quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

PuraMente #2 - "Hot, Flat and Crowded"



Nome: Hot, Flat and Crowded
Autor: Thomas Friedman
Data: Novembro 2008
Frase: "The hour is late, The stakes couldn't be higher, the project couldn't be harder, the payoff couldn't be greater"
Keywords: Globalização; Code Green; Convergência de "hot, flat, crowded"; Liderança dos EUA
Apreciação: ****

Depois da obra "O Mundo é Plano"(05), livro mais lido dos últimos anos e que estudava a globalização de uma forma pragmática e muito real, o incontornável Thomas Friedman (colunista do The New York Times e vencedor de três prémios Pulitzer) volta com Hot, Flat and Crowded. Entre os que esperaram o seu pré lançamento, havia algum receio que a obra fosse "mais do mesmo", para tirar proveito financeiro do auge da sua obra anterior, que entretanto entrou em fase madura na maioria dos países evoluídos (ainda se encontra nos tops em alguns outros). Felizmente, tal suposição não se confirmou. A obra tem vida própria.
O contexto do livro é o do problema global que o mundo tem enquanto à sua sustentabilidade, face ao seu aquecimento progressivo, imparável degradação ambiental e crescimento demográfico. A obra destaca-se por oferecer soluções, e por considerar que este problema é uma oportunidade para a os Estados Unidos conduzirem a necessária revolução e assim encontrarem uma forma natural de liderança mundial, em substituição do poder das armas que voltou a falhar no Iraque.
O autor defende um "Code Green", em que os Estados Unidos sejam lideres em sistemas de eficiência energética e energia "limpa" e uma inspiração de ética de conservação e sustentabilidade do mundo enquanto lugar habitável e civilizado, advogando que "se queremos as coisas como estão, muitas coisas terão de mudar".
O livro, que critica a atitude "dumb as we wanna be" e a apatia geral dos americanos tem o seu centro de gravidade no desenvolvimento de uma politica que combata os problemas que surgem da convergência de três factores : "hot, flat and crowded", sendo uma obra de importante leitura, apesar do seu exagerado americanismo.

Pedro Barbosa
Docente do IPAM

Citi(un)group - A Justiça?



O desmantelamento do Citigroup é uma fonte de temas para análise. Em 1998 o Citicorp e o Travelers Group fundiram-se, criando o maior grupo financeiro mundial e seguindo o modelo de banca universal. O "Citi" pretendia de servir todos. Empresas, bancos, governos e particulares. Agora tenta salvar-se da falência, separando as áreas de negócio.

Uma primeira questão é a subsistência do modelo. O futuro da banca (e não só) passa por abandonar os conglomerados e focar na especialização? Os bancos não estarão em dificuldades por determinadas áreas contaminarem negócios mais seguros? Os gestores terão subestimado a ocorrência dos "cisnes negros" - acontecimentos improváveis, mas com consequências terríveis? As estratégias de conglomerado aumentam a probabilidade desses eventos, mais do que compensando as vantagens?

Provavelmente o caso Citigroup tem a ver com a cultura da empresa. Relembremos alguns casos. Recentemente o banco foi condenado em $14 milhões por literalmente roubar os clientes. Provou-se que de 1992 a 2003 uma rotina informática retirava dinheiro intencionalmente das contas de clientes mais pobres ou recentemente falecidos. O esquema foi denunciado internamente, mas os gestores de topo decidiram nada alterar. Em 2004 o "Citi" manipulou o mercado de obrigações e em 2007 estava envolvido num escândalo com dinheiros públicos noruegueses, isto entre uma série de multas milionárias impostas pelos reguladores.

Há apenas que lamentar pelos efeitos na economia mundial, porque relativamente aos gestores do "Citi" parece estar a ser feita "justiça"!


Filipe Garcia
Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 21 de Janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Alguém lhes explica?

Desde há alguns anos que publicitários e consumidores assistem com interesse e curiosidade à batalha pelo mercado das cervejas, disputada taco a taco pela Super Bock (Unicer) e pela Sagres (Centralcer). No princípio, existia uma colagem fortíssima da Super Bock ao Norte e à cidade do Porto em particular, e da Sagres a Lisboa ou ao Sul.
Cedo perceberam os marketeers das duas empresas que o pipeline de crescimento estava no mercado dominado pelo seu concorrente, tendo criado estratégias com a finalidade de globalizar a marca, retirando-lhe componentes locais ou mesmo filosoficamente tribais. Chegaram a estar em investimentos puramente cruzados, com o Super Bock Super Rock a realizar-se só em Lisboa e a Sagres a canalizar os investimentos mais importantes para o Porto e para a sua Queima das Fitas. A fase seguinte e mais recente é de maior racionalidade. As marcas investem os seus budgets de publicidade em formatos nacionais com estratégias maduras, que vão sendo complementadas com side-stuff, como o lançamento de novos sub produtos debaixo do umbrella, patriocínio de eventos experenciais e outros veículos complementares.
É neste cenário que recebi com estranheza duas noticias que a Centralcer cedeu ao mercado no mesmo dia. Por um lado, a decisão de patrocinar a camisola do Benfica, não fazendo o mesmo nos outros dois grandes do futebol português, correndo riscos de ser um novo Parmalat. Por outro, a vontade expressa publicamente de acabar com a maior proximidade que a Super Bock consegue ter no público regionalmente mais a Norte. Alguém lhes explica o significado da palavra coerência?

Preços em crise

Os preços de uma forma geral estão na ordem do dia em todos os órgãos de comunicação, se uns meses atrás era porque a inflacção estava a subir para níveis menos desejáveis, e em que toda a informação divulgada apenas criava o ambiente perfeito para oportunisticamente subir preços, agora temos um pouco o inverso com vários especialistas a falar sobre os riscos de deflacção mas criando expectativas claras nos compradores de que os preços deveriam descer ou crescer marginalmente. Na realidade estas pressões influenciam comportamentos, mas o mais importante é como as empresas utilizam esta ferramenta. Momentos extremos muitas das vezes levam a medidas extremas e por vezes pouco reflectidas. Acima de tudo o preço deve reflectir uma direcção estratégia por parte da empresa, mas não deve ser negligenciado como arma táctica. Esta importãncia é superior no caso da relação “business to business” onde diferentes posturas em preço podem de facto fazer a diferença neste momento de capacidade excedentária. Veja-se por exemplo as últimas notícias relativas ao mercado do alumínio onde as grandes empresas estão a anunciar elevados ajustes de capacidade com encerramento de unidades de transformação e consequente ajuste de preços no sentido de recuperar a rentabilidade no sector. Não estou com isto a dizer que devemos começar a subir preços de uma forma generalizada, mas que em momentos extremos os preço deve ser usado como ferramenta, sendo o mais importante a utilização concientemente e não seguindo percepções generalizadas do mercado.
Publicado no Jornal Meia-Hora a 19/01/2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

Thomas Jefferson

«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»
Thomas Jefferson, 1802

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O meu tractor é melhor que o teu

