sábado, 26 de setembro de 2009

PuraMente #30 - The Power of Less

Nome: The Power of Less
Autor: Leo Babauta
Data Original : Julho 2009
Frase: “Choose the essential and cleanout the rest – do more doing less”
Keywords: Focus; Lifestyle; D-stress; Effectiveness; start small; Log; Limit;
Apreciação: ****
O primeiro livro de Leo Babauta, conhecido bloguista do “Zen Habits”, não é um memorando teórico e fundamentalista sobre a vida num estado zen – é antes um manual de como compatibilizar vidas com projectos e objectivos em excesso, melhorando a eficácia e a qualidade de vida.
A obra parametriza o mundo actual como aquele onde cada um tem mais compromissos, tarefas, metas e ocupações, com o mesmo tempo disponível, conduzindo a um estado de stress, pouca eficácia e constante salto de tema em tema, de mail em mail, de reunião em reunião, raramente concretizando efectivamente aquilo a que se propunha, ao que era necessário.
O autor propõe uma simplificação, num modelo que sumariamente se mecaniza em 6 princípios essenciais, onde menos é mais – realizando menos maximiza-se eficácia e resultados. A resposta passa por um processo que se inicia com um Plano de Desenvolvimento Pessoal, que procura responder a perguntas como “ Quais são os objectivos de longo prazo?”, “Quais são as prioridades”, ou “O que traz mais valor para a minha vida” e que depois é sub composto em objectivos, subdivididos em tarefas. O processo de simplificação passa por criar limites em todas as áreas - sobretudo as menos relevantes – conduzindo a um processo de escolha. A este processo de simplificação e escolha junta-se um outro, de enfoque em cada uma das tarefas e projectos que se escolheu fazer em cada dia, em cada mês, adicionando rotinas para um posto de trabalho zen, uma casa ordenada, uma condução eficaz e uma verificação de mail regrada.
Leo Babauta transpôs para um modelo um conjunto de princípios óbvios mas nem sempre respeitados, juntando-lhe uma mão cheia de novidades criativas que, seguidos com rigor mas critério, conduzirão certamente a melhores resultados e a uma melhor vida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Colar Cartazes

Foto: Luís Ferreira

Este Setembro chegou maduro; no ar pesado paira o travo intenso do combate político. O poder é fascinante! E um grande mercado. As eleições um profundo oceano vermelho, cada vez mais competitivo e feroz. Com um produto mau, vendedores desacreditados e cada vez menos consumidores, as receitas ressentem-se. Não será só pela crise. Pelo menos não da mais palpável, da financeira e global; talvez da mais oculta e dolorosa, a interna – aquela que se revela na deterioração de valores, na ausência de rumo agregador, na falta de solução inspiradora para a nação. Enfim, no "medo de existir".

No meio de tanta neblina, será possível afastarmo-nos das “nano-mini-micro” disputas que têm saturado os dias e, ousando diferente, concentrarmo-nos em inovação de valor? Isto é, numa clara mas robusta proposta de desenvolvimento para o país, com tanto de ousado quanto de inspirador?

Oferecendo ao debate novos e úteis elementos, os argumentos estéreis destinados a produzir “sound bites” seriam substituídos por ideias e opções de desenvolvimento e respectivos planos de acção devidamente detalhados (no tempo e nos custos).

Enquanto a grande maioria dos políticos apenas sabe “colar cartazes” outros (poucos) conseguem mover multidões. Estes despertam, inspiram e insuflam a sociedade de ar fresco, marcando novos rumos. Isso sim. Seria juntar utilidade e benefícios aos clientes – afinal todos nós –, construindo um novo oceano azul na política.

Publicada no Jornal "Metro" em 23-Set-2009

Legislativas (*)

A poucos dias das eleições, confesso que há muito que me resignei politicamente. As expectativas que tenho acerca do que sairá do próximo sufrágio são tão reduzidas que representam apenas uma esperança – sempre a última a morrer –, mas pouco mais do que isso. É que apesar de algumas diferenças programáticas aqui e acolá, nas grandes decisões, o próximo governo, provavelmente, não revolucionará nem reformará. De resto, um dos problemas que a democracia portuguesa enfrenta neste momento é a irrelevância política a que os governantes estão destinados, nomeadamente em face dos nossos compromissos europeus. E que, relembro, tenderão a acentuar-se a partir de 2013, quando Portugal passar a ser contribuinte líquido (!) da União Europeia. Contudo, ainda estamos em 2009. E, no presente, temos um país que não mexe. Um país que não progride. Temos um país profundamente desigual, em que 58% dos agregados familiares ganham menos de 13.500 euros por ano e que são o reflexo da nossa falta de produtividade e competitividade. Mas a culpa é nossa e de mais ninguém. Portanto, ao próximo governo peço apenas uma coisa: libertem o país! Abaixo com a burocracia. Abaixo com a rigidez das leis. Abaixo com a incompetência dos tribunais. Abaixo com a má gestão dos dinheiros públicos. Abaixo com os mil e um impostos. Abaixo com os subsídios para quem não quer trabalhar. Para a frente Portugal! Enfim, esta é a minha ténue esperança. (*) Publicado no jornal “Metro” a 24/09/2009.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A bolha dos bónus vai rebentar?

