sexta-feira, 6 de março de 2009

Nós, eles e os outros


Recordo uma frase atribuída a Almeida Santos: “para os amigos, tudo; aos inimigos, nada; para os outros? Que se cumpra a lei!”.


Nós – iluminados, poderosos e influentes – estamos acima desta maralha, comezinha e pouco inteligente que atrapalha a nossa vocação providencial e pede explicações que nunca entenderiam. Temos o poder; não receamos usá-lo como nos convier. Só assim é que “isto” tem futuro – somos nós que fazemos o país andar!

Eles, opositores, sindicatos, professores, médicos e juristas, economistas que alertam, empresários com voz própria, os que despedem, comentadores que não fazem propaganda e jornalistas que investigam, são todos uns chatos. Não percebem a nossa missão, não veneram os nossos heróicos feitos, conduzem uma campanha negra. Eles não valem nada!

Os Outros, coitados, como sempre pagam a factura. Desempregados e empregados (sobretudo os públicos, que deviam estar gratos), empreendedores que ficam sem rede (e deviam ter mais juízo), contribuintes registados (que esprememos), pais preocupados e filhos de futuro incerto. Existem para que a lei se cumpra!

Redutora e simplista, esta visão “nós/ eles” embarca numa conversa de inimigos a abater e alvos a conquistar.

Com o advento do relacional, onde a sedução, o envolvimento e a partilha são os argumentos, é preciso congregar esforços e unir vontades para dar a volta – apelar a um espírito de missão colectiva não compaginável com um discurso sectário. O “yes, we can” de Obama não é um exemplo por demais evidente?

Publicado no Jornal "Meia-Hora" em 6-Mar-2009.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Parados no trânsito

Num destes dias estava de carro com a família na nossa viagem matinal em direcção à escola e emprego, ouvindo no rádio as habituais notícias sobre a crise e os dantescos números de despedimentos. Questionei-me se estas circunstâncias, que ganham relevância quando associadas ao endividamento das famílias e à necessária prioridade nas opções de consumo, não deveriam ter efeito no número de viaturas particulares, por vezes ocupadas só pelo condutor, que diariamente asseguram os movimentos pendulares casa-trabalho. Esta utilização predominante do transporte particular em detrimento do colectivo tem um conhecido impacto na nossa “dependência energética”, no ambiente (emissões atmosféricas e ruído) e na sociedade (tempo dispendido nos trajectos, stress).
Como inverter esta situação? Que alertas transmitir à sociedade? Aplicar “portagens” à entrada de viaturas nos centros urbanos (como a Congestion Charge em Londres)? Aumentar os incentivos estatais para manter ou reduzir as tarifas dos transportes públicos? Dissuadir a utilização do transporte individual, favorecendo políticas de car-sharing? Melhorar a rede de transportes públicos, aumentando em particular a sua complementaridade e difusão? Todas estas soluções foram já testadas, com melhores ou piores resultados, mas é importante melhorar a mobilidade urbana, tornando-a mais sustentável a médio e longo prazo.
É urgente que este caminho seja desenvolvido privilegiando uma abordagem realista à nossa sociedade e às nossas cidades. Mas será que tudo não deveria começar numa política eficaz e coerente de ordenamento do território?
Francisco Parada
Publicado no Jornal Meia Hora, dia 5/3/2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um branco arriscado

Com a evolução dos padrões estéticos na sociedade é cada vez mais comum a procura por soluções que deixem os dentes "mais brancos".
Existem diversas formas de clarear os dentes. Em alguns casos a remoção de manchas pode ser feita com uma simples limpeza profissional, porém a alteração da cor do dente só se consegue com o branqueamento dentário. Todas as pessoas que estiverem descontentes com a aparência dos seus dentes, com excepção das crianças e das gestantes, podem realizar este tipo de tratamento.
Mas será mesmo necessário procurar um consultório de medicina dentária para realizar um tipo de procedimento que aparentemente é bastante simples?
Há que ter em atenção que os produtos utilizados são feitos à base de peróxido de hidrogénio, que em determinadas concentrações podem provocar irritações e queimaduras na boca, estômago e trato gastro-intestinal. Os riscos do tratamento sem supervisão do médico dentista vão desde a ineficácia do branqueamento, a lesões e queimaduras já referidas, manchas e desgaste do esmalte e hipersensibilidade dentária. Em casos extremos, o uso do produto pode mesmo danificar a polpa, “matando” os dentes.
Nos últimos tempos tem surgido um boom de centros de estéticas, hotéis e SPA’s que oferecem “tratamentos” de branqueamento dentário. Trata-se de procedimentos não regulamentados, sem supervisão médica legal e que colocam em risco a saúde de quem os procura.
Este é mais um caso em que a falta de informação pode levar à escolha de soluções aparentemente eficazes, mas que não estão isentas de risco.
Danielly Garcia
Médica Dentista – OMD 5686

terça-feira, 3 de março de 2009

Chamaeleonidae

Parece existir consenso que os consumidores em geral e os portugueses em particular querem comprar barato. Atentos aos preços, disponíveis para comparações e escolha do preço mais baixo. Um consenso de pura imaginação. Os consumidores não são assim, os portugueses não são assim.
Num ciclo de compra, o cliente passa sempre por um conjunto de passos, que se inicia com a consciência da necessidade (demand-birth) ou da disponibilidade (supply-birth) de um bem ou serviço, e que termina, depois da transacção, num momento de grande importância: o da dissonância cognitiva. O momento em que o consumidor, depois da compra, se pergunta se comprou bem, se fez um bom negócio, se comprou o adequado…Este momentum é tanto mais importante, quanto mais relevante for a compra face ao orçamento global disponível, o share of wallet.
O que mudou foi que este momento está a surgir antes da compra, tornando-se evidente que o cliente não quer comprar barato: quer comprar bem. Está disponível para o melhor value for money. Cada consumidor tem o seu grupo de commodities (para uns arroz, esferográficas e viagens, para outros leitores de dvd, papel ou chá preto), que por ser indiferenciado vai gerar procura do melhor preço. Em simultâneo, está disponível para pagar mais por melhores produtos, serviços de excelência, marcas que desejem, conceitos que lhes projectem a imagem que aspiram - no entanto, o “mais” que estão dispostos a pagar é um spread que também avaliam. No fim do dia, querem apenas fazer os melhores negócios.
E é assim que surgem os clientes camaleão. Pagam o mínimo pelo indiferenciado, e o justo pelo acrescentado.
Publicado no Jornal Meia Hora, dia 3/3/2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

