontecer, em que lugar aparecerá Portugal?

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 4 de Dezembro de 2009



sábado, 28 de novembro de 2009

“Primeiro estranha-se depois entranha-se”

As notícias sobre o défice e do nível do endividamente do país a atingir números recordes gera um enorme sentido de urgência de e de falta de prespectiva para a saída do país da crise. Neste contexto temos vindo a ouvir falar que a forma de resolver isto é através de aumento de impostos, uma vez que as receitas do Estado estão a diminuir. Creio que todos gostaríamos de ter a mesma ferramenta. A família tem menos rendimento portanto nada mais simples do que dizer ao empregador pague nos mais para poder manter o meu nível de despesas, ou o mesmo na empresa para com os seus clientes. Na economia real o que acontece é que todos se tornam muito mais eficientes, o dinheiro é gasto com sentido de valor. Cada gasto é controlado de uma forma profunda de forma a garantir que é necessário para criar valor. Em conversas com alguns empresários tenho ouvido expressões como “não tinha ideia do que se consegue fazer com metade dos recursos”. No início estranhava-se a solução da subida de impostos para equilibrar as contas agora parece que se entranhou de tal forma no sistema que é sempre a primeira solução. Espero que de facto se reestruture profundamente o Estado tornando-o menos pesado e mais eficiente pois continuar a gastar como se fossemos um país rico mantendo o enorme peso do Estado na economia não será uma receita muito promissora.
Paulo Sousa
Artigo publicado no jornal Metro de 27/11/2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O dinheiro sai, mas a dívida fica



Percebe-se que as pessoas estejam confusas. Em metade do tempo ouvem dizer que o Estado deve gastar dinheiro para reanimar a economia. Mas, logo a seguir, surgem os avisos acerca da necessidade de cortar despesa, porque a situação do país é insustentável e que há riscos de insolvência. Então, em que ficamos?

A lógica do investimento público como motor de crescimento, proposta por Keynes e formalizada por Hicks, é relativamente intuitiva: o governo gasta, esse dinheiro vai parar aos bolsos das famílias e das empresas, que por sua vez também gastam, gerando produção e consumo. É um fenómeno em cadeia, denominado de efeito multiplicador. Entre outros factores, a eficácia da despesa pública dependerá da disposição dos consumidores em gastar o dinheiro que recebem e do grau de abertura da economia. E é nestes pontos que reside o problema.

Actualmente a confiança é baixa e, por isso, a propensão para consumir é reduzida. Por outro lado, a economia portuguesa é muito aberta e, em períodos de maior rendimento disponível, as famílias e empresas tendem a adquirir bens importados. E o mesmo acontece com muitos dos investimentos públicos em infraestruturas, que recorrem a matérias primas e tecnologia de outros países. Tal facto, além de degradar a balança comercial do país, tem um efeito perverso relativamente aos objectivos imediatos dos gastos públicos em tempos de crise: é que se o dinheiro é aplicado em bens importados, sai do país e vai estimular outras economias que não a portuguesa. Ainda para mais, à nossa custa.

Ou seja, o dinheiro sai do país, mas a dívida pública fica por cá... e a crescer.!


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 25 de Novembro de 2009



terça-feira, 24 de novembro de 2009

PuraMente #35 - Cem Argumentos

Negrito
Nome: Cem Argumentos Autor: Paulo Morgado Data Original : Abril 2004 Frase: “A Lógica, a Retórica e o Direito ao Serviço da Argumentação” Keywords: Negociação; Argumento; Falácia; Manobra de Diversão; Discussão; Apreciação: *** Cem Argumentos é um misto de manual prático com livro de consulta, que explora a argumentação recorrendo a um formato invulgar e curioso. Paulo Morgado procurou encontrar os 100 argumentos ou técnicas de argumentação mais relevantes, organizando-os em grupos lógicos de aplicação, como “conjunto de falácias lógicas já tipificadas”, ou “demonstrar um processo de inferência mal instruído”, ou ainda “como imputar uma determinada acção a um sujeito”. Organiza-se tendo como ponto de partida três áreas distintas: a lógica, a retórica e o direito. A obra aborda o tema de negociação de uma forma alternativa, dado que recorre directamente às estratégias de argumentação que suportam a grande maioria dos processos de negociação, em especial as negociações com predominância verbal, como no caso de reuniões, conversas ou discursos políticos. O livro utiliza de forma frequente casos da vida politica portuguesa, o que não raramente facilita a inteligibilidade dos argumentos. Por outro lado, o recurso a uma semântica avançada permite apreender um admirável número de conceitos. Em particular, o capítulo que resume as falácias lógicas já tipificadas é o que parece concentrar maior valor, pela sua evidente aplicabilidade. Os capítulos finais são mais técnicos e apenas relevantes a quem pretender explorar a área de Direito. O conteúdo desta edição varia entre o realmente útil e o meramente académico e teórico, não constituindo uma leitura obrigatória, mas recomendada aos que têm na negociação uma incontornável parte do seu trabalho. Trata-se de uma obra que também aporta um relevante conhecimento de Direito, numa óptica que pode ser interessante aos gestores.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comemorar a Poupança