O actual sistema de compensação dos executivos de topo tem por base a teoria da agência (muito em voga nos anos 90), segundo a qual quando uma pessoa (principal) incumbe a outra pessoa (agente) a prestação de serviços, envolvendo a delegação de poder de decisão, existe razão para acreditar que o agente nem sempre vai agir no interesse do principal, mas sim na tentativa de maximizar o seu benefício próprio. Os principais conflitos discutidos nesta teoria respeitam ao empenho dos gestores, ao controlo dos gestores sobre os bens da empresa e a uma atitude face ao risco diferente da assumida pelos accionistas. Os gestores assumem uma grande responsabilidade perante os accionistas, pelo que deveriam receber prémios relacionados com o retorno das acções, opções sobre acções e remuneração indexada a indicadores de desempenho. Assim, assistimos nos últimos anos à distribuição de incentivos generosos, numa cultura tão insaciável que observámos os directores da seguradora AIG, salva da falência pelo Estado, a reclamarem o direito aos seus prémios exorbitantes. Na cimeira do G20, que decorrerá nos dias 24 e 25 próximos em Pittsburgh (EUA), pretende-se chegar a um acordo quanto à definição de normas globais para limitar os prémios pagos na banca. A este respeito, espera-se que haja um confronto entre a posição da Alemanha, França, Reino Unido e outros países europeus e a posição dos EUA que hesitam em definir níveis de compensação individuais.
Susana Peixoto
Docente do IDEP
Artigo publicado no METRO, em 22/09/2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não queremos mais!

Muitos sinais estão aí à vista de todos para quem os quiser ver: o consumidor mudou!
Há quem diga que tal é uma consequência directa da recessão e da crise de confiança que terá impactos duradouros nos comportamentos dos consumidores. Outros há, que consideram que tais alterações são devidas à evolução natural do consumidor nas sociedades avançadas. Nesta perspectiva, estes consumidores estarão num estádio avançado de maturidade, levando a que o seu consumo seja muito mais ponderado e consciente, de um ponto de vista económico, social ou ambiental.
Seja como for, a verdade é que quando se pergunta aos consumidores dos países ricos se querem consumir mais, a resposta é “Não!”. Quando se olham os números da evolução das vendas de retalho na Europa e nos Estados Unidos a conclusão é evidente: existe uma diminuição anual no volume de vendas desde 2007 que se tem vindo a acentuar. Algumas empresas foram capazes de ler estes sinais e traduziram-nos em acções com vista a captar um mercado que teima em encolher. Para o fazer, as empresas terão que estar atentas aos seus consumidores, actuais e potenciais, por forma a conseguirem identificar necessidades não atendidas ou frustrações existentes.
Este exercício irá permitir identificar novas oportunidades de crescimento através da segmentação de perfis de clientes não endereçados e de necessidades não cobertas no modelo de negócio actual...mesmo que estes sejam os clientes que nos dizem: “Não queremos mais!”

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Marketing e as eleições

O Marketing Político é, hoje, uma ciência... e é o momento certo para dele falar! Se observarmos à volta, as razões estão à vista: a verdade é que alguns dos nossos candidatos locais bem podiam aprender um pouco mais sobre esta ciência... Basta ver um desses cartazes que se espalham pelas nossas freguesias! Comecemos então por uma pequena lição: em primeiro lugar definir o que é Marketing Político. Sintetizando as definições de autores de referência, como Jennifer Lees-Marshment, o Marketing Político pode ser visto como comunicação/informação que tem por fim influenciar positiva ou negativamente as ideias do eleitor sobre propostas, candidatos, governos... Num sentido mais lato, e mais exacto também, marketing político não é, contudo, somente comunicação, como na definição acima pode parecer: é, mais que isso, criar e ajustar os “produtos” (medidas governamentais...) às necessidades da população para que esta fique e se sinta, efectivamente, melhor servida. Para uma pequena análise das autárquicas, não necessitamos ir tão longe quanto o marketing político na sua totalidade. Basta-nos ficar pela Comunicação e Vendas para saber que muito há a melhorar, a começar pela “embalagem”. Das fotos dos candidatos – muitas, verdadeiramente anedóticas! - aos slogans indecifráveis ou vazios, podemos ver de tudo. Já na vertente comunicação, os candidatos às legislativas não estão mal de todo... mas se pensarmos no marketing político na sua real abrangência... então tudo parece ainda por fazer.

As Empresas também Sonham

O poeta português António Gedeão, no seu poema “Pedra Filosofal”, chegou a uma verdade profundamente ligada à natureza humana, a de que “O Sonho Comanda a Vida”. As empresas e as suas equipas também precisam de ter um sonho partilhado por todos os colaboradores; que os une, que os faz ter um caminho comum e que os impulsiona a unir esforços, trabalhar e realizar. Se uma empresa não tiver esse sonho as pessoas não se mobilizam em torno da sua realização, mais, não geram energia positiva e vontade para superar as dificuldades melhorando constantemente o seu desempenho. Esta linguagem algo literária tem uma tradução para a linguagem empresarial; o Sonho chama-se Visão e contém normalmente o que a organização quer ser e ainda não é. A uma visão está associada uma Estratégia (a forma de chegar ao sonho) e Valores (conjunto de princípios que orientam o comportamento dos colaboradores no desempenho das suas funções). A qualidade do sonho é determinante para o desempenho da empresa, se este for injusto (apenas satisfaz alguns colaboradores e/ou accionistas) as pessoas não aderem ao sonho e não dão o seu melhor. Todos nós conhecemos empresas de que gostamos e onde não nos importaríamos ou gostaríamos de trabalhar e outras de que nem queremos ouvir falar. A responsabilidade de criar este sonho é da administração. Definir o sonho para uma empresa é construir a sua base. Empresa que não Sonha não viverá muito tempo. António Jorge Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas Publicado no Jornal Metro do dia 14/09/09.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma questão de honra

Durante a idade média a Igreja vendia as chamadas indulgências, que permitia aos pecadores chegar ao reino dos céus mediante uma doação monetária. Por alto, esse é o conceito da taxa fixa que muitos defendem como último recurso para tentar lucrar com o download ilegal - o utilizador paga uma determinada quantia mensal e durante esse mês tem uma "amnistia" para as suas actividades.

Apesar de estar longe de ser uma solução livre de problemas - desde logo o dinheiro iria certamente para aqueles que menos precisam dele - os artistas que com ou sem pirataria vendem milhares de unidades - é uma solução que pode ser interessante caso seja equilibrada; nem uma mensalidade muito baixa de modo a que as editoras não se sintam defraudadas, nem tão alta que afaste potenciais clientes dispostos a aderir a este "sistema de honra". E não podemos esquecer aqueles que compram os discos e frequentam concertos!