Em época de balanço

Uma avaliação de desempenho poderá ser tão boa ou tão má quanto as qualidades humanas e competências técnicas do profissional que a realiza. Os instrumentos de avaliação mais ou menos banalizados nos dias de hoje não prestigiam necessariamente o seu propósito, nem as organizações que os promovem. Faça-se um paralelo com quaisquer outros tipos de medidas para as quais não existem enquadramento necessário ou supervisão: a negligência ou a arbitrariedade podem ser a tendência dominante. Podem as avaliações de desempenho servir para gestores menos capazes se promoverem pela apreciação negativa de outros? E o que compromete afinal um instrumento que pretende reconhecer e desenvolver continuamente os profissionais, nas melhores empresas? O (im)popular tráfico de influências, o petty management, a desresponsabilização? A ausência de mecanismos que afiram da qualidade das avaliações? De que instrumentos podem os accionistas valer-se para assegurar que os melhores gestores, os que mais contribuem para os resultados, são efectivamente reconhecidos e premiados? Que instrumentos colocam à disposição de quem é avaliado garantindo direito de resposta? Podem ou não assegurar avaliações consequentes? Uma cultura de empresa forte só se conseguirá num ambiente são e de valores bem firmados, onde a autoridade e legitimidade da sua liderança seja incontestada. E apenas num contexto deste podem os processos de avaliação, consequentes, serem bem sucedidos. Qualquer tentativa de reprodução numa cultura enfraquecida servirá apenas para acelerar a sua descredibilização.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Construção Sustentável

O meio edificado é o principal responsável pelas emissões de gases com efeito de estufa porque, por si só, consome cerca de metade da energia produzida à escala global. São as boas práticas no sector da construção que maior impacto terão na prevenção e na mitigação das alterações climáticas. Estas boas práticas, precursoras da construção sustentável, são essenciais à qualidade de vida e sobrevivência de gerações futuras.
A Comissão Europeia tem investido no desenvolvimento do conceito ciclo de vida dos materiais e dos edifícios, mas apenas quando o sistema económico valorizar a dimensão ambiental do planeta será possível criar uma consciência alargada, mudando como consequência as práticas da construção. A solução para as disfunções ambientais que causamos está nos actos de cada cidadão, pelo que é essencial que as instituições políticas e económicas que hoje resistem a qualquer transformação, se esforcem para colaborar no desenvolvimento de um modelo económico que integre valores ambientais e sociais. Apenas com uma conjuntura coerente, transparente e favorável ao planeta será possível motivar as pessoas a actuarem de forma solidária e consistente.
Mudar hábitos ou comportamentos implica um esforço. Devem por isso existir incentivos temporários – fiscais, reguladores, económicos - como recompensa do esforço necessário para vencer a inércia e abdicar de hábitos que tornam o futuro insustentável. A prioridade passa por ganhar competências para melhorar o desempenho energético-ambiental do meio edificado e liderar nesta matéria, criando condições para futuras exportações.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

PuraMente #7 - Fooled by Randomness



Nome: Fooled by Randomness: The Hidden Role of Chance in the Markets and in Life


Autor: Nassim Nicholas Taleb

Data (Original): Outubro de 2001 - W. W. Norton & Company

Frase: "Ninguém aceita a aleatoriedade no seu sucesso, só nos seus fracassos"

Keywords: Aleatoriedade, Darwinismo, Risco, "Cisne Negro", Karl Popper

Apreciação: *****


Nassim Taleb está agora muito em voga, sobretudo depois do best seller "O Cisne Negro" e de algumas das suas preocupações se materializarem durante a crise financeira.  Taleb é um matemático e trader de opções, mas o livro não é sobre "mercados". Fala-se de evolução, saúde, ciência, cinema, literatura, filosofia e muito mais. 


A ideia central do autor é que se subestima o papel da aleatoriedade ou do acaso. Existe uma predisposição biológica para estabelecer uma relação de causa-efeito, mesmo quando não existe. As superstições são um bom exemplo desta situação. O maior problema é que essa ilusão tem consequências nos processos de decisão, avaliação de riscos e até na percepção do sucesso. "Ninguém aceita a aleatoriedade no seu sucesso, só nos seus fracassos". 


Apesar da sua preparação técnica, Taleb é muito céptico quanto aos processos de inferência estatística, considerando muito imprudente generalizar ou prever o futuro tendo como base as observações passadas. A indução até pode servir para escolher as "apostas" a fazer, mas é inútil para gerir riscos (e evitar os "cisnes negros"). Uma das "ideias-chave" é que "os eventos raros são muito subavaliados".


O livro tem duas partes. Primeiro fala-se de como as pessoas não se apercebem da aleatoriedade e tendem a ser enganadas por ela. Na segunda parte são dados exemplos de enviesamento causados por essa ilusão. O livro é divertido e deve ler-se todo. Taleb escreve bem, apesar de não conseguir disfarçar o seu enorme ego.


O autor assume-se como um céptico, na linha de Karl Popper, negando a existência de teorias definitivamente verdadeiras. Defende o darwinismo económico, salientando uma subtileza - o darwininsmo não assenta na sobrevivência, mas na reprodução. Ora estando esta última exposta a alguma aleatoriedade, o processo evolutivo perde linearidade.


O final deste "Fooled by Randomness" deixa-nos um conselho: "O acaso só não consegue controlar o nosso comportamento. Boa sorte!".


Este é um dos melhores livros que já li. É intemporal e o seu impacto na forma como nos relacionamos connosco e com o mundo é duradouro.


Filipe Garcia
Economista da IMF
Artigo publicado no Jornal de Negócios de 25 de Fevereiro de 2009









quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Uma Guerra (a sério) na Europa



As crises não devem ser menosprezadas. Nunca se conhecem todas as implicações de um mal estar económico. Como uma gripe: pode passar, é até provável que passe. Mas pode matar. 

O passado está repleto de conflitos que tiveram como origem uma crise económica, que se tornou social, depois política e finalmente militar. A Segunda Guerra Mundial é um bom exemplo. Um fenómeno de depressão generalizada foi terreno fértil para movimentos populistas, nacionalistas e totalitários. O resultado foi o que se viu.

Pensemos na Europa de hoje. A construção europeia iniciada no pós-guerra tinha como objectivo maior impedir para sempre um novo conflito no território. Pretendia-se o entendimento, o progresso e o bem estar comum. Entretanto promoveu-se a mobilidade, o contacto e entendimento entre povos e culturas de forma a chegar a uma Europa tolerante, que todos queiram construir e defender. O sucesso foi pleno. A Europa está em paz desde 1945, no que é o período mais longo de sempre sem guerras. Esta ausência de conflitos militares leva à ilusão de que a paz na Europa é um dado adquirido. Não é.

O processo de construção europeia chega agora ao momento da verdade. Tratados, Maastricht, Constituição, referendos - tudo isso são polémicas menores, muitas vezes terreno de burocratas e de políticos. Está eminente a necessidade de uma grande entre-ajuda entre os países, em que alguns terão que viver pior para impedir a queda de outros. Agora é que vamos ver quão unidos nós, os europeus, somos. Esperemos que saibamos ler bem o passado e não cair na tentação de voltarmos costas a quem é, de facto, igual.


Filipe Garcia
Economista da IMF

Publicado no jornal Meia Hora em 25 de Fevereiro de 2009


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tudo o que já quis saber sobre a Crise de Crédito

Agradecendo ao Frederico Moniz, que me mostrou o vídeo, aqui está em formato de animação uma explicação simples e fácil de entender sobre o que causou a crise de crédito. Vale mesmo a pena ver, são 11 minutos, mas passam a correr.