A 31de Outubro comemorou-se o dia mundial da poupança. Poupar é uma causa útil. Representa um sacrifício de bem-estar presente, com o objectivo de benefícios futuros para o indivíduo ou para quem deste descende.
Numa altura em que muitos têm vindo a consumir os rendimentos futuros, a poupança surge como uma forma de os repor, reduzindo o problema para as gerações futuras. Por este motivo faz sentido comemorar a poupança.
Na conjuntura actual, em que se apela ao consumo público, a poupança privada assume enorme relevância. O modelo económico europeu está assente sobre um equilíbrio “instável” entre o consumo e a poupança.
Os benefícios futuros dependem da estratégia adoptada na aplicação das poupanças, esta implica comparar e analisar produtos financeiros e optar pela escolha mais favorável e adequado ao perfil do investidor. A diversificação é essencial de forma a reduzir o risco total da carteira. Sugere-se que esta inclua depósitos a prazo e contas poupança, indicados para os mais conservadores, mas também acções ou fundos de investimento, para os que possam assumir algum risco. A aplicação das poupanças é muito pessoal e depende da relação do investidor com o risco, mas atenção a todos os detalhes de cada produto, sendo de realçar o facto de poderem ter ou não capital garantido.
Vasco Oliveira - Planeamento e Controlo de Produção
Publicado no jornal Metro de 23 de Novembro

domingo, 22 de novembro de 2009

PuraMente #34 - 50 Gurus da Gestão

Nome: 50 Gurus da Gestão
Autor: Jorge Nascimento Rodrigues (+3)
Data Original: Novembro 2005
Frase: " Dos Gurus às tendências "
Keywords: Guru; Gestão; Compilação; Súmula; Dicionário de Management; Colectânea;
Apreciação: ***
“50 Gurus para a Gestão do Séc. XXI” é um livro que reúne, em cerca de 500 páginas de fácil acesso e navegação, um conjunto de súmulas das contribuições de uma selecção daqueles que foram considerados pelos autores – um conjunto de colaboradores do Semanário Expresso - os gurus da gestão.
A obra é uma evolução de outros conceitos já avançados por Jorge Rodrigues, oferecendo a cada autor cerca de 8 páginas, onde se resume a influência deste e dos seus trabalhos e se publica uma entrevista com o mesmo, com um óbvio enfoque na matéria técnica de cada um dos destes. Trata-se de uma forma alternativa de abordar e resumir contribuições normalmente detalhadas em livros e relatórios próprios.
Como qualquer colectânea, a escolha dos autores e temas é absolutamente subjectiva. Embora pareçam faltar contribuições importantes, a compilação é equilibrada e interessante, havendo um maior investimento em nomes que representam mais tendências do que gurus. Destaque-se contudo que, 4 anos volvidos, já fazia sentido uma nova e reformulada edição, com contribuições recentes de grande relevância para gestão do século 21 (Gladwell, Taleb; Friedman e tantos outros). O livro está organizado or 5 grandes temas: futuro, globalização, inovação, capital humano e marketing.
Este formato é interessante para os que procuram uma colectânea de mini-resumos, que potencie a descoberta de autores e aquisição das suas obras noutro momento; é um livro também interessante como formato de consulta, embora os conteúdos online sejam claramente uma opção mais célere e económica. Esta obra não é destinada aos que pretendem a partir dela realmente criar valor com conteúdos dos gurus, aprofundando conhecimentos ou abrangendo novas áreas da gestão. Neste capitulo, trata-se de um formato excessivamente redutor.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Networking Credível

Empresas e gestores sempre tiveram na função de recrutamento, selecção e contratação – seja de recursos, parceiros ou subcontratados – um importante capital, influenciador dos resultados. No entanto, estes processos de escolha e filtragem estão longe de ser uma ciência exacta. Surgiram neste contexto os sistemas de networking, onde as referências passam a ganhar uma importância vital. Estes sistemas baseiam-se em teias de sub-redes de conhecimentos pessoais e profissionais, em que cada recurso tem determinados valores (créditos) para o respectivo elo referenciador, que tem também os seus créditos perante a entidade decisora.