Uma forma eficaz de incentivar a compra seria criar algo no mesmo formato que um cartão de descontos de um supermercado, em que uma determinada percentagem de cada compra seria descontada na mensalidade seguinte. Isto não só permitia distribuir as taxas de uma forma mais equilibrada, como devolver algo aos que de facto "compram se gostarem" ou suportam economicamente a banda a ir aos seus concertos.

Num mundo imperfeito são raras as soluções perfeitas e ainda menos a que têm sucesso. Mas qualquer tentativa é melhor que a forma como a indústria lida, actualmente, com o download ilegal e quem o pratica.

Luís Silva
Crítico musical

Públicado no jornal Metro do dia 7 de Setembro

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Regressar lentamente

Foto: Luís Ferreira
Setembro é mês de regressos. Enquanto voltamos a povoar os “sítios de sempre”, reencontramos os “amigos do costume”. Ainda que um pouco melancólica, regressar é uma ideia feliz e enraizada em cada um de nós. Quem não gosta voltar ao aconchego do ninho? Ao porto de largada? À cidade de despedida? Em certa medida é certeza do caminho andado; até do dever cumprido.
São conceitos fortes que o marketing apodera: das campanhas de “regresso às aulas” às ajudas para voltar ao trabalho, regressando, também, as modas com as cores e as formas da estação. Neste vai-e-vem construímos expectativas, criando espaço para (novos) consumos.
“Slow down” (abrandar) é uma tendência em franca expansão. O “slow movement” ganha adeptos, explorando maneiras ecologicamente sustentáveis de pensar, viver e interagir na Comunidade Global. São distintas as formas onde se revela: é provável vermos inscrito em menus “slow food”, mas o seu âmbito alarga-se a todo o sistema alimentar (veja-se o renascer das pequenas hortas familiares); surgem “slow books” – pela redescoberta do prazer da leitura – e “slow travels” – viajar fazendo parte da vida local, ligando-nos às gentes e aos sítios; nesta senda, eclodem “slow cities”, burgos onde o espaço e o tempo comuns são fruídos de modo particular – “slow way of life”.
Não se confunda a descontracção das propostas com resignação. Pelo contrário, exigem maior identificação connosco e com o meio que nos rodeia, regressando ao conceito de sustentabilidade. Esta “filosofia de vida” surge em reacção à compressão que a globalização vem forçando no tempo e no espaço. Um Mundo integrado e plural tem estes paradoxos.
Publicado no Jornal "Metro" em 3-Set-2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Governo a Mais



Está instalada mundialmente a tendência de os governos serem mais influentes. É verdade que o grau de intervencionismo estatal tem um carácter cíclico, mas não é uma boa notícia.

Espera-se de um Estado moderno a garantia da segurança (nas suas várias dimensões), da justiça e da educação. As últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 80, caracterizaram-se por uma desregulamentação e liberalização, com o Estado a centrar-se nas áreas em que não podia, efectivamente, ser substituído. Como consequência, viveu-se até ao início deste século um período de progresso económico e social sem precedentes, em que cada indivíduo passou a ter mais oportunidades para concretizar e desenvolver o seu potencial.

Uma série de eventos, como o 11 de Setembro e a actual crise económica, têm levado os cidadãos a admitir e até a exigir maior intervenção do Estado. Os políticos, que sabem que "Poder gera Poder", aproveitam para ganhar terreno. Definem cada vez mais regras e limites e até decidem caminhos de evolução tecnológica, algo que deveria pertencer à sociedade civil. A recente opção a nível mundial de apoio aos automóveis híbridos, sem grandes discussões sobre qual a melhor solução, é um exemplo dessa influência.

A História dos últimos 250 anos diz-nos que quando o Estado desempenha funções em excesso na economia e sociedade, o progresso ressente-se. A igualdade de oportunidades para empresas e indivíduos é comprometida quando há decisões meramente políticas e não se avalia a eficiência e o mérito. Por outro lado, Estados mais fortes tendem para o proteccionismo, sentimentos nacionalistas e maior probabilidade de conflitos. Ou seja, é governo a mais.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado no jornal Metro em 1 de Setembro de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PuraMente #29 - Cultura e Organizações



Nome: "Culturas e Organizações"

 

Autor: Gert Hofstede

 

Data: 1991 (original) - 2003 - Edições Sílabo (edição portuguesa)

 

Frase: "Mesmo após ter sido informado, o observador estrangeiro é susceptível de deplorar certas tendências da outra sociedade"

 

Palavras Chave: Atitudes; Valores; Cultura; Programação Mental; Relativismo Cultural;

 

Apreciação: ****

 

"Culturas e Organizações" é uma obra já razoavelmente conhecida, sobretudo no ambiente das grandes multinacionais. O livro tem como principal objectivo identificar e descrever a diversidade cultural entre os diferentes países. Utilizam-se quatro grandes referenciais segundo os quais cada país é classificado, construindo-se uma matriz cultural nacional que, apesar de simplificada, é sólida e pertinente. As quatro dimensões utilizadas pelo autor, Geert Hofstede são: Distância hierárquica; Individualismo; Masculinidade; Tolerância à incerteza. Posteriormente abre espaço a uma quinta dimensão: A orientação para o longo prazo.

Hofstede publicou o seu primeiro estudo sobre estas matérias em 1980, depois de ter tido acesso a um vasto conjunto de dados sobre os trabalhadores da IBM, uma das multinacionais presentes em mais países naquela época. Analisou estatisticamente esses dados e sistematizou-os, construindo o "corpo" da sua teoria.

O livro começa com um guia de leitura e divide-se depois em quatro partes: Definições conceptuais; Culturas nacionais; As consequências organizacionais; Implicações práticas. Naturalmente, a segunda parte é a mais interessante.