The Crisis of Credit Visualized from Jonathan Jarvis on Vimeo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Perguntas e Respostas - 18 de Fev de 2009


  • Justifica-se, na actual conjuntura, a criação na Europa de bad banks?
Já se percebeu que a recuperação económica não será possível sem a estabilização do sector financeiro. Começa também a ficar claro que a situação não se está a resolver por si só. Deste modo parecem ser necessárias medidas mais drásticas para lidar com a crise.

A utilização de medidas do tipo "Modelo Sueco" que incluem um "bad bank" começa a justificar-se.

  • Se sim, eles devem ser privados, públicos ou mistos?
Não acredito na viabilidade de uma solução mista dado que não seria possível o alinhamento de interesses entre os accionistas - Estado e privados. Por outro lado o sector privado não parece estar capitalizado para constituir os seus próprios "bad banks".

Deste modo a solução mais plausível é de ter "bad banks" públicos.

Se se optar pela solução de "bad bank" públicos, é fundamental que alguns princípios sejam respeitados:

  1. A estratégia de "bad bank" deve ser alvo de um consenso internacional, nomeadamente ao nível da zona euro ou mesmo da união europeia, senão ainda mais vasto. Penso que os países não têm a ganhar em seguir estratégias diferentes.
  2. Nacionalização dos bancos que dele beneficiem, incluindo perda completa por parte dos accionistas. Os depósitos e obrigações simples deverão ser salvaguardados. É importantíssimo que não se premeie ou salve quem "provocou" esta situação ou tomou o risco - em última análise os accionistas das instituições que utilizariam o "bad bank". Importante não criar situações de "Moral Hazard".
  3. Devolução ao sector privado, o mais depressa possível, dos segmentos de banca tradicional/comercial.

  • A criação de bad banks pode criar problemas de concorrência?
Sim. Quando o Estado intervém na economia há sempre perturbações à concorrência. Talvez por isso a comissária europeia da concorrência diz não gostar da ideia.

Neste caso os bancos nacionalizados estariam em melhor posição financeira do que os bancos privados que escolhessem tratar dos seus problemas sem recurso a um "bad bank". Porém podemos estar numa situação de "força maior".

Seria ainda mais danoso para a concorrência se existisse um "bad bank" público, mas em que os bancos que a ele recorressem não fossem nacionalizados. Nesse caso a concorrência seria completamente desleal.


  • Que alternativas viáveis existem à criação de bad banks?
Tendo em conta que o sistema financeiro não está, por si só, a dar conta do problema e que ainda nem sequer começaram os problemas graves nas seguradoras – uma questão preocupante – parece haver poucas alternativas à criação de "bad banks" e/ou nacionalização do sistema bancário.


É importante reter estas ideias chave:

  1. A recuperação económica não ocorrerá sem a resolução dos problemas no sector financeiro.
  2. A resolução desses problemas exige medidas concertadas internacionalmente (nisto a comissária europeia está de acordo).
  3. O sistema financeiro não está a resolver sozinho a situação. Pelo contrário, parece estar criado um processo de entropia.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
(Questões formuladas pela Isabel Resende da LUSA)

Presos no meio

Foto: Luís Ferreira

Mesmo para os mais distraídos começa a tornar-se evidente que não podemos continuar a importar o nível de vida que nos habituámos nos últimos anos. Temos usufruído de rendimentos bastante superiores à riqueza que criamos, só possíveis pelo elevadíssimo endividamento internacional que a nossa economia padece. Aliás, esta situação cria um curioso paradoxo: os sinais visíveis parecem mostrar que nunca se viveu tão bem em Portugal, estando o país cada vez mais pobre.
Colhe algum consenso que, das poucas opções viáveis que nos resta, ganhar quota no comércio internacional parece ser a via para resolver este persistente desequilíbrio das nossas contas externas. Ou seja, para garantir a viabilidade do país precisamos ter empresas fortemente competitivas, capazes de gerar bens transaccionáveis e focadas em mercados externos.
Se, do ponto de vista global, o problema parece estar cabalmente formulado, a nível empresarial há ainda um longo caminho a percorrer, sobretudo no que toca à inovação, à dimensão e às competências.
São problemas particularmente relevantes porque o país atingiu um estádio de desenvolvimento onde arrisca ficar “preso no meio” – com salários que são demasiado altos para competir com a Ásia e a Europa Central e Oriental na transformação de produtos de baixo valor acrescentado; e produtos que não oferecem uma percepção de valor suficiente para competir com economias mais avançadas.
Este desafio é gigante mas não impossível: os sectores e as empresas que são exemplo de sucesso no Mundo inteiro motivam!
Artigo publicado no Jornal "Meia-Hora" em 19-02-2009.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PuraMente #6 - A Estratégia do Oceano Azul


Nome: A Estratégia Oceano Azul


Autor: W. Chan Kim e Renée Mauborgne

Data (Original): Dezembro 2005

Frase:"Criar um novo espaço de mercado não disputado que torna a concorrência irrelevante"

Keywords: Oceano Azul vs Oceano Vermelho; Curva de Valor; Redução; Eliminação; Criação; Elevação.

Apreciação: *****

A Estratégia do Oceano Azul é um livro incontornavelmente obrigatório. Desde a sua publicação original, tornou-se numa referência mundial de estratégia e inovação. É uma obra que vale pela ideia original da sua proposta, que vem acompanhada de um modelo surpreendentemente maduro de aplicação.

Destinado a todos, mas sobretudo para os gestores cujas empresas respiram um mercado altamente concorrencial, o livro (Editora Actual - Maio 2007) – postula que a única forma de vencer a concorrência é deixar de tentar vencer a concorrência – é parar de concorrer. Os autores apelidam os mercados concorrenciais de "oceanos vermelhos", numa analogia ao sangue que resulta de uma disputa aguerrida, espaço onde as empresas não serão sustentáveis, independentemente da sua capacidade de vencer ou não os que com eles disputam o mercado.

Um Oceano Azul é o espaço de todas as indústrias que ainda não existem e que são potenciais propostas de valor para os clientes. Aqui, em vez de empresas na procura desesperada de um aumento da sua quota de mercado, encontramos os que criam a procura, com elevados níveis de crescimento e rentabilidade, tornando a concorrência irrelevante. Depois de definirem claramente esta diferenciada visão do mercado e respectivo espectro da proposta estratégica, os autores dedicam 200 páginas a explicar o framework (curva de valor) e a formulação e implementação da estratégia, citando inúmeros exemplos de oceanos azuis, como o Cirque Du Soleil, Swatch, Blockbuster ou Netjets.

É difícil adjectivar esta obra, pela sua extrema qualidade e intemporal utilidade. Estrondosamente genial seria justo, mas só um termo da língua original fica à altura do livro: "Unputdownable".