Todos nós já recebemos emails com notícias fantásticas, ou com alertas estapafúrdios…. os hoaxes como se costuma denominar na linguagem “internetiana”. Ontem recebi um desses emails e porque vinha de uma fonte credível, decidi investir uns 5 segundos a perceber do que se tratava. Valeu bem a pena. Num cenário de alguma retracção económica, o sector das TIC faz também contas a vida, mas pelo que vi, conseguiu reinventar-se mais uma vez - qual SaaS (Software as a Service), qual ASP.... o que está a dar são tractores. Pois, isso mesmo. Tractores, e dos bons. Aparentemente, a Câmara Municipal de Sines decidiu adquirir (por ajuste directo, claro), a uma empresa de tecnologias de informação, um belo de um tractor pela módica quantia de 640 mil euros. Não acreditam? Pois, eu também não quero. Vejam pelos próprios olhos (cliquem na imagem para aumentar):

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Um Estado Amargo

As recentes intervenções estatais na economia encobrem sinais preocupantes e perigosos.
Preocupantes, sobretudo, pelo exemplo. Com a substituição da mão invisível pelo pai protector, reina uma ideia de facilidade na abordagem aos sérios apertos que enfrentamos. Há um banco que se afunda? Nacionaliza-se diluindo as perdas. Um sector em crise? Alargam-se os milhões de apoio. Empresas pouco competitivas? Facilita-se o crédito. Ainda que algumas destas medidas sejam imperativas, impõe-se acompanhamento por outra visão – aquela de fundo, estrutural, dirigida ao âmago do problema e não aos seus sintomas.
Perigosas, na medida em que as opções tomadas, salvo raras excepções, escolhendo caminhos frágeis e de prazo curto, não resolvem “a equação”. Os nossos grandes constrangimentos – sendo que o aumento da competitividade do tecido económico constitui a questão de longo prazo mais fundamental e mais urgente a que Portugal deve responder – estão, uma vez mais, adiados. E assim o futuro hipotecado, num momento oportuno para apostar no essencial. Mas “o essencial é invisível aos olhos”...
Perplexo, vejo a resignação da maioria das empresas: pacificamente aceitam a expansão do Estado; indiferentes absorvem a dependência dos (parcos) apoios que lhes são concedidos. Exige-se mais determinação; ambição maior, prenha de visão estratégica que esclareça o rumo, impondo outras respostas – muito para além do betão público. Estaremos a ficar embriagados pelo crédito barato, pelas soluções imediatas, enfim, pela cosmética?
Como vamos pagar este manjar de facilidades?

PuraMente #1 - "O Mundo é Plano"

Nome: O Mundo é Plano


Autor: Thomas Friedman

Data (Original): Abril de 2005

Frase:"Todos têm a oportunidade de entrar no jogo"

Keywords: Concorrência Global; Foco nas Aptidões; Mudança e Oportunidade; Outsourcing; Insourcing; Supply-Chaining; Globalização

Apreciação: ****


"O Mundo é Plano" não se pode considerar uma novidade. Já foi lido por muitos milhões de pessoas e mesmo em Portugal goza de alguma popularidade. Se o livro já foi importante para ajudar a perceber o alcance da globalização numa conjuntura de crescimento económico, volta a ser obrigatório ler ou reler para entender hoje o espectro e velocidade da crise financeira e económica instalada.


Destinado a todos sem excepção, mas sobretudo aos que de uma forma imparcial tentam entender o mundo, o livro fala de uma série de eventos que resultaram numa transformação histórica. Actualmente existem menos obstáculos a todos os níveis, sendo que a distância e as fronteiras perderam muita da sua relevância. Dessa transformação resulta um conjunto de oportunidades. Ou seja, a globalização não é geradora de pobreza e injustiça, mas antes nivela o mundo. Promove maior igualdade de oportunidades, sendo possível concorrer no mercado aberto focando nas aptidões próprias.


Este best seller de Friedman tem mais de 500 páginas, mas o leitor fica mais do que esclarecido lendo apenas a primeira parte - "Como o mundo se tornou plano" (190 pág.). Mesmo assim sujeita-se a algumas repetições, mas que não são demasiado maçadoras por se tratarem de exemplos interessantes. O autor enumera dez eventos que mudaram o mundo, sendo os mais importantes a queda do muro de Berlim e o progresso tecnológico em sistemas de informação. Friedman apoia a sua argumentação na observação empírica e na ideias de David Ricardo - a especialização e a troca contribuem para o bem comum.


Vale a pena conhecer ou voltar a este livro para compreender porque a crise actual é global, propagando-se em dias a todo o mundo e reconhecer que a teoria do "decoupling" dos países emergentes era irrealista.


Filipe Garcia

Economista da IMF

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 13 de Janeiro de 2009


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

The Lisbon MBA : Proteccionismo

O Governo português não olha a meios para ter projectos bandeira, o que demonstra iniciativa e merece os nossos elogios. Já não é tão sábio na forma como lhes dá corpo, sem se preocupar se está induzir no mercado falsos valores. Ora falsas expectativas, ora erradas intervenções que causam investimentos deslocados e concorrência desleal.
O caso mais recente parece ser o "The Lisbon MBA", um projecto onde o Governo conseguiu investir 3,5 milhões de euros e "pedir" o mecenato de instituições como a CGD, a EDP e a REN, empresas onde como se sabe o estado tem pouca intervenção… Os mecenas privados apoiam este MBA com 1.4 milhões por ano, a somar ao brutal investimento de arranque de todos os portugueses. Não se conhece do Estado Português entusiasmo semelhante na fusão das escolas do Norte num único MBA : a EGP-UPBS, que parte do melhor MBA Executivo do país (o da escola presidida por Daniel Bessa).
Um bom MBA custa em Portugal 15.000 a 20.000€ e em Harvard, 70.000, pelo que os 30.000€ do Lisbon MBA não parecem necessitar de caridade – e o MIT é uma parceria portanto não sujeita a royalties de endorsement. Neste contexto, alguém compreende os montantes de investimento destes mecenas e para que serão destinados?
Será sequer necessário financiar MBA´s de topo, quando as principais escolas têm necessidade de seleccionar rigorosamente os melhores candidatos, num dos raros nichos em que a oferta supera a procura? Deveriam os Governos usar o dinheiro de todos os portugueses para baralhar a saudável concorrência do mercado, em nome de um projecto central que embandeire a legislatura?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Vícios da banca

Nos últimos dias, foi notícia a proibição que o Banco de Portugal (BdP) decretou sobre a cobrança de comissões bancárias não previstas no preçário dos bancos junto dos seus clientes. Na minha opinião, trata-se de uma iniciativa extraordinária da entidade reguladora porque confirma uma realidade há muito debatida: que muitos bancos se fazem pagar às escondidas, provavelmente, em violação contratual das suas responsabilidades fiduciárias. Entretanto, a Associação Portuguesa de Bancos (APB), na voz do seu presidente João Salgueiro, já reagiu. De acordo com citações publicadas na imprensa especializada, a APB afirma que não são de esperar alterações significativas e que tudo se deve à ignorância financeira da generalidade dos portugueses. Ou seja, afinal, os vilões são os clientes! A verdade, porém, é que os abusos sobre os clientes acumulam-se ano após ano e não se registam apenas no domínio daquelas pequenas comissões que ninguém nota, mas cuja cobrança, multiplicada por milhares de clientes, resulta em receitas significativas para os bancos. Há outros vícios na banca. Por exemplo, as taxas de juro que em alguns casos são enganosamente publicitadas e noutros são mal arredondadas. Sempre em prejuízo do cliente. Ou então, os depósitos a prazo que nem sempre o são. E, também, os fundos de investimento com risco, mas que na sequência de anos de conjuntura positiva nos mercados são apresentados como veículos sem risco. Enfim, a ética deve preceder o lucro. A transparência em lugar do embuste. E a simplicidade em alternativa à sofisticação. (*) Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 9/01/2009.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Economistas Humanos


Oscar Wilde terá dito que "em Economia a verdade raramente é pura e nunca é simples". Há que desmistificar o carácter exacto da ciência económica. A Economia é uma ciência social, o que implica muita observação, hipóteses e poucas certezas.