Tal como sucede em muitos dos livros mais recentes, "Culturas e Organizações" é complementado por um sítio na internet (www.geert-hofstede.com) onde se podem visualizar graficamente os resultados de cada país. São também incorporadas actualizações aos estudos. Num outro sítio, www.clearlycultural.com, podem observar-se as diferenças entre os países através de mapas-múndi.

Este é um livro importante para quem lida com ambientes multiculturais, mas igualmente útil na compreensão da nossa própria matriz cultural. Não é um livro "fácil" ou rápido de ler, dado o seu carácter conceptual, nisso podendo aí residir a maior crítica. Porém, o esforço decerto compensará.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 11 de Agosto de 2009



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

PuraMente #28 - The 80/20 Principle



Nome: The 80/20 Principle

 

Autor: Richard Koch

 

Data: 1997 - Nicholas Brealey Publishing

 

Frase: "The secret of achieving more with less"

 

Palavras Chave: Realocação; Assimetria; Insight; "Productive laziness"; Hedonismo; "Vital Few";

 

Apreciação: ****

 

O princípio 80/20 é um conceito reconhecido e enunciado frequentemente. Mas, provavelmente, a maioria não terá lido este livro de Richard Koch, que em 1987 tentava provocar uma revolução na forma de pensar de empresas e indivíduos. Desde Pareto (finais do séc. XIX) que se constata a existência de assimetrias e de desequilíbrios dentro das populações estatísticas. O mundo não é linear, no sentido de que inputs e outputs não se relacionam de forma proporcional. O princípio 80/20 diz que "numa população, algumas coisas são mais importantes do que outras; Uma minoria de causas leva à maioria dos efeitos". Trata-se de um conceito simples, mas poderoso: é preciso identificar os 20% e realocar recursos. Logicamente o 80/20 não é um número mágico que tenha sempre que ser respeitado, mas antes um paradigma de reflexão e análise.

"The 80/20 Principle" divide-se em quatro partes: Explicação do princípio 80/20; Aplicação nas empresas; Aplicação pelo individuo; Extensão à sociedade e futuro. A primeira parte é, de longe, a mais importante. Ao longo dos capítulos aparecem referências a outros conceitos, que nos transportam para obras como as de Gladwell. As ideias "core" de Blink, Tipping Point e Outliers estão em "80/20"...

O livro acaba por surpreender em três dimensões: em primeiro lugar, pelo amplo espectro de temas em que o "80/20" é relevante; em segundo, porque consegue alterar paradigmas na mente do leitor; e, finalmente, porque se trata de uma obra de 1997, sobre um conceito enunciado há mais de 120 anos que permanece perfeitamente actual e universal.

O livro passa uma mensagem crucial, a de que é preciso garantir tempo disponível para pensar, sem o qual não é possível seguir um processo dialéctico constante de melhoria.
O tempo gasto neste livro fez parte dos 20% que contribuem para 80% do desenvolvimento pessoal.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 28 de Julho de 2009



segunda-feira, 27 de julho de 2009

PuraMente #27 - O Processo



Nome: "O Processo"

Autor: Franz Kafka

Data: 1925 (1ª edição). Edição em português consultada: Europa América 2ª ed. (1989)

Frase: "A minha inocência não torna o caso (...) mais simples"

Palavras Chave: Processo; Burocracia; Controlo; Falácia; Formalidades

Apreciação: *****

Há um "antes e depois" da leitura de "O Processo". É um livro que marca. O enredo é relativamente simples, mas a descrição detalhada de um universo surreal e difuso impressiona e acaba até por ser constrangedora à medida que o leitor se identifica com o personagem principal.

Em "O Processo", o protagonista Joseph K. é acusado por um tribunal e preso, sem saber o motivo. A principio K. não dá importância ao caso, mas à medida que se apercebe do deteriorar da sua posição tenta reconquistar o controlo, o que nunca consegue. A descrição de todo o processo judicial é muito pormenorizada, mas o que fica na memória é a forma como K. é envolvido num caso que desconhece e que o arrasta para o abismo, sem defesa possível, até porque nem sequer sabe de que é acusado. O final é naturalmente trágico. É a esta espiral de acontecimentos inexplicáveis, de uma dimensão irreal e absurda,  mas que aparentemente são processualmente coerentes, que se atribui o adjectivo "kafkiano".

"O Processo" pode ser relevante de várias formas, mas destacaria essencialmente duas perspectivas: Em primeiro lugar, do ponto de vista conceptual, o livro mostra-nos que as instituições podem desvirtuar-se, abandonando os seus objectivos ou funções, bastando que se percam numa teia de procedimentos, hierarquias, paradigmas e práticas, aniquilando a sua razão de existência e quem quer que esteja ao seu redor. Em segundo lugar, evidencia como, para o individuo, é crucial compreender a necessidade de, desde o início, controlar os processos (de qualquer tipo) e de não deixar a mínima margem para que a burocracia, os ritos, as práticas instaladas ou mesmo terceiros aparentemente prestáveis o afastem ou inviabilizem os seus objectivos.

Imperdível. Por vezes incómodo, mas obrigatório.