Pedro Barbosa
Docente no IPAM

A Apatia Racional

Vão ser tempos muito interessantes. Um dos factores que diferencia a crise actual das anteriores é o impacto que está a ter no consumo das classes média-alta e alta. Neste importante segmento de mercado, a sensibilidade ao preço começa a atingir patamares completamente diferentes dos habituais. Não será (para já) falta de recursos financeiros, será eventualmente o receio do futuro, uma mudança no valor atribuido ao dinheiro, e até algum pudor em manter o nivel de consumo, mas a verdade é que desde o Natal que se assiste ao fenómeno curioso das classes com mais recursos estarem cada vez mais sensíveis a argumentos low cost/high value.
Consequências? Claramente o modelo de vender glamour , de vender produtos exclusivamente pelo apelo e notoriedade da marca, do seu significado como status symbol estará esgotado (pelo menos temporariamente). As politicas de preço Hi/Lo como são, por exemplo, os saldos, que tradicionalmente potenciavam as vendas a clientes de menores recursos, sem canibalizar as vendas a full price aos clientes de recursos mais elevados, estão a induzir um efeito cada vez mais dramático de retardamento de consumo por parte de todos os consumidores, à espera dos melhores preços. A grande novidade é que este comportamento se estende a segmentos de mercado em que a elasticidade preço da procura não era muito elevada.

Mais do que nunca, é necessário estudar o consumidor; entender a forma como nestes segmentos de mercado o valor está a ser redefinido e ajustar a politica de preços e comunicação para este novo paradigma. Conhecer bem e fazer os ajustamentos necessários à estrutura de custos é fundamental, já que as politicas de preços vão ter que mudar para acomodar este período pós “exuberância irracional”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Taxa de Desemprego em Portugal - Comentário


A taxa de desemprego aumentou uma décima entre o terceiro e o quarto trimestres do ano passado, para 7,8 por cento, um valor que fica ligeiramente abaixo das expectativas de alguns economistas e que pode não reflectir os despedimentos e rescisões de contratos anunciados na generalidade dos sectores de actividade, face à actual crise nacional e internacional. (in Público)


Os números reflectem o abrandamento da actividade e não surpreendem, estando integrados numa realidade que vai para além das fronteiras portuguesas.

Dado o carácter ‘lagging’ do emprego e a situação económica actual e previsível, é muito provável que estes indicadores continuem a degradar-se pelo menos até ao final do ano. Prever um valor para o final do ano é pura futurologia, mas pensamos que se poderá pensar numa taxa de desemprego perto de 9%, até porque as estatísticas do emprego podem sempre ser sujeitas a algumas distorções.

Do ponto de vista de eficiência económico-financeira, parece-nos que o governo português deverá evitar cair na tentação de tentar inverter o ciclo económico, dado o carácter aberto e dependente do exterior da economia portuguesa. Será provavelmente um desperdício de recursos dado que a economia portuguesa não poderá arrancar sozinha.

Deste modo, deverá reunir esforços na busca conjunta de soluções para a estabilização do sistema financeiro, minimizar os impactos sociais do aumento do aumento do desemprego e não contribuir para cenários de insolvência nas empresas.

Filipe Garcia
Economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O falso "Robin dos Bosques"



A figura do "Robin dos Bosques" está ligada à metáfora do equilíbrio e da justiça. No nosso imaginário vive um herói corajoso e altruísta que retirava aos ricos para dar aos pobres. Por isso não surpreende que haja políticos que gostam de se colar ao personagem. Mas o que realmente acontecia na história?

Reza a lenda que havia um Príncipe João que aproveitava a ausência do Rei Ricardo para explorar o povo trabalhador de Sherwood através de impostos. Era violento e recorria ao medo. O Príncipe João nada produzia e vivia obcecado com a contagem das moedas e a ilusão do poder que a riqueza lhe dava. Robin e os seus companheiros tiravam o que podiam ao Príncipe para devolver (e não dar) aos camponeses e artesãos. Ou seja, a história não trata meramente de tirar a ricos e dar a pobres, mas em aplicar justiça social. Devolver a quem merece para permitir aos trabalhadores e empreendedores da floresta apreciar os frutos do seu esforço. Retirar ao Estado tirano e improdutivo que cobrava coercivamente.

Perante a utilização "popularucha" desta lenda em Portugal há que repor a verdade. O que está a ser proposto pelo Governo é retirar aos trabalhadores eventualmente com mais mérito e que mais apostam no seu sucesso e no do país para dar ao Estado, despesista e improdutivo. Promove-se a evasão e, muito pior, desencoraja-se o progresso profissional e salarial. A história está ao contrário porque parece que o Príncipe João se está a querer fazer passar-se por "Robin dos Bosques".

Pior demagogia só mesmo do "João Pequeno" que, como bom radical, quer que só se despeça onde houver prejuízos.
 
Filipe Garcia
Artigo publicado no jornal Meia Hora em 16 de Fevereiro de 2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009

20 por cento

Entre a população portuguesa, existe a ideia generalizada de que a introdução do euro agravou o nosso custo de vida. Sendo certo que alguma evidência empírica assim o confirma, a verdade é que as estatísticas oficiais referentes à evolução da inflação desde então não o demonstram de todo. Aquilo que os números demonstram, de forma inequívoca, é que a moeda única agravou a nossa falta de competitividade face ao estrangeiro. Em Portugal, os custos unitários de trabalho são hoje cerca de 20% superiores aos que eram em 2000. Pelo contrário, na Alemanha, o grande bastião da zona euro, os custos unitários de trabalho permaneceram inalterados de então para cá. Ou seja, tudo o resto igual, Portugal é hoje 20% menos competitivo face à Alemanha do que era há oito anos. Em geral, estas discrepâncias são resolvidas através de desvalorizações cambiais, daí que alguns economistas defendam que Portugal teria vantagem em abandonar o euro e adoptar outra moeda mais consentânea com a produtividade do país. Essa medida permitiria estimular as nossas exportações, onerar as importações e contribuir para a redução do problema central da economia portuguesa: o défice das transacções correntes, que excede já os 10% do PIB. Infelizmente, essa táctica não deverá resultar num mundo global como o actual. O exemplo maior é a China, cujas exportações baixaram 18% em Janeiro. Assim, mantendo o euro que, apesar de tudo, tem mais vantagens que inconvenientes, a única forma de repor a nossa competitividade é através da redução drástica dos impostos. Ou então, aceitar uma redução generalizada dos salários em 20%. (*) Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 13 de Fevereiro de 2009.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Karl Marx - A Provocação!

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros e casas, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"
Karl Marx, in Das Kapital, 1867

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sem discutir a necessidade e as opções...

Sem discutir a necessidade e as opções das grandes obras públicas, é possível analisar os respectivos processos de concurso. A Alta Velocidade foi preparada para que fossem apresentadas as melhores propostas possíveis tecnicamente, cumprindo todos os requisitos legais, tais como a Declaração de Impacto Ambiental, e permitindo uma racionalização de custos pouco comum. De uma estimativa inicial de investimento para o primeiro troço de € 2.050 milhões, a RAVE lançou o concurso com o preço referência de € 1.450 milhões! Em contrapartida, temos o Novo Aeroporto de Lisboa. O Governo, porque prometeu lançar o concurso nesta legislatura, irá lançar uma pré-qualificação, sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA), na qual deverão ser escolhidos dois concorrentes para posterior negociação. Como o EIA será concluído durante a negociação (espera-se!), os proponentes terão de incorporar, nessa fase, os custos necessários nos “remédios” definidos pelo referido EIA e que podem representar 8% do investimento total. E se os concorrentes preteridos apresentassem um custo menor para incorporar esses “remédios” alterando, eventualmente, a classificação da primeira fase do concurso? Temos ainda a privatização da ANA, sobre a qual iremos assistir a muitas discussões - veja-se a justa luta em relação ao aeroporto do Porto - sobre o seu perímetro de privatização e percentagem a alienar. Estas indefinições, entre outras, transformam uma competição em mercado concorrencial numa negociação bilateral (em fase de negociação ou execução de obra), na qual todos nós, contribuintes, acabaremos por pagar. Artigo publicado no Jornal Meia Hora em 11 de Fevereiro de 2009.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Grande Depressão 2.0?