Os economistas têm sido amplamente criticados por não terem previsto a actual crise (sobretudo o evento subprime e suas consequências). Mas há anos que muitos falavam no assunto e das consequências que uma bolha no imobiliário poderia ter. Só que quando um mercado está em alta o autismo prevalece. Os cautelosos são apelidados de "velhos do Restelo" e os mais sensatos acusados de tentar "destruir o mercado". Raghuram Rajan - um reputado economista - colocou bem o problema: "A maioria dos economistas é muito relutante em fazer parte do diálogo com o público. O público exige uma opinião demasiado concreta sobre coisas de eles próprios não estão totalmente certos". Há ainda um problema de reflexividade já que as opiniões que alguns economistas divulgam podem ter um efeito directo na realidade.

Ora se os melhores economistas preferem o refúgio do silêncio, então algo está muito mal! Grande parte da culpa está na forma como se exige aos economistas um rigor nas previsões e uma capacidade de acerto que não se exige a quase nenhuma profissão. Todos os "oráculos" falham: os meteorologistas, os políticos, os militares, os gestores, os treinadores de futebol e os de bancada. Falham e continuarão a falhar, porque não são mais do que pessoas. Será possível prestar mais atenção aos argumentos e menos às previsões?

Filipe Garcia
Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 8 de Janeiro de 2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sustentabilidade

Temos assistido a uma progressiva adesão, das mais conhecidas e maiores empresas portuguesas, à publicação de relatórios de sustentabilidade.
Trata-se apenas de uma moda ou esta prática estará subjacente a uma nova abordagem?
Quero crer que a elaboração destes relatórios seja um processo vivo e uma ferramenta,não começando ou terminando numa publicação impressa ou on-line. É algo que deve estar integrado num processo mais abrangente de definição da estratégia organizacional, deimplementação de planos de acção e de análise de resultados.
A preparação destes documentos permite uma avaliação consistente do desempenho,fixando indicadores que reflectem os impactos económicos, ambientais e sociais. Serve também de veículo de comunicação com as várias partes interessadas (stakeholders) e assegura a recolha de informações úteis para os processos organizacionais.
Os principais desafios da sustentabilidade implicam escolhas e formas de pensar quesejam novas e inovadoras. O desenvolvimento tecnológico conduz ao crescimento económico e contribui para minimizar riscos e mitigar ameaças, à manutenção das nossas relações sociais e do meio ambiente.
Os novos conhecimentos e inovações em gestão e políticas públicas representam um desafio às organizações que reequacionam estratégias. O impacto das operações, produtos, serviços e actividades no planeta terá inevitavelmente de ser alterado e medido.
Num imperativo de transparência reclama-se “satisfazer as necessidades do presente semcomprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades”.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Confuso ou Confundido?

O investimento em publicidade cresceu em 2008. O investimento em publicidade decresceu em 2008. A Televisão recebeu 70% das receitas em publicidade. A Televisão recebeu 48% das receitas em publicidade. Confuso ou confundido?
Já é tempo de conseguir um discurso coerente e consistente entre todos os que interagem neste sector. A desinformação lançada acaba por confundir anunciantes e mascarar a realidade. Um conjunto de especificidades sobretudo técnicas precisa de ser descodificado, sendo a mais relevante a diferença entre publicidade "a preço de tabela" e "em valor líquido". Como forma de não relevar as politicas de descontos e os negócios com cada player, o mercado opta por comunicar os negócios " a preços de tabela". O valor que isto tem para qualquer ilação, conclusão ou extrapolação nem é muito nem pouco. Não é nenhum. Vale zero.
Seria importante as empresas assumirem perdas quando elas existem, em vez de aumentarem tabelas e exponenciarem descontos, como se preparam para voltar a fazer em 2009.
Só assim se compreende que haja quem ainda pense no mais que improvável aumento de publicidade em 2009. Com a informação actual, parece claro que a televisão deverá ter um decréscimo pouco significativo (publicidade polarizada nas blue chips de telecomunicações e retalho), a Internet continuará a crescer e todo o restante mercado (em especial o de publicidade exterior e o de produção) deverá ter quebras de dois dígitos. Mas os dados oficiais de vendas "a preços de tabela" deverão crescer tranquilamente...
Artigo publicado no jornal Meia Hora a 6/1/2009

A caminho de Copenhaga

O papel de liderança no combate às Alterações Climáticas tem sido assegurado pela UE quase desde o início da Administração Bush na presidência dos EUA. Este papel tem tido destaque a nível internacional na implementação do Protocolo de Quioto, com reflexos directos a nível interno. As decisões do Conselho Europeu de Dezembro 2008, onde foi atingido um acordo de princípio sobre o pacote legislativo “Energia e Clima - 20 20 20 em 2020” são disso um exemplo. Este pacote de objectivos (redução de 20% das emissões de gases com efeito de estufa, aumento das energias renováveis para 20% do total energia produzida e redução do consumo de energia em 20%) será fundamental para garantir uma redução da dependência energética externa europeia e uma maior “descarbonização” da economia. No entanto em 2009 poderá ocorrer a passagem de testemunho ou a partilha deste papel de liderança, com o “efeito Obama” a atingir o combate às Alterações Climáticas. A UE e os EUA, agora com nova administração, reconhecem a urgência deste combate, encarando-o como uma oportunidade para desenvolvimento de novas tecnologias, materiais e práticas energeticamente eficientes, garantindo ainda a promoção do emprego nestas áreas (a UE prevê 1 milhão de empregos na indústria das energias renováveis em 2020). O ano 2009 será decisivo para uma nova agenda no combate às Alterações Climáticas. Dezembro reservar-nos-á a definição de um conjunto de compromissos mundiais que consagrarão o sucedâneo do Protocolo de Quioto. Será que no nosso léxico vai passar a existir a expressão “Protocolo de Copenhaga”? Faltam só 335 dias.
Artigo publicado no jornal Meia-Hora de 5 de Janeiro de 2009

Vale a pena voltar a ler...

O texto do Jorge Serra sobre a certificação energética dos edifícios.

Hoje está a falar-se deste assunto.

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008


Para que serve a certificação energética de edifícios?



sábado, 3 de janeiro de 2009

"O dia em que a SEC mudou o jogo"



Há quem diga que os reguladores têm as costas largas e que as críticas que lhes são actualmente apontadas pecam por exagero e não são mais do que a expiação dos pecados de quem realmente cometeu erros grosseiros. Ou seja, "sacudir a água do capote".

Começa a perceber-se que não é bem assim e que os reguladores são, de facto, responsáveis por parte importante do que sucedeu. É a velha questão entre o polícia e o ladrão. Se a polícia é ineficiente, o crime tende a aumentar. De quem é a culpa? Do polícia ou do ladrão?