Filipe Garcia


Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
www.puramenteonline.com
Publicado no Jornal de Negócios em 14 de Julho de 2009


quarta-feira, 22 de julho de 2009

PuraMente #26 - Predictably Irrational

Nome: Predictably Irrational
Autor: Dan Ariely
Data Original: Novembro 2008
Frase: "We are not only irrational, but predictably irrational"
Keywords: irrationality; procrastination; expectations; emotions & behaviour; decoy effect; arbitrary coherence;
Apreciação: ****
Praticamente desconhecido entre os gestores nacionais, “Predictably Irrational” constitui uma nova referência no panorama mundial dos estudos comportamentais e da sua influência na economia. O movimento de obras desta natureza teve “início” com o consagrado “Freakonomics” (Levitt), umbrella do movimento de Tim Harford & Companhia. Com esta obra, Dan Ariely põe em causa o core do pensamento dos economistas racionais.
O livro é constituído por surpreendentes capítulos que se complementam numa interessante diversidade de experiências levadas a cabo no kernel do mundo supostamente racional : as turmas de MBA de Harvard, MIT e UCLA. É neste ambiente cientifico que Ariely prova, vezes sem conta, a irracionalidade do ser humano, não só em assuntos de grande complexidade, mas em temas do dia a dia e funções de carácter, como comparação de preços, gestão de expectativas, honestidade e sentimento de propriedade. Mas o autor vai mais longe, e faz prova de que os melhores gestores e economistas do mundo não só são irracionais, como previsivelmente irracionais. E é esta previsibilidade que, em grande parte, constitui a importância desta obra que passará para o grupo dos obrigatórios, com interesse para absolutamente todos os que procuram evoluir. No entanto, destina-se sobretudo a estrategas de instituições, para melhor posicionarem os seus negócios com a aquisição do conhecimento da irracionalidade que altera o comportamento em momentos críticos do ciclo de compra.
Deixando claro quais são as forças ocultas que influenciam as decisões das pessoas, esta obra de fácil leitura terá maior valor quando lida depois de Levitt, Harford e Nordstrom. Quer numa perspectiva pessoal, quer na perspectiva de valor para funções de gestão, este livro é uma proposta de valor cujo investimento tem retorno garantido.

domingo, 19 de julho de 2009

Puramente #25 - Fast Second

Nome: Fast Second
Autor: Constantinos Markides
Data Original: Outubro 2005
Frase: "Creating Radical new markets is not where the money is"
Keywords: innovation; dominant design; scale up; colonizer and consolidator; Fast Second Strategy
Apreciação: ****
“Fast Second” pode ser visto um livro de gestão da inovação, ou de estratégia empresarial. Aplica-se a empresas, sectores e mercados que operam através de inovação radical, e não aos que optimizam produtos e processos de forma incremental.
O autor explica de uma forma inesperada e refrescante o domínio de inovações radicais, seja por incorporação de saltos tecnológicos relevantes, seja por criação ou invenção de novos produtos, serviços ou outras formas de valor. Estes processos são divididos em duas fases -convenientemente dissecadas na obra. Na primeira fase estão as empresas colonizadoras, imensas e cada uma lutando com o seu formato ou metodologia por um standard, em absoluto caos de divergências interempresariais. Na segunda estão os consolidadores, constituídos pelas empresas que são capazes de criar ou adoptar o que autor denomina de design dominante, momento em que os colonizadores sem sucesso desaparecem.
A tese deste livro postula que empresas de grandes dimensões e já instituídas devem lutar por entrar na inovação apenas no segundo processo, adoptando um framework que denomina de “Fast Second Strategy” e que passa por ser o primeiro a adoptar o design dominante criado por terceiros, e tendo as condições ideias para fazer o market scale-up, precisamente onde está o dinheiro que pode sustentar lucros importantes. Nesta abordagem Markides e Geroski explicam que colonizadores e consolidadores são processos absolutamente distintos e que exigem competências distintas e até incompatíveis no seu DNA, o que sustenta a hipótese de optimização de startups hábeis e leves na primeira parte e porta aviões consistentes e bem estruturados na segunda.
Fast Second é um livro essencial para compreender como se pode fazer um bypass à inovação radical e entrar nos novos mercados directamente para posições de liderança.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O Automóvel do Futuro

A indústria automóvel ainda se encontra a tentar perceber o novo paradigma do mercado, onde a procura e a oferta têm de estar equilibradas, deixando os fabricantes de impor uma dimensão de mercado, na maior parte dos casos inexistente, e passando de uma estratégia Push para uma estratégia Pull.

É muito positiva a forte dinâmica de investigação e desenvolvimento de novas tecnologias e modelos, com os fabricantes a apresentarem, de forma regular nos últimos tempos, inúmeras novidades e concepts de novos modelos. Estas novas tecnologias vão trazer imensos benefícios no futuro, não só aos consumidores mas também ao ambiente e a um desenvolvimento sustentável.

Automóveis mais leves, com maior percentagem de materiais recicláveis, mais eficientes e com recurso a energias alternativas farão parte do portfólio futuro de qualquer marca.

Curioso é ver como esta tendência é transversal a todos os segmentos de mercado, estando a totalidade das marcas – das generalistas às premium - empenhadas em comunicar a sua nova abordagem a esta realidade. Só nas últimas duas semanas, a General Motors anunciou que pondera mudar a cor do seu logótipo de azul para verde para salientar uma postura mais ecológica, a Jaguar acabou de apresentar o seu novo Flagship XJ onde a sustentabilidade teve um papel importante no caderno de encargos e a Aston Martin apresentou um estudo de um modelo citadino, que permite uma mobilidade inteligente e sensível com um nível de exclusividade e inovação nunca visto neste tipo de veículos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

PuraMente #24 - Ethical Prospects: Economy, Society and Environment


Nome: Ethical Prospects: Economy, Society and Environment

 

Autor: Laszlo Zsolnai e outros

 

Data: Março de 2009 Springer

 

Frase: "Nothwidthstanding the best of intentions, there are constraints to achieve socially responsible behaviours"

 

Palavras Chave: CSR; Republicanism; Rights of the Unborn; Market Liberalism; Buddhist Economics; Ethical Banking;

 

Apreciação: ****


A escolha deste livro resultou da necessidade de abordar temas ligados à responsabilidade social e corporativa e à ética, que constituem preocupações actuais e futuras para indivíduos e organizações.


“Ethical Prospects”, editado pela Springer, é uma colectânea de textos organizados por Zsolnai, professor da universidade de Budapeste. Recolhe contribuições de 27 autores oriundos de várias partes do globo, pretendendo reunir ideias “de ponta”. O carácter conceptual disruptivo das propostas é muito variável, não sendo de estranhar a existência de algumas ideias menos realistas, próprias do experimentalismo.