Irving Fisher, um reputado economista Americano (1867-1947) da linha de pensamento neoclássico, apontava um conjunto de factores determinantes para desencadear uma Grande Depressão: o excesso de dívida cujo crédito não tenha suporte em activos seguros e a deflação. Estes determinantes conjugados com o desenvolvimento de bolhas especulativas sobre activos criam um potencial cenário devastador nos mercados. Na sequência das suas reflexões, de forma a sistematizar os factores relevantes que podem conduzir a uma Grande Depressão, Irving Fisher identificou:
  • Pressão para liquidação da dívida e venda motivada por pânico;
  • Contracção na liquidez e quebra no acesso ao crédito bancário; Quebra do valor dos activos;
  • Quebra na actividade económica e a precipitação de insolvências; Quebra generalizada dos lucros estendida a vários sectores;
  • Redução da actividade comercial e no mercado de trabalho; Pessimismo e perda de confiança dos agentes;
  • Levantamento massivo de depósitos;
  • Quebra da taxa de juro directora em termos nominais conjugado com o aumento da deflação.

Irving Fisher estruturou o seu pensamento na experiência vivida na Grande Depressão 1.0 e porque nos dias que correm a maioria dos factores enumerados por Fisher se verificam na actual crise, será de pensar que o futuro próximo não augura nada de bom.

Contudo as circunstâncias e o momento não são os mesmos, porque o mundo mudou de então para cá e a capacidade de concertar medidas é superior. Como é habitual dizer-se: “à primeira toda a gente se engana, à segunda só quem quer”.

Artigo publicado no Jornal Meia Hora em 9 de Fevereiro de 2009

PuraMente #5 - "How to Talk So People Listen"

Nome: How to Talk so People Listen
Autor: Sonya Hamlin
Data: Dezembro de 2005 - Collins Business
Frase: "How to talk so people listen" (o próprio título)
Keywords: Mensagem visual; Generation gap; What's in It for me?; O medo do palco;
Apreciação: ***
A mudança condiciona a comunicação. Os ambientes electrónicos ganham espaço e têm alterado a nossa capacidade de falar e, tão ou mais importante, de ouvir. Torna-se necessário melhorar a abordagem verbal e visual para quase todas as situações, desde fazer uma apresentação, impressionar um cliente, causar impacto numa reunião ou numa conversa informal. Porque os outros não sabem o que somos, o que temos para dizer, ou simplesmente não estão à partida alinhados com a nossa mente... “comunicar é preciso!”.
Este livro de Sonya Hamlin pretende ser um guia prático para ajudar o leitor a ser um comunicador mais eficiente. Tenta-se fazer algum enquadramento dos processos e contextos comunicacionais, passando-se por uma série de dicas práticas, sempre num discurso que desdramatiza o processo de comunicação. Valoriza-se o papel do trabalho de preparação das apresentações em detrimento do “talento natural” como factor crítico de sucesso.
O livro divide-se em dez capítulos e está bem estruturado, sendo mais do que um "self-help book". O índice é desagregado e permite consultar rapidamente um tópico ou assunto em concreto. O 2º capítulo é importante e uma das razões porque o livro merece destaque. Nele descrevem-se as "4 gerações" - Seniors, Baby Boomers, X e Y. Há que estar atento e consciente às diferenças entre cada grupo para definir as estratégias de comunicação mais eficazes.
O título é feliz porque transporta para a ideia de que a comunicação é um processo multilateral em que se torna necessário colocar o receptor no centro – do "outro lado" existe sempre a pergunta: "o que tenho eu a ganhar em ouvir-te?". Outra mensagem a reter é a necessidade de tornar a comunicação mais visual para alavancar as possibilidades de recordação futura. Há ainda capítulos inteiros sobre métodos de preparação e concretização de apresentações e como vencer o "medo de palco".
Aconselha-se usar um pouco de "filtro" já que o livro é pensado na realidade norte-americana.
Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Crise para que te quero

No contexto da grave crise global que a todos afecta, quantas empresas estão preparadas para acompanhar as mudanças que o mundo apresenta?

Numa sociedade cada vez mais móvel e diversa, surgem novos grupos de consumidores sempre mais exigentes. O mercado de trabalho é cada vez mais global e o balanço entre o talento e os baixos custos cresce em dificuldade. Os desenvolvimentos tecnológicos são cada vez mais revolucionários. Uma consciência ambiental obriga-nos a tomar decisões reflectidas.

No entanto, por vezes é necessária uma situação de crise para nos fazer reagir. Nos anos 90 foi necessária uma crise na IBM, que à data caminhava a passos largos para a extinção, para que Louis Gerstner redefinisse a estratégia do gigante trazendo-o de volta para a ribalta. Acredito que aqueles que forem capazes de olhar o presente de uma forma diferente, para a partir daí construir um novo futuro, poderão vislumbrar na crise uma oportunidade.

As empresas que forem capazes de inovar e de se reinventar constantemente terão a capacidade de ultrapassar as fronteiras existentes nas indústrias onde operam; estarão aptas a redefinir as expectativas dos produtos que entregam e serão capazes de desenvolver novos modelos de negócio. Deste modo, o contexto actual oferecerá oportunidades únicas. Contudo, essas empresas terão obrigatoriamente que ter líderes capazes de criar valor, de gerir o risco e de ter uma perspectiva de longo prazo.

As empresas poderão também nada fazer e caminhar a passos largos para o que o futuro lhes reserva, mas temo que assim nada de bom o futuro terá para nos oferecer.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Paradoxo nos Preços

Estimativas, projecções e previsões são hoje a menor de todas as prudências, tendo em conta não só o não-conhecimento de Taleb, mas sobretudo a imprevisibilidade do efeito dominó da crise financeira e da evolução sócio-politica na Ásia e Médio Oriente na era pós-Obama. Ainda assim, arriscarei falar sobre tendências de preços em 2009, face ao paradoxo que se avizinha. Parece consensual que os preços vão subir pouco ou nada. Um consenso forçado, porque apesar da taxa de juro ter descido, o custo do dinheiro cresceu, fruto de alterações em ratings e spreads. No entanto, do FMI à CE, dos jornalistas aos especialistas em Economia, do BdP ao Governo, ninguém parece ter dúvidas: a inflacção está controlada e terá valores reduzidos. Não é tudo. 2009 será o ano em que muitos operadores aproveitarão para fazer crescer as margens – sobretudo aqueles onde estas são tradicionalmente baixas e discutidas no mercado de forma intensa. O caso mais óbvio é o dos produtos alimentares de marcas brancas/próprias, cujos markups já começaram há muito e se vão prolongar em 2009. As operadoras de telecomunicações aumentarão em 2,5% os seus pricings e reduzirão os markdowns de campanhas horizontais. O exemplo mais importante chegará da electrónica de consumo, onde os fabricantes e os retalhistas especializados deverão aumentar as margens médias e atenuar o skimming como forma de compensar a quebra de rotação. Aplicável a outros sectores da economia, este aumento por posicionamento é um paradoxo em ano de controle esperado de preços. Falta saber se tem relevância no panorama da economia real como um todo.
Publicado no Jornal Meia Hora de 6/2/2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Vida por um Fio...