"A água corre por onde lhe é mais fácil" e por isso há que ser crítico às ineficiências de polícias, reguladores, supervisores e equiparados, quando ainda por cima exercem o seu poder com meios e de forma quase ilimitada. E já é assim que os reguladores de mercado actuam.

O que já se sabe é que uma decisão no mínimo negligente por parte da SEC - The Securities and Exchange Comission - tomada em Março de 2004, abriu as portas aos exageros que com impacto negativo em todos os habitantes do globo, sem excepção. Com esta medida a SEC permitiu que os bancos de investimento se alavancassem muito para além do recomendável, num contexto de início de bull market.

Sabe-se lá quais os reais motivos da decisão. Pode ter sido o efeito de lobbying, de inépcia ou de  de groupthink (do tipo que levou ao "acidente" do vai-vem Challenger). Só que desta vez o desastre, igualmente terrível, é bem mais global.

Recomenda-se ver neste link a reportagem do NY Times.

http://www.nytimes.com/interactive/2008/09/28/business/20080928-SEC-multimedia/index.html


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Eu é que não sou parvo"



O comportamento dos consumidores durante esta época de Natal está a dar que pensar.

Os retalhistas disseram que a época de Natal começou muito mal, concretizando os maus indícios que Novembro já trazia. Porém, à medida que as promoções foram avançando - umas mais às claras, outras com remarcações de preços - as vendas subiram e muito. Pode argumentar-se que tal apenas se deveu ao aproximar do dia 25 de Dezembro, com os consumidores a esquecerem a "crise".

Todavia a espectacular afluência do público que se seguiu à primeira vaga de saldos, ou a imaginativas campanhas de vendas como a do El Corte Ingles, afasta a ideia que terá sido apenas a vontade de trocar presentes a responsável pela (quase) salvação da época de Natal no retalho.

Os mais "neoclássicos" ligariam desde logo a maior procura a preços mais baixos e não discordo. Mas permito-me a ter uma leitura um pouco mais arrojada do fenómeno. Os consumidores terão comprado mais porque estava mais barato, mas sobretudo porque já esperavam que tal fosse suceder. Havia mais rendimento disponível do que se o processo de compra tivesse sido contínuo. Outros comportamentos do consumidor - como o "reservar" peças antes de saldos, comprando-as  para as devolver e adquirir outras em simultâneo a seguir - mostram como já havia alguma premeditação na abordagem a estes saldos.

Suspeito que os consumidores já estarão cansados de comprar a 10 de Dezembro um artigo que custa 100€, no dia 20 70€, para depois de 28 de Dez. custar 50€ e sair em Fevereiro a 20€. É certo que talvez em Fevereiro já não haja a "tal" peça ou o "tal" tamanho, mas a enorme variedade de oferta disponível, os stocks elevados e as colecções intermédias fazem com que essa escassez não passe de uma ilusão.

É provável que estejamos a entrar numa fase em que o retalho terá de repensar as actuais estratégias de "skimming" porque os consumidores parece que estão a ficar menos parvos.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Os Custos



Já é bastante clara a opção dos principais líderes mundiais na forma de lidar com a crise - Despesa Pública.

Pode perguntar-se se esta opção de cariz keynesiano não será uma escolha fácil e uma "fuga para a frente" ao simplesmente atirar dinheiro ao problema. Não pretenderão os governantes apenas ter mais poder? Não será uma solução com alcance limitado em cada país? Num mundo globalizado podem ser outros a beneficiar do dinheiro gasto, caso os projectos sejam mal escolhidos.

Reconheça-se que a política monetária dificilmente funcionará a partir de agora. A forma como os bancos centrais estão a baixar os juros e a injectar dinheiro poderá levar directamente de um eufórico e especulativo "Momento de Minsky" para uma enfadonha e recessiva "Armadilha de Liquidez", tal como aconteceu no Japão. Por isso entende-se a opção dos governos, já que não há muitas alternativas disponíveis.

Não se pode garantir o sucesso dos milhões que estão a ser atirados à economia, mas há custos que já se podem estimar. É de esperar que o custo da dívida pública aumente significativamente, que assistamos a um processo de subida prolongada e sustentada dos impostos e ao aumento da idade da reforma. Os governos passarão a ter mais influência na economia - o que trará sempre ineficiência - mas paradoxalmente terão menor margem de manobra em questões mais disruptivas, dadas as restrições orçamentais futuras. A regulação deverá apertar, o que terá um impacto difícil de prever.

Com tais custos a suportar, esperemos que o prémio Nobel da Economia esteja errado. Krugman prevê uma recessão de vários anos!

(vale a pena ver os links)

Filipe Garcia
Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 19 de Dezembro de 2008

Banca em 2009

Temos vindo a assistir nos últimos tempos a uma incursão sustentada sobre a banca, nomeadamente nas críticas de falta de apoio conveniente às pequenas e médias empresas. O momento é adverso para este sector, mas o atirar de culpas para a banca não é de agora, como toda a gente sabe. Também não pretendo fazer aqui juízos de valor sobre os vários intervenientes no sector bancário, sem contudo deixar de referir que é patente a ignorância sobre o que se está realmente a passar, num vasto leque de comentadores políticos. A verdade é que a banca está e estará sempre a apoiar as empresas e os particulares, pois se tal não acontecer deixa de ter razão de existir. Mas é evidente que os bancos não estão imunes às regras do mercado, onde a falta de liquidez e confiança induz cuidados redobrados na concessão de crédito. E a questão é que este critério selectivo na concessão de novo crédito vai continuar ao longo de 2009, com ou sem aval do Estado. Isso será insofismável, sob pena de a própria banca portuguesa não resistir, e aí sim seria um problema ainda maior para as empresas. Vamos por isso assistir por parte deste sector, e ao longo de 2009, a uma estratégia de gerir melhor o que existe in the box. Em primeiro lugar manter como prioritária a correcta gestão dos recursos (leia-se poupanças), fundamental para que na sua maturidade os resgates sejam mínimos, evitando saídas silenciosas. Em segundo lugar, à crescente sofisticação dos clientes a banca responderá com mais certificação de processos e pessoas, garantindo maior profissionalismo e transparência, e reforçando a proximidade junto dos clientes. Em terceiro lugar haverá um crescimento selectivo no segmento das empresas, com cuidados redobrados na atribuição de crédito novo e no acompanhamento das operações em curso. Esta estratégia clara de diminuir a alavancagem existente no crédito, obrigará a encontrar alternativas para manter o nível adequado de receita. Isso será alcançado através da maior produtividade dos agentes comerciais, encontrando alternativas à dependência do crédito, nomeadamente através do reforço do cross-selling e colocação de novos produtos. Por último o repricing terá que continuar, uma vez que as condições do mercado internacional assim obrigam, e também porque a degradação da situação económica e financeira das empresas provocará um dowm-grade no seu rating. Este efeito do aumento dos spreads será contudo atenuado pelo efeito de descida das taxas Euribor. Assim teremos um 2009 mais difícil para as empresas e particulares, e teremos a confirmação de que a banca não é um sector de beneficência, mas sim um sector que apoia empresas e projectos que tenham viabilidade económica e financeira, capazes de criarem valor, mas também de reembolsar correctamente as responsabilidades creditícias.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Momento Negro