O livro tem quatro partes: “Novas perspectivas e descobertas”, “Práticas inovadoras e reformas, “O desafio das gerações futuras” e “Debate entre o liberalismo republicano e de mercado”. Nota-se um tom contra o status quo (por vezes exagerado), a que não será alheio o facto de muitos textos terem sido influenciados pela crise económico-financeira.


É difícil fazer referência a todas as ideias importantes num livro com 20 textos tão diversos, mas destacam-se alguns contributos: A necessidade de legislar e não esperar apenas que as empresas assumam por si comportamentos éticos; O conceito de budismo económico; A necessidade de representar as gerações futuras nos órgãos de tomada de decisão e de convergência entre o dinheiro e os valores éticos. Discute-se a viabilidade de um consenso entre todos os stakeholders, dado que na história tal nunca sucedeu, o que não impediu a construção de um corpo ético.


É imprescindível ler a introdução, na qual Zsolnai resume os textos em dois ou três parágrafos. O leitor pode então escolher o que mais lhe interessa, rentabilizando a leitura.


O livro tenta, e penso que consegue, ser uma base de reflexão e inspiração. Os temas abordados exigem ainda um considerável crescimento por parte da maioria dos decisores.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios de 30 de Junho de 2009





terça-feira, 14 de julho de 2009

A Gestão do Risco



Segundo o Financial Times e a Greenwich Associates, as empresas estão a prestar mais atenção aos riscos que correm nos mercados de matérias-primas. Num contexto de crise, com lucros em baixa e com o acentuar da volatilidade nos preços das commodities, o assunto parece merecer a devida atenção.

Estima-se que, em 2008, 55% das empresas na Europa, Ásia e América do Norte efectuaram operações de cobertura de risco de variação de preço, face a 45% em 2007. Mais relevante do que os números parece ser a alteração no processo de tomada de decisão. Cada vez mais empresas levam as decisões de cobertura até ao nível hierárquico mais alto, um sinal claro da importância deste assunto. Segundo a Greenwich, 96% das empresas afirma que as estratégias de gestão de risco são da responsabilidade da administração, tendo muitas delas criado um cargo específico.

Até há poucos anos as empresas optavam por uma gestão passiva deste tipo de riscos. Ou seja, as flutuações cambiais, de taxas de juro ou de preço das commodities eram encaradas como um factor exógeno sobre o qual nada poderia ser feito. Posteriormente as empresas foram experimentando algumas formas de cobertura, frequentemente de forma desajustada e com maus resultados. Os instrumentos e estratégias escolhidas, quase sempre por pressão dos bancos, revelaram-se piores do que não fazer nada.

Felizmente as empresas parecem estar a chegar a um processo de maior maturidade, desenvolvendo competências internas e recorrendo ao outsourcing especializado. Daqui resulta um maior controlo efectivo da empresa, não fosse a Gestão do Risco um dos pilares do (bom) Governo das Sociedades.

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Meia Hora de 14 de Julho de 2009


Observando o Impasse

Com o “stand by” do aeroporto e alta velocidade discute-se a pertinência de um observatório para as obras públicas. Não poderia concordar mais com a iniciativa embora duvide um pouco do seu principal desafio – a contenção das derrapagens orçamentais. Desta forma não se combate a causa conduzindo a um maior enfoque nas consequências. Os orçamentos derrapam porque os projectos são desadequados ou mal executados, porque a Entidade Executante não tem capacidade para executar bem e no prazo, ou porque a fiscalização não controla devidamente as acções de quem constrói. A aposta em construção de qualidade e com orçamento controlado não é impossível. Os Donos de Obra são o princípio de tudo e o principal segredo reside numa mudança da sua abordagem perante o investimento que efectuam. Tem-se assistido a um crescente desinvestimento em quadros técnicos experientes e capazes. Subcontrata-se a Fiscalização quase só para tratar da parte administrativa, resolvendo-se as grandes questões directamente com o Empreiteiro e no rigor da agenda política. É um ciclo vicioso, as empresas que se dedicam à fiscalização ou ao projecto, na pressão da sobrevivência apostam cada vez mais e só, em recém universitários sem o devido apoio de técnicos mais experientes. Não é possível compreender que quem lança milhões de euros em obras por ano, não enquadre um conjunto de técnicos ou empresas que directamente possam ser os agentes fiscalizadores. Tem que ser sentido na pele, tem que doer um pouco mais…para que a discussão se centre na necessidade e viabilidade dos projectos e não na sua concretização.
Publicado no MeiaHora em 07-07-2009

Estratégia de Deslocalização

Apesar de várias abordagens e perspectivas diferentes na solução para a crise, um factor é defendido por todos – Aumentar as Exportações.
O sector da construção no alto do seu esplendor de grande pilar da economia nacional, não fica de fora e volta a demonstrar a sua natureza.
As grandes empresas de construção portuguesas já concretizam bem o conceito estabelecido por Gary Hamel. A optimização da eficiência operacional dá lugar à procura de uma eficiência estratégica. Hoje aposta-se em mercados com margens mais promissoras, preterindo o mercado nacional que afinal até não está assim tão mal, como provam os últimos dados disponíveis (excluindo a fatia da habitação).
O problema é que se atalhou a parte da eficiência operacional, demonstrando a habitual falta de paciência, dedicação, trabalho e recusando um retorno certamente mais lento.
Neste sector não estamos a exportar serviços eficientes e de qualidade, limitamo-nos a deslocalizar os recursos. É meramente uma luta pela sobrevivência e uma subversão de um modelo de desenvolvimento empresarial. A melhoria continua é abandonada, opera-se do mesmo modo mas num mercado diferente tentando aproveitar circunstâncias distintas e específicas. Em Angola e no Magrebe concorre-se essencialmente com os chineses, revelando bem a que “Liga” se pertence. Está na hora destas empresas olharem para dentro, exorcizar práticas obsoletas e adoptar modelos operacionais orientados para a monitorização e melhoria.
Quando o crescimento destes mercados desacelerar, vão sobrar novamente empresas em dificuldades e mais distantes da sua origem.
Publicado no MeiaHora em 21-05-2009

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Repensar a Economia de Mercado

A ideia de repensar os fundamentos da Economia de Mercado (lucro, livre iniciativa e gestão dos recursos escassos), surgiu quando vi o filme “HOME” e reforçou-se com a leitura da última Encíclica Papal. Nestes documentos é demonstrado que a dinâmica socioeconómica está a ameaçar a Vida na Terra e não está a contribuir para o Desenvolvimento Integral do Homem.