Trata-se de um complexo sistema de relações e créditos, que funciona algoritmicamente de forma semelhante ao searching do Google: quantidade e qualidade de referências cruzadas, ao nível da credibilidade e matching de conteúdos e capacidades.

Em networking, cada pessoa vale aquilo que referencia: as pessoas que aconselha, as empresas que indica. Esta realidade, válida para a vida profissional e para as relações pessoais, nem sempre é apreendida por pessoas e gestores, que ainda misturam interesses pessoais ou amizades com referências que optimizem a eficácia do que é necessário para cada função e momento.

É fundamental compreender que em networking a credibilidade é o mais importante atributo na cadeia de valor e que a qualidade dos referenciados acabará por ser reflectida, a longo prazo, na credibilidade de quem o referencia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mentir com números

Uma das primeiras coisas que se aprendem nos cursos de informática é a distinção entre dados e informação, onde estes são dados propriamente tratados. Infelizmente, essa distinção poucas vezes é feita quando o assunto são estudos estatísticos, onde simples dados numéricos são apresentados como factos, sem qualquer contexto ou laço com o mundo real.

As estatísticas recentemente publicadas, que indicam que os ouvintes que mais utilizam o download ilegal são os que mais compram, não dizem nada de novo. São o mesmo que dizer que os amantes de carros são os maiores compradores das revistas sobre o tema. Não pode surpreender ninguém que os mais interessados numa área sejam os mais dispostos a investir dinheiro nela.
Da mesma forma, é inconcebível poder levar a sério os números apresentados pela indústria quando tenta equiparar um download ilegal a uma venda perdida. Não é honesto apresentar os compradores de formatos não digitais (como o vinil), mas que mesmo assim querem algo para ouvir no leitor de MP3, ou os que de facto compraram determinado álbum mais tarde na mesma coluna dos "saqueadores" compulsivos. No entanto, isso nunca impediu as editoras de combinar projecções de venda irrealistas com números de downloads ilegais tirados de uma cartola para justificar os seus males.
Apesar de serem um bom tema de conversa, estas estatísticas reflectem pouco mais que o ponto de vista de quem fez o estudo. Estará afinal o copo meio cheio, ou meio vazio?

Luís Silva crítico musical

Publicado no jornal Metro de 18 de Novembro

domingo, 15 de novembro de 2009

PuraMente #33 - "FREE"

Nome: FREE

Autor: Chris Anderson

Data Original : Julho 2009

Frase: “People are making lots of money charging nothing”

Keywords: Free; Marginal Cost; Freemium; Piracy; Freeconomics; Nonmonetary markets

Apreciação: *****

Depois do êxito de “The Long Tail”, Chris Anderson regressa em grande com “FREE – The Future of a Radical Price”, candidato natural a livro do ano, na esfera dos negócios.

O livro aborda a economia do “grátis” de uma forma inovadora e consistente, explicando como tantos negócios se tendem a fazer em torno de pricings nulos com rentabilidades interessantes.

A obra sistematiza 4 diferentes formatos de gratuito : “direct cross-subsidies”, “three party market”, “freemium” e “nonmonetary markets”. O primeiro modelo é o tradicional (ex: promoção “2 por 1”); no segundo junta-se um terceiro que subsidia totalmente o custo marginal da transacção – um exemplo clássico é a rádio, gratuita a troco de investimentos em publicidade; o terceiro é o modelo mais explorado no livro e consiste em ter a esmagadora maioria dos clientes com um serviço gratuito enquanto uma pequena minoria o paga – portanto uns clientes subsidiam os demais - , com base em limites estabelecidos no serviço gratuito, como limitação de tempo, dimensão, velocidade, abrangência ou tipo de cliente; o quarto representa um mercado não monetário, onde blogs e wikipedia são um bom exemplo – o acesso gratuito deve-se ao facto de milhões de pessoas estarem dispostas a produzir sem incentivo financeiro, sendo compensadas com notoriedade ou reputação.