A crise financeira deste Vero foi o suporte de muitos medos no retalho em Portugal, mas a verdade é que, quer por influências fiscais, quer pelas características lagging do consumo, o cenário não se confirmou, e existiu mesmo um aumento de vendas no retalho. Os primeiros sinais de alerta chegaram em Agosto, com comportamentos atípicos nos saldos, no turismo e no bazar pesado dos hipermercados.
Setembro e Outubro acabaram por surpreender, porque persistiu um ambiente de resistência à quebra de vendas no retalho especializado, embora com inversão de tendências em sectores como a cultura e o lazer e o adensar de problemas no automóvel e decoração/lar.
Novembro foi um duro golpe para os retalhistas, resistindo apenas a alimentação e alguns sectores não maduros. A quebra foi geral, com particular enfoque nas áreas de moda, desporto, cultura e electrónica.
Acredita-se que Dezembro será outro mês muito mau, o culminar da crise no retalho. Advogo o inverso. Dezembro será um mês de consumo equilibrado com os valores homólogos, resultado de uma primeira quinzena em quebra acentuada e uma segunda bem suportada, face ao provável avanço de promoções dos operadores ainda antes do Natal e entrada de saldos a 28. Assim, prevejo um Dezembro com vendas equilibradas (ainda assim abaixo do ano passado), contrariadas por resultados em preocupante quebra.
Problemáticos serão realmente a segunda quinzena de Janeiro e o mês de Fevereiro, em que não há quebras de margem adicionais para suportar novos aumentos de venda, e em que os limites de crédito serão menos extensos do que em anos anteriores.
Será esse o momento negro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A bolsa em 2009



Nesta altura do ano é muito comum fazer alguns comentários sobre como será o novo ano.

É sempre difícil falar sobre o comportamento futuro dos mercados. Os economistas costumam dizer sempre isso, mas penso que este ano temos justificação para estar mais defensivos.

De qualquer forma esta é a minha opinião...

(ver em http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=345688# )

Interactividade na era digital: Fronteiras e Desafios

Começo este artigo por uma citação importante para ilustrar as ideias que defenderei. Segundo Walter Longo, do Grupo Newcomm e vice-presidente da Y&R "estamos a viver um tesarac, termo usado pelo escritor S. Silverstein para descrever uma viragem na história, um momento em que os paradigmas – sociais, culturais e económicos – são substituídos" - o marketing do futuro irá basear-se num triângulo "Publicidade, Entretenimento e Interactividade". Vivemos de facto uma nova era, em que as marcas comunicam interactivamente e proporcionam novas experiências aos consumidores. Cada consumidor representa um nicho e a forma como cada um deles interpreta e reage à marca, é relevante. Neste pressuposto, as marcas criam as campanhas suportadas por meios digitais que lhe permitam "falar" directamente com o cliente. A internet assume o papel maior neste plano, ao assistirmos aos sucessivos microsites, advergames e publicidade rich media online em redes sociais, motores de busca e sites líderes nas suas áreas. Fora do ambiente internauta, assistimos também a um upgrade dos suportes tradicionais, com mupis que cantam, promotoras virtuais em eventos e até no ponto de venda, o modelo de comunicação e merchandising faz um shift para montras interactivas e quiosques multimédia que disponibilizam informação sobre os produtos à venda. Assim, os novos desafios que se apresentam aos marketeers são claros: onde disponibilizar essa interactividade de forma a que esteja mais perto do consumidor? E como fazê-lo da forma mais impactante? António Galvão Lucas Empresário (Grupo Dot One)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Direito à Indignação

Lentamente, fui saindo da zona de conforto onde tendemos a nos recatar quando percebemos que uma vaga de pensamentos falantes opina e pressiona num determinado sentido, numa única direcção, num uníssono que de tão estranho merece desconfiança. Crescemos a ouvir falar de mercado livre e concorrencial, como argumentos de evolução (entretanto se transformou em evolução sustentável) num ambiente democrático, e não obstante satisfazemo-nos com muito pouco.
Demasiado pouco, devo acrescentar. O país em que a maior oportunidade real de crescimento no longo prazo se sustenta no turismo é o mesmo país que despediu a ASAE por excesso de competência. Uma nação que prefere abdicar do controlo alimentar com comprovados resultados só para não ter de aturar os excessos de alguém, que prefere um controlo brando e ineficaz a um eficiente - e que produz, para além de maior segurança para todos, um novo nível de standard de qualidade para o mercado - não parece ser uma nação com vontade de evoluir. A falácia poderá estar não na falta de racional de cada um de nós, mas na mediatização extrema das patetadas de meias dúzia de incomodados e de um líder partidário à procura do protagonismo dos tempos de jornalista. E assim, voltamos a perder muito do que já tinha sido feito.
Voltaram as refeições congeladas aos frigoríficos de muitos restaurantes, os DVD´s piratas às bancas das feiras, as publicidades de hipermercado com descontos de 50% que na realidade são de 33%, os anúncios de “10 meses sem juros “ com TAEG de 9,8%, os cruzamentos microbiológicos na preparação alimentar e o relaxe total na falta de licença de milhares de cafés e restaurantes de portas abertas. Voltaram as fotocópias ilegais, a contrafacção livre em feiras policiadas com o dinheiro dos contribuintes, o mercado paralelo, negro ou pirata que é capaz de capar o investimento, emprego e evolução.
Para os incomodados voltou a paz, para o Governo voltou a tranquilidade, para o imenso silêncio dos prejudicados quedou-se a ignorância, a inconsciência ou a preguiça. Tenho todo o direito à indignação!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A fórmula para vencer em 2009

Em face da crise em que estamos mergulhados, as empresas tendem a reduzir a sua estrutura de custos e a mostrarem muita cautela nos seus investimentos. Não é, de facto, um cenário muito animador para um gestor, quando tem que planear o futuro e estabelecer a estratégia da sua empresa para os próximos tempos. Que caminho seguir? Em tempos de vacas magras, devem as empresas investir no crescimento do seu mercado? Será uma boa estratégia a aposta no crescimento do negócio em 2009?
Creio que a resposta a este clima de incerteza está no empreendorismo. Este factor de transformação e inovação, associado aos indivíduos que conseguem transformar sonhos em resultados, é essencial nestes dias de incerteza sobre o futuro. Sem dúvida que o empreendorismo contribui para a criação de novos negócios e para a dinamização da economia, que tão necessária é na actual conjuntura económica.
As actividades do empreendedor estão relacionadas com criação de riquezas, através da transformação do conhecimento ou através da criação do próprio conhecimento ou na inovação em áreas importantes do negócio. Não é, todavia, uma questão de acumular conhecimento, mas a introdução de valores e atitudes para se lidar com o risco, a capacidade de inovar, perseverar e conviver com incertezas.
A criatividade empreendedora envolve novidade, surpresa, originalidade, talento pessoal e visão de vida. Quem desenvolve e cultiva a criatividade empreendedora está à procura do sucesso. Os problemas estão diante de nossos olhos, mas as soluções também. Este deve ser mote dos empresários em 2009 para, em conjunto, conseguirmos ultrapassar a crise.
António Godinho
Artigo publicado no jornal Meia Hora de 9 de Dezembro de 2008

Opiniões em "contramão"



Fazer previsões audaciosas e contra a corrente é uma boa forma de tentar a sorte.
 