As evidências de incapacidade do sistema são inegáveis: a má gestão da área financeira e a ausência de regulação e de controlo do Estado empurraram o Mundo para uma profunda crise económica; a dinâmica dos agentes económicos está a ameaçar a Vida no Planeta e as assimetrias entre ricos e pobres não se têm reduzido. Em suma, a actividade económica do Homem, face à sua idiossincrasia, não pode ser deixada em auto-regulação.

Eis algumas ideias que procuram, de forma sistémica, contribuir para a discussão.

A Economia deve incorporar na sua equação, o bem escasso que é a qualidade ambiental e tem de repensar o papel do Estado, Organizações Supra Nacionais e Empresas. O Estado/Organizações devem considerar que a sua grande ameaça é a agressão aos seus activos naturais e não qualquer potencial beligerante; devem ainda utilizar as suas funções reguladoras e de controlo para evitar que a vontade individual colida com o bem comum. As Empresas não podem pensar apenas no lucro e têm de, voluntária ou coercivamente, incorporar o bem comum como restrição às suas decisões; ou seja, desenvolver objectivos multidimensionais para satisfazer todos os stakeholders.

António Jorge

Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas

Harvard Trends #10 - Riscos a Evitar

2009 tem sido um ano diferente para Harvard. Crise ou novo estado da economia?, uma das perguntas a que só o futuro responderá. Entretanto, uma quase ilimitada nova série de temas tem surgido como base de discussão no âmbito da gestão moderna, ora para evitar novas crises ora para criar uma nova, mais madura, abrangência dimensional à gestão futura.

Um dos assuntos em discussão crescente é o da gestão de riscos. Conhecer e gerir os vários riscos em cada área da gestão da empresa é uma ferramenta que passou de desejável a obrigatória em muito pouco tempo. Harvard tem tratado também dos riscos mais ignorados, como a falta de dados actualizados, sobretudo em empresas que se baseiam no “histórico” como sustento do futuro. A crescente taxa de mudança pode fazer mudar os pressupostos demasiado rapidamente e resultar num epicentro de novos riscos, raramente equacionados.

Os seminários de Harvard têm ainda dissertado sobre os riscos desconhecidos, tradicionalmente vistos como intratáveis. Os novos modelos estatísticos de gestão de risco possibilitam o tratamento e previsão destes riscos como peça fundamental de uma gestão consistente com a transparência para com os shareholders.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Dimensão

Foto: Luís Ferreira
Esqueçamos, por momentos, as agruras da crise. Olhemos para a integração e a interacção como fenómenos que a globalização colocou na ordem do dia; junte-se a crescente complexidade dos mercados e dos negócios; e verifiquemos que a escala é, hoje mais do que nunca, um factor competitivo estratégico: as vagas de desenvolvimento que se vislumbram exigem um alargamento de horizontes que muitas vezes só é conseguido com mudança de dimensão.
Neste contexto, o aumento da dimensão das empresas portuguesas apresenta-se como vital para uma competitividade que demanda: escala global, que permita a actuação em mercado alargado; grande agilidade, de modo a ter resposta rápida às necessidades; elevada produtividade, satisfazendo a baixo custo produtos de elevado valor para o cliente; alto nível de inovação, face a ciclos de vida do produto cada vez mais curtos.
Estas condicionantes impõem elevados investimentos em tecnologia, organização e recursos humanos, apenas possíveis de suportar através de processos de cooperação competitiva (sinergias) ou de ganho de escala através de concentrações (fusões e aquisições).
Voltemos ao momento, à crise. Entendamo-la como época de promoções – com a forte desvalorização dos activos e das empresas, é um bom momento para ir às compras. Quem conseguir organizar-se financeira e estrategicamente encontrará boas oportunidades; quem sabe, aquela propulsora de um salto competitivo que organicamente exigiria vários anos a labutar.
Haja ambição e mercado puro!
Publicada no Jornal "Meia-Hora" em 10-Jul-2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Negócios de Verão

Começa hoje o primeiro dos grandes festivais de Verão em Portugal. Se as vendas de discos estão em baixa, as vendas de bilhetes para os mais diversos festivais têm estado em alta, e prevê-se um Verão cheio de música ao vivo.

Embora em Portugal a popularidade dos festivais possa em parte ser atribuída ao baixo preço dos bilhetes, o mesmo fenómeno no resto do mundo sugere outra causa. É frequente ouvir falar nas "tours de promoção para o álbum", mas nos tempos que correm os álbuns parecem mais servir como veículo de promoção da banda junto dos organizadores de música ao vivo. O ciclo inverteu-se.