Lamentavelmente, todos os anos, por esta altura, somos confrontados com notícias de acidentes fatais, provocados por incêndios, com origem em instalações eléctricas degradadas e adulteradas ao longo dos anos.
A maioria de nós, em face destas recorrentes situações, questionará a oportunidade de se legislar nesta matéria criando metodologias de avaliação às infra-estruturas eléctricas com bastantes anos.
Surpreendam-se porém os mais desatentos, mas essa legislação já existe no nosso país há mais de 30 anos. Efectivamente, já o decreto-lei nº 740/74 de 26 de Dezembro previa que todas as instalações eléctricas, denominadas domésticas, fossem inspeccionadas de 10 em 10 anos.
A pergunta óbvia é: porque é que tal não acontece? Se existe alguma preocupação com as instalações novas (inspeccionadas por amostragem), porque é que não se actua ao nível das mais antigas, que de acordo com as estatísticas são aquelas que maior risco apresentam para os utilizadores?
Existem em Portugal diversas entidades competentes para realizar estas fiscalizações, pelo que não será por falta de meios que não se cumpre o referido decreto.Noutras especialidades, como por exemplo o gás, onde a legislação é semelhante, e na falta de uma fiscalização apertada pelos organismos competentes, são os próprios fornecedores que fomentam a realização de inspecções aquando das alterações de contrato. Porque não algo idêntico na área eléctrica?
Quanto aos acidentes domésticos eléctricos provocados por equipamentos de aquecimento falarei noutra oportunidade, pois nesta matéria também há muito por dizer.
Jorge Fernandes Serra
Artigo publicado no Jornal Meia Hora em 2009.02.04

O Euro não está morto!




Nas últimas semanas os adversários da moeda única têm voltado a mostrar-se.

Exageradamente? Talvez. Oportunisticamente? Com certeza!

O acentuar das diferenças do risco de crédito entre países e os previsíveis incumprimentos do Pacto de Estabilidade levaram a que se falasse no fim da União Económica e Monetária. Para os eurocépticos se um dos países entrar em insolvência, o fim do euro será inevitável.

Claro que a adopção de uma moeda única trouxe rigidez à economia já que se perderam graus de liberdade. Um país com moeda própria define as suas taxas de juro, pode emitir moeda para pagar dívida e desvalorizar para induzir competitividade. No caso de Portugal até é discutível que sejam vantagens evidentes... Aliás esta crise tem demonstrado que é do interesse dos países "euro" manter a coesão e que estão mais bem defendidos juntos do que se estivessem separados. Até do ciclo económico.

Como a UBS destacou num comentário recente, os custos de sair do euro são proibitivos. Um país que abandonasse o euro teria que enfrentar taxas de juro muito elevadas, tornando provável a insolvência de particulares e empresas. O sector financeiro doméstico colapsaria com saídas de capital ou, se isso fosse impedido, sem as entradas de novos fundos.

Note-se que o Tratado de Maastricht não prevê que um país possa ser "expulso" do euro. Trata-se de uma decisão interna, mas que implicaria isolar-se do projecto europeu e não só do euro. E isso
seguramente não seria um bom sinal para os europeus...

Um cenário de pânico, crise, proteccionismo, nacionalismo e isolamento.
Sair do euro não é uma opção para ninguém!



Filipe Garcia

Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 5 de Fevereiro de 2009 (pág. 8)
 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

PuraMente #4 - "Inside Steve´s Brain"

Nome: Inside Steve´s Brain
Autor: Leander Kahney Data: Outubro 2008
Frase: "The Goal was never to beat the competition, or to make a lot of money. It was to do greatest things possible, or even a little greater" Keywords: Steve Jobs; Apple; simplicity; unprecedent attention to detail; focus
Apreciação: ***
Inside Steve´s Brain não é, ao contrário da maioria das obras sobre Steve Jobs, um espaço dedicado ao culto do seu comportamento simultaneamente genial e instável: ao invés, trata-se de uma obra dedicada a estudar a mente de Jobs, numa óptica de exclusividade de tácticas, que revelam que o elitismo de um pensamento pode gerar os resultados mais simples possíveis, desde que exista sempre uma estratégia de enfoque. E "enfoque significa dizer não". Kahney explora o cocktail de sucesso de Jobs e das suas Apple e Pixar: simplicidade, conveniência e diferença. Como pano de fundo, um quase obsessivo controle dos detalhes, um enfoque no estritamente necessário quer no produto quer na empresa (gestão de core e outsourcing do side stuff), e sobretudo uma politica de risco como forma de incentivar inovação genuína. O livro aborda ainda a diferença entre a "pure science" e "applied science" e as consequências de deste tipo de inovação na eficácia das empresas, bem assim como comporta um autêntico manual sobre gestão e design do produto e sobre visual merchandising e concepção de espaços comerciais desenhados não para a venda de curto prazo, mas para a conveniência e superação de expectativas. A gestão do silêncio e dos timings e uma politica de informação "need-to-know-basis" contrastam com uma orientação de meritocracia e de "champagne milestones". O livro espraia-se por momentos deliciosos da gestão Jobs, mas encerra igualmente importantes lições em áreas como o Recursos Humanos, onde o CEO da Apple prefere um "A Team" curto , fiável e confiável e aposta tudo em contratar o melhor dos melhores. Ou ainda melhor que isso… Pedro Barbosa Docente do IPAM Artigo publicado no Jornal de Negócios em 3 de Fevereiro de 2009

Mínimo Denominador Comum



Existirá um elemento comum que permite compreender a descida do rating internacional de Portugal, a falência da maior exportadora nacional e, por exemplo, o número crescente de talento que se vê obrigado a deixar o país? Por razões diversas, o mínimo denominador comum que encontro nestes fenómenos é o facto de vivermos num país adiado.

Um país que, com maiorias ou minorias, à esquerda ou à direita, não se consegue pôr de acordo em temas tão essenciais como a educação, a justiça e a segurança social, corre o sério risco de hipotecar o futuro.

Uma economia que não encontra a sua vocação estratégica e não sabe usar as suas competências nucleares, jamais será competitiva, vendo-se obrigada a ficar refém de decisões de outros, acumulando perdas e dívidas. Um tecido empresarial que não toma a excelência com padrão, apostando em profissionais qualificados capazes de impulsionar a mudança, perderá o desafio da competitividade.