Consegue-se imediatamente alguma publicidade no momento da previsão pelo efeito de "choque". E mais tarde, se a sorte sorrir e ela se concretizar, foi "ele", o "tal indivíduo" que acertou. Se alguém surgir a prever um grande terramoto daqui a dois meses e se acertar, será um entendido, um fora de série. Se errar ninguém se lembra.

Estamos habituados a tácticas destas há décadas, quando o país parava para ouvir as previsões do ano que vem dos astrólogos e videntes do costume. Mas o fenómeno não conhece nem fronteiras nem assuntos.

Desconfio muito deste tipo de previsões. Mas confesso, cairei em tentação. Mesmo que do outro lado da barricada esteja o prémio Nobel da economia, todos os banqueiros centrais e milhares de analistas. 

Há que reconhecer que as economias ainda não bateram no fundo e que a situação vai piorar. Mas estou com "pouca vontade" de alinhar no cenário quase consensual de uma crise muito prolongada, até 2010, 2011, 2012... Não
que esse cenário não se possa materializar, mas esta crise tem contornos muito diferentes das anteriores, nomeadamente na velocidade a que os factos se vão desenrolando.

As bitolas que usamos normalmente para definir períodos de recessão e de recuperação podem não servir agora. A rapidez com que a economia caiu poderá ser a mesma da inversão, dadas as medidas "limite" que estão a ser tomadas e a vontade que existe de sair do "pesadelo".

É perfeitamente plausível que a recuperação económica seja bem mais rápida do que o "consensus" prevê.


Filipe Garcia

Artigo publicado no jornal Meia Hora de 12 de Dezembro de 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mercado do Pescado: da ficção à realidade

De vez em quando, surgem notícias ou artigos sobre o mercado do pescado, apelando para a contradição, alegadamente injusta para os pescadores, entre os baixos preços do pescado na lota e os altos preços praticados no retalho, apontando sempre o dedo acusador à Distribuição e suas insígnias. Errado. Só quem não quiser é que não vê o papel decisivo do retalho moderno na contenção da subida dos preços do pescado, só possível pela redução das margens e da optimização da cadeia de valor.
O circuito de comercialização de pescado típico envolve dois operadores: comerciante de pescado da primeira venda e o próprio retalhista alimentar. O circuito mais curto acontece, na moderna distribuição, quando o próprio retalhista realiza directamente as compras em lota, sem intermediários.
Neste caso, a margem bruta média dos fornecedores do retalho moderno (7% a 10%) é muito inferior à dos fornecedores do retalho tradicional (20% a 30%) por força quer do menor risco associado a uma relação comercial mais estável num horizonte temporal mais alargado, quer pelas quantidades comercializadas.
Por outro lado, as margens médias brutas são também bastante mais elevadas no retalho tradicional, onde atingem valores entre os 250% e 350%, do que no retalho moderno em que se situam entre os 70% e os 115%. Prova-se assim que o peso crescente do retalho moderno na distribuição de pescado fresco e refrigerado, pela superior capacidade negocial e elevado volume de compras, tem vindo a assegurar uma contenção da subida dos preços na primeira venda e consequentemente ao consumidor final. A realidade ultrapassa sempre a ficção, não é verdade?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A "desgraça" por anunciar - ACTUALIZAÇÃO 3



Mais uma actualização relativamente à economia chinesa.

Hoje foram anunciados mais dois números que dão que pensar.

Por um lado temos a inflação a descer vertiginosamente, sobretudo os preços das vendas a retalho.

Mais grave ainda para a economia mundial, as importações chinesas recuaram 17% em Novembro... Agora talvez já tudo está (ainda) mais claro...





"BEIJING, Dec 10 – China’s wholesale price inflation collapsed in November, undershooting expectations by a wide margin and raising the risk that the once-sizzling economy could find itself mired in deflation before long.
Producer price inflation fell to 2.0 percent in the year to November, well down from October’s reading of 6.6 percent, the National Bureau of Statistics said on Wednesday.
(..)
Consumer inflation figures for November, due on Thursday, are likely to underscore the dramatic retreat in price pressures as energy and commodity costs slide and domestic demand weakens in tandem with the global economic downturn."




Este era o texto de 31 de Outubro:

Já toda a gente está a contar com um cenário no mínimo "cinzento" para os próximos tempos. Talvez grande parte das más notícias já se encontre descontada pelos mercados e por cada um de nós.
Mas parece ainda faltar um anúncio, uma má notícia por dar.

A China tem crescido a taxas perto de 10% nos últimos anos. Alguns analistas têm avisado que a economia chinesa já está a desacelerar, a ponto de este ano crescer "apenas" 7%. Infelizmente parece ser uma previsão optimista. A China pode já ter mesmo "parado" e a situação ser bem pior do que se diz. Alguns economistas "no terreno" têm dado conta do encerramento de muitas empresas, diminuição brusca do
consumo privado, mercado imobiliário em queda de 20% a 40%, excesso de stocks de matérias primas e queda de 30% no consumo de carvão nas centrais térmicas de produção de energia. Se a isto juntarmos a recente actuação do banco central e o excesso de navios nos portos, vazios e sem carga para transportar, temos razões para pensar que falta anunciar esta "desgraça" - o grande motor da economia mundial dos últimos anos já parou!

A crise só poderá "bater no fundo" quando todas as más notícias forem divulgadas. Até lá há que ter muita paciência e sangue frio. As empresas devem estar atentas à deterioração do seu ambiente operacional e que consequências isso terá na sua situação financeira. O nível de endividamento actual poderá ser adequado hoje, mas o mesmo pode não acontecer daqui a alguns meses. E nessa altura não é certo que a banca possa ter a liquidez necessária para emprestar a todos os que dela necessitam.

Filipe Garcia

Economista da IMF

Artigo publicado no jornal Meia Hora em 31 de Outubro de 2008 (pág. 9)


Estratégia do erro?

Nos dias de hoje, parece haver quem ainda entenda que falta de concorrência gera o melhor resultado. De tão obviamente errado, parece estúpido. Mas é assim que ainda parecem pensar empresários e políticos do nosso país, felizmente em crescente minoria.
José Sócrates afirmou ontem que "Enquanto isto continuar assim, Governo a governar e oposição a dizer mal - perfeito". É triste que assim pense e - pior - que incite os portugueses a pensar menor, a ter raciocínios de gestão medíocre, a seguir modelos com caducidade ultrapassada e que geram o pior dos resultados. Pode-se dizer agora que foi ironia, como se disse um dia destes da sua arqui-rival de bancada. Bullshit!
Precisamos de exemplos que incitem a uma sã concorrência a todos os níveis, no mercado como na politica, na vida pessoal como profissional. Uma sombra de alternativas ao que fazemos cada dia para que aquilo que façamos tenha de ser melhorado e evoluído em cada momento, com a consciência tranquila de quem tem a inquietude de nunca deixar de procurar a evolução.
Quanto a Sócrates, será de crer que está a fazer um erro estratégico, ou a estratégia do erro?

Instantâneos da crise - 10-Dez-08



Os títulos do Tesouro americano estão agora com yield to maturity negativo!

Isto significa que os compradores destas obrigações preferem perder dinheiro, emprestando ao estado a uma taxa abaixo de 0% do que a colocar o dinheiro num banco ou noutro activo.

É um sintoma muito claro do risco de contraparte que se vive no mercado e um dos primeiros sinais do que o final do ano poderá trazer.