Free constitui um milestone na nova abordagem aos mercados, com uma sistematização economicamente consistente – a escassez e a abundância suportam a razão em grande parte dos capítulos – e detalhadamente explicitada. O autor não deixa de explorar a diferença entre o físico e o digital (atoms & bits), estudando as diferenças, importantes sobretudo na qualidade do produto e no

custo marginal.

Uma obra absolutamente obrigatória.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

PuraMente #32 - "Green to Gold"

Nome: "Know-How"

Autor: Daniel Esty e Andrew Winston

Data: Outubro 2006 Yale University Press

Frase: "Empresas inteligentes conquistam vantagens competitivas através da gestão estratégica dos desafios ambientais"

Palavras Chave: "Green Wave"; "Eco Advantage"; "Environment lens"; "Natural Capital"

Apreciação: ****

"Green to Gold" está presente em quase todas as listas de leituras recomendadas, sobretudo nos cursos de pós-graduação em gestão ou estratégia. Trata-se, por isso e pelos temas abordados, de um "best seller" quase obrigatório. A capa do livro é muito esclarecedora quanto ao conteúdo: "Como empresas inteligentes utilizam a estratégia ambiental para inovar, criar valor e construir vantagens competitivas". O objectivo dos autores é fazer a ponte entre os mundos da preservação do planeta e da estratégia empresarial, sempre com um tom realista; ou seja, considerando que a moral e os valores são importantes, mas não totalmente imperativos. A orientação e necessidades do negócio têm primazia e por isso a preocupação com o ambiente é estratégica.

Actualmente "Green to Gold" já não é tão inovador como em 2006. Muito mudou desde então e os argumentos de marketing ambiental já são "mainstream". A meu ver, esse facto não retira interesse ao livro, pelo contrário. O número de pessoas que precisa de o ler livro aumentou, já que a interacção entre ambiente e negócio é agora uma realidade e não apenas uma aspiração. Por outro lado, o leitor já pode analisar os conceitos e estratégias propostos de uma forma mais madura e até com conhecimento de causa.

Após uma introdução pertinente, o livro apresenta-se em quatro partes: "Preparando um mundo novo", "A construção de eco-vantagens", "O que fazem as empresas-líder" e "Juntando tudo". Considero que as duas primeiras partes, mais conceptuais, são as mais interessantes e enriquecedoras. O 12º capítulo descreve as ideias e frameworks do livro, sendo escrito como se de um artigo para uma revista de gestão se tratasse.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado em 8 de Setembro de 2009 no Jornal de Negócios

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Manifesto pelo talento

Foto: Luís Ferreira
Distraídos com “fait-divers” de uma enferma classe política que já provou não merecer atenção, esquecemos o essencial. Vencer a guerra pelo talento é determinante para Portugal: promovendo a excelência, o arrojo e a persistência; combatendo, implacavelmente, a mediocridade, a preguiça e o facilitismo.
Em tempos de crise mais do que nunca, o talento é matéria-prima preciosa. Promove a capacidade de adaptação, facilita a assertividade na tomada de decisão em situações de elevada incerteza, e possibilita ágil condução em momentos de complexa mudança. Não resolve o futuro, mas facilita o sucesso.
Consequentemente, não é de estranhar que exista uma guerra pelo talento. Não só empresas ou organizações, mas também cidades, regiões e países, querem ter o melhor talento disponível. Enquanto a procura cresce, Portugal vê sérias dificuldades para atrair e reter talento. Num país sem horizonte de longo prazo, sem consistentes apostas e estímulos, com excesso de politiquice, burocracia e corrupção, cansa labutar, desgasta combater as adversidades e penar por genuínas oportunidades. Não espanta que o sucesso de tantos seja lá fora…
Assim, para além do imoral défice orçamental, do explosivo défice externo, debatemo-nos hoje com um aflitivo défice de talento. O futuro torna-se incerto num País que não valoriza talento. Urge inverter esta situação – mobilizemo-nos!

Publicada no Jornal "METRO" em 11-Nov-09

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As lições do Pinho, de Pepe e do Padre



Há umas semanas atrás, o padre de Covas de Barroso foi detido por posse ilegal de 16 armas, entre pistolas, revólveres e caçadeiras, munições, engenhos pirotécnicos e pólvora.  O caso dá que pensar, porque o acesso às armas potencia o acontecimento de tragédias, como as que sucederam nos EUA na semana passada.