A par dos grandes reptos, as crises trazem o ventre carregado da esperança de mudança. Com o terreno a ficar preparado, sejamos agora verdadeiramente oportunistas e utilizemos o momento para reformar Portugal: diminua-se o voraz apetite do Estado; foquemo-nos no essencial apostando numa ambição exigente; desenvolvam-se estratégias colectivas que sejam eficientes e globais; amparem-se as empresas com futuro e ajudem-se as outras a sair rapidamente de cena. Na verdade, só precisamos de orientar a nossa enorme energia criativa para os grandes desafios, certos que “o futuro não é previsto, ele é preparado”.

Publicado no jornal "Meia-hora" em 3-Fev-09.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vinho do Porter

Imaginem um monte Alentejano e uma encosta no Douro. O que de imediato vos sugerem estes dois cenários? Turismo e Vinho. Usufruir da vivência do mundo rural, com o máximo de sofisticação. É um conceito muito interessante com duas formas distintas. As velhas Quintas e conceituados produtores rentabilizam infra-estrutura e instalações. E quem lança um novo projecto turístico-imobiliário nestas regiões concebe um arranjo paisagístico de forma a enquadrar o vinhedo.
O vinho de região demarcada está cada vez mais associado ao conceito de exclusividade, da mesma forma que o turismo exclusivo é cada vez mais procurado.
Será que o sector vitivinícola tem também evoluído?
A crescente profissionalização de quem trata das uvas e um forte investimento de grupos empresariais ligados ao sector têm permitido alcançar bons resultados. Mas esta melhoria não acontece por acaso. Os objectivos traçados pelo Monitor Group de Michael Porter, no estudo apresentado em Maio de 2003 estão a ser seguidos e só a famigerada crise veio empatar um pouco. Mas eis que os principais e mais conhecidos projectos empresariais do sector, como é exemplo a Finagra (Herdade do Esporão), começam a adquirir mais propriedades. Neste caso específico trata-se de uma estratégia para alargar a gama de produtos, entrando no Douro. Porém outros aproveitarão para aumentar volume, factor também importante neste mercado.
Somos o 11º produtor mundial e o 4º europeu, mas a aposta terá de ser pela qualidade.Um dia o 1º lugar da Wine Spectator vai ser português, e este ano já fomos 3º (Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2005).

Retalho : Oportunidade 2.0

O BNP Paribas publicou o primeiro trimestre negativo da sua história. A Qimonda em insolvência. A Morgan de Toi pede protecção de credores. A crise não pára e também no imobiliário comercial em Portugal já se sente: abrandamento na maioria dos novos centros comerciais em construção – por problemas de financiamento e sobretudo de dificuldade na comercialização de lojas, um factor fundamental para o sucesso das operações. Estes investimentos são de longo prazo e não podem ser condicionados por problemas de curto, pelo que a solução passa por suspensão de projectos ou adiamento.
Ao contrário do sector industrial, onde a crise está a servir de desculpa para despedimentos e relocalizações que iriam acontecer com ou sem recessão, neste sector os abrandamentos são consequência real e directa da situação económica.
De Leiria a Évora, de Barcelos a Braga, de Portimão a Viana, há retails e centros comerciais previstos que não avançaram, há obras quase paradas por falta de liquidez, há contratos assinados que não vão ser concretizados, há licenças com prescrição à vista, há promotores em risco e há projectos que nunca irão nascer. Para as redes de retalho, é a melhor oportunidade para renegociar em baixa os seus contratos e crescer a um custo de oportunidade negativo, já que a pressão está desta vez sobre os operadores de centros comerciais, que em muitos casos estão dispostos a financiar os retalhistas para entrarem nos seus empreendimentos.
Quem não parece interessado em aproveitar esta oportunidade única é o comércio de rua, incapaz de se organizar em conceitos de comércio integrado.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A mulher de César

O provérbio diz que à mulher de César não basta ser séria – também precisa de o parecer. Pois bem, na sequência do apoio governamental concedido nos últimos meses à banca, os principais executivos do sector ligaram-se ao Estado num estranho matrimónio em que todos tentam parecer sérios, mas muitos não o são. Refiro-me, em particular, ao pagamento de prémios variáveis em instituições insolventes, resgatadas com o aval dos contribuintes, mas em que nem assim os banqueiros deixam de fazer pagar prémios nem deixam de os receber. O exemplo mais paradigmático é o que aconteceu na defunta Merrill Lynch (ML) – outrora o terceiro maior banco de investimento do mundo, mas que, mergulhada em más apostas “subprime”, entrou em falência técnica, tendo sido adquirida pelo Bank of América (BoA) com o aval parcial do Estado. Soube-se na semana passada que em Dezembro, uns dias antes da aquisição se concretizar, foram pagos milhares de milhões de dólares em prémios variáveis aos quadros da ML, ao que consta sem a permissão do seu comprador, o BoA. A polémica está a dar que falar e, entretanto, o principal executivo da ML, John Thain, aquele que negociou a venda da empresa e que agora ficaria na administração do BoA, já foi demitido. Independentemente de quem tenha dado a ordem final, não é aceitável que os prémios sejam pagos. Na verdade, os accionistas de ambas as instituições deviam exigir a sua devolução. Porque o primeiro critério na atribuição generalizada de prémios tem sempre de ser o sucesso global da instituição e só depois a contribuição individual de cada um para esse sucesso. (Artigo publicado no jornal Meia Hora a 27/12/2009)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ajustamentos

Ajustamentos
Actualmente, até os mais audazes temem arriscar grandes previsões. Dão-nos, no entanto, uma antevisão irrefutável: a crise vai afectar o comportamento dos clientes que, ofuscados desde cedo pelo pessimismo, tomarão decisões cada vez mais cautelosas. Algumas empresas já começaram a retirar benefícios imediatos deste cenário, bombardeando-nos com promoções inéditas e dicas de como poupar. Há, no entanto, um caminho mais estruturante que fortalece o relacionamento com o cliente e a imagem da marca: capitalizar em mensagens de durabilidade, eficiência e racionalidade, características que os consumidores procuram agora avidamente para justificar a compra. Outra via importante passa por apoiar os clientes no cumprimento das suas obrigações, num momento em que se sentem inseguros ou precisam de apoio. Proactivamente, as empresas devem prever situações de dificuldades financeiras dos seus clientes, identificando as alterações nos padrões de consumo. Numa atitude mais reactiva, especificamente em acções de cobranças, é importante rever processos e repensar políticas de fidelização. As empresas que se mostrarem compreensivas e apresentarem alternativas e soluções flexíveis, surpreendendo os clientes quando estes menos esperem, terminarão este período de trevas mais fortalecidas do que as suas concorrentes. Perante esta mão amiga, os consumidores tenderão a permanecer mais tempo fiéis às empresas, que através destas acções com eles fortalecerão as suas relações.
Artigo publicado no jornal Meia Hora a 27/01/2009 Andreia Pinho

PuraMente #3 - "Marketing Metaphoria"



Nome: Marketing Metaphoria

 

Autores: Gerald Zaltman e Lindsay Zaltman

Data: Abril de 2008 - Harvard Business Press

Frase: "We are deeply alike"

Keywords: Metáforas; Consumidor; Conceptual Blending; Deep Thinking;

Apreciação: ***

 

Gerald Zaltman é um dos "famosos" de Harvard, reconhecido pelos trabalhos sobre representação do pensamento. Depois de "How Customers Think" (2003), Zaltman continua a tentar compreender os processos de escolha dos consumidores.