As instituições, financeiras e não financeiras, terão que reunir liquidez e compor balanços para passar 31 de Dezembro. Num contexto de confiança baixa e maus indicadores macro, este tipo de movimentos pode ter consequências nefastas e imprevisíveis.

Mais detalhes neste artigo da Bloomberg.


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

PIB 3ro tri 2008 contrai 0,1 pct

LISBOA, 9 Dez (Reuters) - Esta é uma série de reacções imediatas ao Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal teve uma contracção de 0,1 pct no terceiro trimestre de 2008 face ao segundo trimestre deste ano, período em que cresceu 0,3 pct em cadeia, anunciou o Instituto Nacional de Estatística (INE).

O PIB de Portugal, no terceiro trimestre de 2008, cresceu 0,6 pct em termos homólogos contra os 0,7 pct a que se expandiu no segundo trimestre do corrente ano, refere o INE numa segunda leitura do PIB para entre Julho e Setembro de 2008.

Em 14 de Novembro, o INE divulgou uma Estimativa Rápida que apontava que, no terceiro trimestre de 2008, o PIB portugues tivesse tido uma variação nula em cadeia e tivesse um crescimento homólogo de 0,7 pct.


TERESA GIL PINHEIRO, ECONOMISTA BPI:

"Não eram as expectativas que tinhamos. Assim, parece mais difícil que se escape a um período de recessão técnica, é a minha opinião, sobretudo porque se espera que o quarto trimestre de 2008 seja mais fraco. Há maior probabilidade que se possa verificar um período de recessão técnica, em princípio no quarto trimestre de 2008 pelo lado da procura externa, dependerá da Balança Externa. O que me está a espantar também é o consumo privado estar ainda tão forte e é possível que abrande também".


JOÃO MIGUEL LOURENÇO, HEAD OF RESEARCH DO CAIXA BI:

"Os números da economia portuguesa no terceiro trimestre são números que não surpreendem no contexto macroeconómico negativo internacional".


RUI CONSTANTINO, ECONOMISTA SANTANDER:

"Já esperavamos uma queda de 0,1 pct em cadeia há algum tempo e estes dados acabam por validar que houve uma pequena contracção no terceiro trimestre. É já visível uma desaceleração das exportações e também das importaçoes, esta última pelo efeito TAP. O crescimento continua a ser explicado pela procura interna". "Para 2009, estimavamos um crescimento de 0,2 pct, mas tendo em conta o actual cenário acredito que vamos ter que alterar estas previsões".


FILIPE GARCIA, IMF-INFORMAÇÃO DE MERCADOS FINANCEIROS:

"Os números do crescimento em Portugal estão em linha com o resto dos países europeus e mostram que a economia 'travou a fundo' no terceiro trimestre, provavelmente a partir de Setembro. O outlook actual é negativo para Portugal em termos de crescimento".

"Relativamente à revisão em baixa, contrair 0,1 pct, ter um crescimento nulo ou crescer 0,1 pct é praticamente indiferente, é um aspecto com impacto mais psicológico do que real".

"Notar que o PIB dos nossos principais clientes teve uma desaceleração forte no mesmo trimestre. Esta é uma ameaça que deverá concretizar-se nos próximos tempos, dificultando a posição do sector exportador".

"Enquanto não se observarem números mais favoráveis nos principais indicadores avançados e ao nível do feedback que temos dos nossos clientes empresariais, não haverá evidência de uma recuperação económica. Estamos ainda em rota de deterioração económica".

"Porém, estou com 'pouca vontade' de alinhar no cenário quase consensual de uma crise muito prolongada. Não que esse cenário não se possa materializar. Mas considero que esta crise tem contornos muito diferentes das demais e por isso a comparação que a maioria dos economistas está a fazer com outras crises parece-me abusiva".

"Penso que é perfeitamente plausível que a recuperação seja bem mais rápida do que o 'consensus' prevê".

(Por Sérgio Gonçalves, Patrícia Vicente Rua e Ruben Bicho; Editado por Elisabete Tavares)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Problemas de Circulação


Falta liquidez na economia. É difícil ter "dinheiro na mão" e os tempos do crédito fácil já terminaram.

A situação é mais grave em Portugal, onde há muitos anos impera a prática de não respeitar os prazos de pagamento. Empresas, Estado e particulares financiam-se de graça junto dos que não conseguem evitar o abuso e que são depois obrigados a fazer o mesmo. Um ciclo vicioso. Note-se que aproveitar os diferentes prazos de pagamento não é desleal  se for contratualizado. É desta forma que a distribuição baseia grande parte do seu negócio e do seu modelo de criação de valor.

O actual contexto exige a criação de medidas legislativas que pelo menos mitiguem esta prática. Se é certo que já existe a figura dos juros de mora, raramente se aplicam porque exigem frequentemente a intervenção judicial. Urge então definir um quadro de penalização automática a quem atrase pagamentos, preferencialmente através de multas. Não adiantaria aumentar uma divida que já não está a ser paga pois o mais provável é que ficasse por pagar.

Sem prejuízo da solução a encontrar, é necessário lutar contra esta crescente perturbação no mercado que beneficia apenas quem consegue reter pagamentos. Tal como o sangue tem que chegar a todas as partes do corpo, também o dinheiro deve circular e não ficar bloqueado. Quem não receber liquidez a tempo e horas definha e morre. Morre a economia.

P.S. - Num outro registo, continuo a estranhar as lojas que oferecem facilidades de pagamento em prestações sem juros, mas que não dão desconto a quem pretende comprar a pronto. Castiga-se quem paga a horas!


Filipe Garcia
Artigo publicado no Jornal Meia-Hora em 5 de Dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ver o Mundo:

Foto: REUTERS/David Gray
Esta fotografia premiada tem um ano. Com a bandeira chinesa em pano de fundo, vislumbra-se um jovem atleta chinês a exercitar-se em frente da bandeira. Nos últimos jogos olímpicos, de facto, a China apostou em dar algumas lições ao Mundo. Mostrando outras expressões de uma face ainda pouco conhecida, compôs um exercício perfeito de encantamento e sedução (leia-se: de marketing).

Foto: REUTERS/Nir Elias

Como parte de uma sessão de treino, rapazes são pendurados durante 5 minutos numa barra no Pavilhão Desportivo da Universidade de Desporto de Xangai.

Entre as argolas e a barra, algum paralelismo?
Não havendo dúvida sobre a íntima relação entre educação e princípios, e entre estes e a cultura inculcada numa sociedade, que valores se levantam aqui? Que princípios se cultivam desde terra idade? O que se ensina e o que fica aprendido para além dos exercícios?
São estes também sinais da grande China de hoje. E uma pergunta me tem mordido o pensamento: como evoluirão estes jovens nas grandes ambições de um país milenar?
“A China é uma sociedade criada nos valores confucionistas e taoístas, a que depois se juntaram o budismo e marxismo. Nenhuma destas filosofias lida bem com a liberdade individual, identidade pessoal, direitos humanos e outros critérios do Ocidente moderno.” João César das Neves.
Quanto, de facto, percebemos a grandeza do mercado do tigre que desperta para liderar o Mundo?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Baixa de impostos?