Momentos de desespero podem surgir do nada. Quando o jogador Pepe fez um penalty perto do fim do jogo, compreendeu que um golo do Getafe colocava o Real Madrid fora do título. Entrou em desespero, pontapeou o adversário várias vezes e quase agredia o árbitro. Na Assembleia da República, Manuel Pinho faz os célebres "corninhos" à bancada do PCP. Esgotado, física e mentalmente, sentiu-se injustiçado e cansou-se de ouvir as provocações em surdina de Bernardino Soares, um deputado que nunca faz parte da solução. Pepe e Pinho sucumbiram à pressão e perderam a cabeça, felizmente sem uma arma à mão. Pediram desculpas, foram "castigados", mas as consequências não foram realmente graves.

Pensemos agora no médico que matou na semana passada 13 colegas na maior base militar dos EUA no Texas. Ou em Jason Rodriguez que na 5ª feira expressou o seu desepero pela situaçao de desemprego da pior maneira, matando uma pessoa e ferindo outras cinco. O que fez a diferença, pela negativa, nos casos americanos não foi a cultura. O desespero é sempre o mesmo, mas o contexto e o acesso à armas é que podem transformar uma explosão emocional numa tragédia.

Imagine-se, se um dia o padre Fernando Guerra entra na missa revoltado... e de caçadeira!


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 26 de Outubro de 2009



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um Natal Feliz, Apesar da Crise

O início da época de Natal, suscitou-me a interrogação, “Como será o Natal num ano de Crise?”; e a positiva conclusão de que vai ser “Feliz”. O cérebro humano busca coerência e prazer, por isso, quando o deixamos fazer o seu trabalho; isto é, quando mesmo nas piores vivências procuramos ou deixamos que ele procure os efeitos positivos que sempre se podem tirar de qualquer experiência humana, podemos viver, na crise, momentos de elevada riqueza emocional. Na actualidade o Natal é um equilíbrio entre a componente emocional (sua verdadeira origem) e a componente consumista (fruto da dinâmica de Mercado). Obviamente que em tempos de crise, para uma igual satisfação, teremos de privilegiar a componente emocional, ou seja, atendermos mais aos aspectos elementares e fundamentais da dimensão social; a vida em família e amigos enquanto elemento crucial da condição humana. Esta realidade tem uma dupla vantagem, pois para além da felicidade natalícia, reincorpora com um peso maior; talvez o adequado; a dimensão emocional, social e humana da Sociedade; relativizando a dimensão económica que, sem hipocrisias, é importante; contudo tem assumido uma preponderância às vezes selvática e desprovida de princípios e valores; facto que aliás está na raiz desta crise. Vivamos um Natal emocionalmente rico e recuperaremos forças que contribuirão para o fim da crise. António Jorge Consultor em Estratégia Marketing e Vendas Publicado no Jornal Metro de 4NOV09

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Prioridades trocadas (*)

Nos últimos anos, quer o Governo quer a Presidência da República têm apontado o crescimento das exportações como a panaceia para os nossos males. Infelizmente, Panaceia – a deusa da cura – só houve uma e apenas existiu na mitologia grega. Em Portugal, o crescimento das exportações, podendo ajudar a atenuar alguns dos nossos problemas, em particular o défice comercial, não resolve, por si só, os desequilíbrios macroeconómicos evidenciados pelo país. Porque, de acordo com a OCDE, das nossas exportações, que representam cerca de 30% do PIB, quase 40% resulta da incorporação de bens previamente importados do estrangeiro! Portugal é hoje dos países mais endividados de toda a Europa. No sector privado, a dívida conjunta das empresas e das famílias corresponde a 150% do PIB. Quanto ao Estado, o endividamento público caminha para os 80% do PIB. Ao mesmo tempo, a nossa economia é das que tem evidenciado menor crescimento da produtividade (apenas 0,5% ao ano nos últimos oito) e maior aumento dos custos unitários do trabalho (um incremento de 20% face à Alemanha desde a introdução do euro). Estes sim, são alguns dos nossos verdadeiros problemas e que resultam da rigidez reguladora do nosso país, cuja resolução, curiosamente, está, na generalidade dos casos, ao alcance do Governo. Muito mais do que essa tarefa voluntariosa, mas hercúlea, que é a de tentar encontrar mercados para as nossas exportações pouco competitivas. (*): artigo publicado no jornal “METRO” a 2 de Novembro de 2009