No livro, recomendado por Kotler, as "Deep Metaphors" são descritas como filtros que simplificam e estruturam. Estão associadas a emoções/necessidades básicas e aos valores de base. As metáforas têm aplicação universal, indiferentes à localização, origem e etnia dos consumidores. O autor considera que as diferenças entre os indivíduos são sobrevalorizadas e segmenta-se em excesso, quando há evidências de que somos surpreendemente semelhantes.


A utilização das "Deep Metaphors" permite colocar o consumidor no centro, facilitando a segmentação, design de produtos, ideias e ambientes, posicionamento e comunicação. É um "framework" para comunicar eficientemente, criar ligações emocionais e ultrapassar o "say-mean gap" - frequentemente o que os consumidores dizem não é o que pensam.


Zaltman afirma que os processos de tomada de decisão efectuam-se ao nível do inconsciente e destaca 7 "gigantes": Equilíbrio, Transformação, Viagem, Ligação/Pertença, Recipiente, Recurso e Controlo. Quase tudo envolve pelo menos dois destes "gigantes". Por exemplo, ao comprar estamos numa "viagem/aventura" e numa busca por "transformação".


O livro é importante para estrategas e obrigatório para profissionais de marketing. A leitura é fácil, com algumas repetições, mas surpreende pela simplicidade e insight. Uma forma eficiente de abordar o livro é ler os dois primeiros capítulos e o último. Depois aprofundar cada uma das metáforas nos capítulos de 3 a 9.


Zaltman fala da complementaridade de disciplinas, do exercício da curiosidade e do tempo a dedicar ao pensamento profundo - tarefas essenciais para qualquer gestor.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado no jornal de Negócios em 27 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Modelos da Suécia



Goste-se ou não a nacionalização de grande parte do sistema bancário ocidental é muito provável.
 
Boa parte dos grandes bancos nos Estados Unidos e Inglaterra (e Irlanda) já se transformaram em instituições híbridas de capital privado e público. Aos poucos as participações do Estado vão aumentando, no que o Financial Times considera serem “nacionalizações camufladas”. Esta situação traduz-se num conflito de interesses - o contribuinte tem objectivos diferentes dos accionistas privados. Há um enquadramento histórico que define o que fazer quando os bancos estão em crise e os governos estão determinados em não os deixar cair.

É o chamado “Modelo Sueco”, utilizado no início da década de 90.

De acordo com o modelo os bancos são totalmente nacionalizados e os depósitos são salvaguardados. Os accionistas perdem tudo e a gestão dos bancos é substituída - como tem que ser. Os bancos são forçados a reconhecer todas as perdas e posteriormente são recapitalizados pelo Estado. No caso que ocorreu na Suécia isso resultou na separação dos “maus activos” e a sua colocação num único banco, denominado de “bad bank”. Isso permitiu concentrar as actividades de banca tradicional, rentáveis, em instituições viáveis e que passaram mais rapidamente para o sector privado.

Até agora os governos preferiram intervir caso a caso, mas é possível que sintam a necessidade de um movimento de nacionalizações mais amplo. Não é uma solução sem custos. Mas é uma saída que está a ser equacionada para conseguir a estabilização do sector financeiro, sem a qual não será possível uma recuperação económica sustentável.

Filipe Garcia
Economista da IMF
Artigo publicado no jornal Meia Hora de 26 de Janeiro de 2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Pesadelo

A bolsa iniciou o ano de 2009 da pior forma: em baixa. Ontem, após a tomada de posse de Barack Obama, os principais índices de acções já acumulavam perdas na casa dos 10% desde o início de Janeiro. Em Nova Iorque, o índice S&P500 – aquele que é mais representativo do mercado de acções norte-americano – perdia 11%. No Japão, menos 9%. E na Alemanha uma queda de 12%. Em Portugal, curiosamente, a razia passou-nos ao lado, pelo menos até agora, e a desvalorização do PSI20 tem sido apenas residual. Contudo, as páginas dos principais diários permanecem repletas de notícias negativas, em particular no que diz respeito aos despedimentos que, um pouco por todo o mundo, Portugal incluído, estão a ser implementados pelas empresas. E na Islândia já há motins nas ruas. Ao mesmo tempo, a banca, o epicentro desta crise, permanece intoxicada com activos perdedores. A situação é de tal forma séria que certas correntes de opinião defendem a criação de um banco público cujo objectivo seja, exclusivamente, a absorção dos chamados activos tóxicos. Algumas estimativas apontam para que a dimensão desse conjunto de activos mal parados, inicialmente na esfera dos créditos hipotecários mas que entretanto se alastraram a outro tipo de créditos, e que ainda não foram amortizados seja superior a 1 trilião de dólares – cerca de 7,5% de todo o PIB norte-americano. Acrescentemos a este valor um outro tanto, que foi amortizado durante o ano passado, e temos que mais de 15% da economia norte-americana está mal parada. E em Portugal, será que mergulharemos deste modo? Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 23/01/2009

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Crises -What its psychological and social impact?

Is there some relevant impact of psychological behaviour on the actual crises?

Thus, what are the main psychological and social mechanisms in it?

The reality and the crises dimension could never been known and this uncertainty should be the principal as a determinant, like the uncertainty principal. Don’t you agree?

Conseguirá Obama evitar a 2.ª Grande Depressão?

Os economistas acreditavam possuir as ferramentas e os conhecimentos necessários para evitar as crises económicas profundas. Na verdade, o paralelismo entre a situação actual da economia norte-americana e o período que precede a Grande Depressão é impressionante. O desemprego está a aumentar, a expectativa de deflação é real, os bancos não concedem empréstimos e as empresas e os consumidores não estão a gastar. Numa altura em que a Reserva Federal já baixou a taxa de referência para próximo de zero, constata-se que a política monetária falhou, tendo em conta que o crédito permanece escasso e a economia continua em queda. Para Paul Krugman, o mais recente Prémio Nobel da Economia, apenas o aumento maciço da despesa pública poderá evitar uma 2.ª Grande Depressão, seguindo o raciocínio de Keynes, o economista mentor do New Deal de Roosevelt. Nas actuais circunstâncias económicas, Barack Obama, que anteontem tomou posse como 44.º Presidente dos EUA, é visto como um Salvador, prometendo com o seu “Plano Americano de Recuperação e Reinvestimento” revitalizar o mercado e inverter o colapso da confiança. Uma falha neste plano poderá ter consequências devastadoras para os EUA. Esperemos assim que o Congresso não demore meses a aprovar o plano económico de estímulo, repetindo o erro de 1931. Lembremo-nos que a crise eclodiu em 1929 e apenas em 1933, com o novo Presidente Roosevelt foi implementado o New Deal. Até essa data, desapareceram mais de 4 000 bancos e o desemprego atingiu 25%. Susana Peixoto Docente do IDEP Artigo publicado no jornal Meia Hora a 22/01/2009