O tema da fiscalidade voltou à ordem do dia. Primeiro, nos Estados Unidos, onde o recém-eleito Barack Obama prometeu uma redução de impostos para 95% dos assalariados. Depois, no Reino Unido, onde se aprovou uma redução do IVA – de 17,5% para 15% –, ao mesmo tempo que se decidiu aumentar o escalão máximo do IRS para 45%. Por fim, na União Europeia, que deu autorização aos seus Estados membros para avançarem com reduções dos impostos no sentido de relançar a economia real. Nas últimas três décadas, registou-se uma redução drástica da carga fiscal, em particular no domínio dos impostos directos – IRS e IRC. Em 1980, no conjunto dos países da OCDE, o escalão máximo de IRS era em média de 68% (fonte: Fraser Institute). Nos Estados Unidos, era até superior à média – 73%. Desde então, devido à desregulamentação de vários sectores da economia e, também, por causa da concorrência fiscal conduzida pelos países envolvidos no comércio internacional, esse escalão máximo de IRS baixou para uma leitura média de 42% em 2007. E em relação ao IRC, no mesmo universo da OCDE, passou-se de uma taxa média de 38% para os 27% observados em 2007. Contudo, com as políticas orçamentais expansionistas que, de um modo geral, os governos ocidentais se preparam para implementar, associadas à incapacidade que os mesmos revelam na gestão da sua despesa pública primária, no balanço, não serão de esperar reduções significativas dos impostos. Pelo contrário, a prazo, os impostos deverão até aumentar. E, a avaliar pela história recente, margem não faltará. Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 3/12/2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ventos de Mudança

Foto: Luís Ferreira
Nem só a tempestade vem com a crise – esse monstro que tomou conta do mainstream. É sabido que os momentos críticos têm, pelo menos, uma virtude: tingem a realidade com cores fortes, fazendo olhar certos detalhes com a atenção devida. A maior parte das crises é, portanto, esclarecedora. E, na sua medida, esta clarificação impele-nos para a acção. De crise financeira a real. Espalhou-se até às entranhas da economia, ameaçando contaminar a sociedade. Falamos de confiança, de segurança, de futuro. Empresas que, de um trimestre para o outro, desaparecem; outras que reduzem fortemente a actividade; outras ainda que ficam suspensas – sem espaço nem tempo – aguardando sinais mais firmes para tomar decisões. Creio que é a própria tempestade a trazer a bonança. Ao demandar novos factores de competitividade - que desenvolvam uma economia baseada no conhecimento e na inovação, mais orientada para os mercados internacionais; que promovam a alteração do perfil de especialização produtiva a par com a renovação e qualificação do modelo empresarial; sem esquecer a melhoria da regulação e funcionamento dos mercados, reduzindo custos de contexto – estes momentos de tensão apelam, mais do que nunca, à mudança, gerando novas oportunidades. Notemos, porém, que o desafio maior reside na base: na transformação para uma atitude mais competitiva, pró-activa e determinada. Exige que exercitemos sistematicamente a criatividade; que apostemos consistentemente na investigação promotora de novas soluções; que levemos ao mercado as invenções capazes de aportar novos padrões. Que inovemos, navegando os ventos de mudança!
Artigo publicado no Jornal "Meia-Hora" em 2-Dez-2008.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Corda do Tempo

Era uma vez um País distante, que mais parecia uma vila, pois tão poucos eram. Era uma terra de pescadores. Uma das poucas actividades que alimentava as bocas esfaimadas das gentes era a pesca pois a terra, essa era para nidificação, para pastoreio ou para servir de mesa para uma linda toalha branca onde só se servia frios. As gentes dessa terra viviam na costa, soprada por ventos agrestes, onde o clima era ameno e daí viam os pescadores partir para a faina. A neve, essa constante, quando derretia, dava-lhes de beber, pois os mamíferos também bebem. Porque eram pescadores e destes vinha o sustento das gentes e porque tinham que levar o pescado para terras longínquas para fazerem trocas com outras gentes e obter aquilo que não tinham, foram obrigados a fazer embarcações robustas como aço, grandes como as montanhas e velozes como o vento, para que aguentassem as tormentas do mar que por lá era bravio. Porém, descobriram que as gentes de terras longínquas, apreciavam um líquido muito viscoso que lhes acendia lamparinas. Em troca desse líquido, as gentes de além-mar, ofereciam-lhes bens valiosos e pediam-lhes pelas alminhas que lhes trouxessem mais para a próxima. Como a procura do líquido viscoso era muita, tiveram que fazer uma espécie de banheiras, que colocavam no meio do mar e sugavam o dito líquido que acendia lamparinas. Não era coisa fácil, pois ali o mar era bravio. Mas aprender a fazer banheiras sugadoras não haveria de ser muito diferente de fazer os barcos dos pescadores e foram obrigados a aprender como se fazia banheiras sugadoras. E assim aconteceu. As banheiras sugadoras eram as melhores que se tinham visto e eram seguras pois homens e mulheres trabalhavam arduamente nelas, no mar que por lá era bravio. Assim começaram a levar mais líquido viscoso para paragens longínquas em barcos cada vez mais robustos e seguros. Como a procura era tanta, tiveram que fazer banheiras ainda mais seguras, maiores e colocadas no mar, que por lá era bravio, mais sombrio e profundo. Então porque o homem nasceu homem e não peixe, foram obrigados a aprender a fazer um barco especial; um barco mergulhador que penetrava nas profundezas do mar e ia onde ninguém conseguia ir para fazer os trabalhos para que as banheiras funcionassem e fossem mais seguras. Tinham que ser seguras, porque eram homens e mulheres que ali trabalhavam e as condições inóspitas assim o exigiam. Para serem seguras, foram obrigados a aprender a fazer embarcações, banheiras sugadoras e barcos mergulhadores, dos melhores que a espécie humana jamais fez. A procura tornou-se ainda maior, por reinos distintos lhes pediam para trocar as embarcações, banheiras e barcos mergulhadores e o peixe pelo que quisessem. Também o peixe era muito apreciado e como a procura era imensa mas também a concorrência, cedo aprenderam a criar peixe perto de costa, porque era mais barato, seguro e nasciam mais peixes. Assim foram estas gentes, pescadores na sua origem, trocar peixe, líquido viscoso para as lamparinas, embarcações, banheiras e barcos mergulhadores, com todos os reinos conhecidos. Mas o mundo que albergava os vários reinos estava a mudar e tomaram conhecimento e consciência de que o mar tinha menos peixe, que o líquido viscoso haveria de acabar um dia, que o mar por ali era bravo e salgado e que corroía e destruía tudo o que tinham feito. Então resolveram aprender a ciência da alquimia e aplicá-la a proteger as embarcações, as banheiras sugadoras e os barcos mergulhadores. Tornaram-se nos melhores no conhecimento da arte de proteger e vestir o aço. Tornaram-se nos melhores no conhecimento e na arte de dobrar o aço e criaram moinhos de vento para que no futuro estes substituíssem o líquido viscoso que acende as lamparinas. Tudo assim foi porque foram obrigados a adaptarem-se. Tudo faz sentido, quando as premissas da evolução são baseadas na necessidade. Tudo faz sentido, quanto o continuo do tempo se enlaça com o continuo da aprendizagem e conhecimento. E assim temos um povo de pescadores que continua a ser um povo de pescadores. Um povo de artesãos que construía embarcações e que continua através dos tempos a fazer embarcações. Um povo de comerciantes, que por necessidade e escassez continua a ser de comerciantes e a criar valor a todos os reinos.