Uma crítica muito positiva num site de referência irá tornar essa banda numa das coqueluches veraneantes e a sua presença será disputada entre promotores que esperam que o nome da banda no cartaz seja o factor decisivo para que os fãs marquem presença no seu festival. Prova disso é que enquanto os lamentos das vendas minguantes de discos crescem, estamos perante uma verdadeira era dourada para a música ao vivo em Portugal, com diversas bandas conceituadas a visitar o país. O lado negativo é que já se nota alguma saturação na oferta e, por isso, alguns desses festivais têm cartazes incaracterísticos, incoerentes e mal estruturados, apenas para tentar atrair o maior número de pessoas. Ver os concertos como a principal fonte de rendimento não é novidade para as maiores bandas, mas graças à internet até bandas do circuito alternativo podem conquistar fãs desejosos de os ver ao vivo em mercados periféricos de outro continente. Tal como cantavam os Pulp em 1995 "Será assim que dizem que é suposto o futuro sentir?".
Luís Silva
Crítico musical
Publicado no jornal Meia Hora de 9 de Julho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Incumprimento

Na passada sexta-feira, a edição do jornal “Público” noticiou, na sua secção de Economia, que a “SLN Valor falha acerto de contas com clientes que adquiriram títulos no BPN”. De acordo com a notícia, confirmada posteriormente por outros órgãos de comunicação social, trata-se do reembolso – quer dizer, da ausência de reembolso – de uma emissão de papel comercial da SLN Valor, até aqui a accionista maioritária do BPN, avaliada em 50 milhões de euros vencida a 19 de Junho deste ano. E, de acordo com a mesma fonte, em Agosto vence outra emissão, também da SLN Valor, avaliada em 100 milhões de euros – a qual, provavelmente, terá desfecho semelhante. O recurso à emissão de papel comercial é uma alternativa ao financiamento bancário. É uma forma de as empresas – financeiras ou não financeiras, cotadas ou não cotadas – se financiarem no curto prazo. Trata-se de uma prática corrente em qualquer país desenvolvido, mas que em Portugal não é particularmente comum. Ou seja, não é nenhum esquema. Contudo, no nosso país, a distribuição e comercialização destas emissões nem sempre obedece às melhores práticas e de acordo com aquela edição do “Público”, alguns clientes do BPN, a quem foram distribuídas parcelas significativas desta emissão específica, alegam que a “aplicação lhes foi vendida pelos funcionários do banco como um produto de capital e juros garantidos (…) e que em muitos casos a autorização foi dada oralmente”. Os mesmos funcionários que agora escreveram ao Presidente da República, temendo pela sua integridade física. Tivessem-se lembrado disso antes.
(*) Publicado no jornal "Meia Hora" a 7/06/2009.

Especialistas ou Generalistas ?

No inicio, as lojas pequenas que vendiam as suas especialidades. Depois, o supermercado, uma surpreendente fusão de mercearia, frutaria, talho, padaria e drogaria. Da especialização para a generalidade, juntando-se ambiente moderno e auto-serviço , que permitia uma apetecível estratégia de precings.
O hipermercado juntou novas secções, como têxtil, puericultura, electrodomésticos, cultura e jardim.
A proposta de valor mudou radicalmente, com atributos como horizontalidade e preço a destacarem-se, ao mesmo tempo que o conceito se tornava moda, carimbo de urbanidade.
Depois de perseguidos de forma injusta por alegadamente contribuírem para a decadência daquilo que os leigos inocentemente apelidavam de “comércio tradicional”, os hipermercados – ou retalho generalista – viram aparecer um novo tipo de concorrência, capaz de por em causa a sua hegemonia antes inabalável: o retalho especializado. Estas lojas, especialistas em áreas como a electrónica, bricolage ou desporto, rapidamente puseram em causa o sistema instalado, pela especialização e superior economia de escala. Nasceram os category killers.
Recentemente, algo mudou. O retalho especializado tornou-se mais generalista, com as lojas de electrónica a venderem livros e as de material de escritório a afirmarem-se na informática. Os department stores, no sentido inverso, iniciaram um processo de especialização. Qual será o conceito vencedor? Especialização ou maximização de horizontalidade? A pergunta não tem resposta conhecida, mas encerra um tema da maior importância na definição dos modelos de comércio sustentáveis.

PuraMente #23 - A Gift to My Children



Nome: A Gift to My Children

 

Autor: Jim Rogers

 

Data: Maio de 2008 John Wiley and Sons Ltd


Frase: "Swim your own races"


Palavras Chave: Questioning; Dedication; Details;  Mob Psychology; "Do your homework"


Apreciação: ***

 

Jim Rogers é amplamente conhecido  no mundo financeiro por ter sido um dos co-fundadores, com Geroge soros, do Quantum Fund. Este fundo foi responsável pela saída da libra do Sistema Monetário Europeu em 1992. De Rogers são também conhecidas as suas posições de investimento pró-China, o que levou a ensinar mandarim às suas filhas desde o berço. Reformou-se aos 37 anos, residindo actualmente em Singapura.


Embevecido pela paternidade, Rogers pretende neste livro deixar alguns conselhos que considera serem relevantes para todos. O próprio autor destaca os mais importantes: trabalhar arduamente, pensar por si mesmo, questionar tudo e nunca seguir a multidão. Rogers utiliza um exemplo forte (algo raro neste livro) para construir a ideia de "swim your own races" -  devemos competir connosco próprios e não tanto contra os outros, já que isso pode limitar a nossa evolução. Outra ideia interessante é que só devemos pedir conselhos a alguém depois de já sabermos, por nós próprios, tudo o que for possível sobre o assunto em causa.


A meio do livro o autor não resiste a sair do registo paternalista e começa a falar de investimentos, nomeadamente das suas perspectivas de longo prazo. Destaque para a perspectiva sobre os BRIC - Rogers está muito optimista para o Brasil e China, pessimista para Rússia e céptico quanto à Índia. "Well, the 21st century belongs to China" diz quase tudo.


"A Gift to My children" consagra as principais ideias de investimento de Rogers - China, commodities e fuga ao que estiver na moda. É um livro para uma viagem curta e que pode constituir um checkpoint simples à forma como cada um tem levado a sua vida, apesar de faltarem exemplos fortes, originais e relevantes . "Be who you are, be original, be bold".


  

Filipe Garcia


Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 16 de Junho de 2009


www.puramenteonline.com




quinta-feira, 2 de julho de 2009

Moedas Sociais



As moedas sociais são meios de pagamento não oficiais utilizados por um determinado grupo de pessoas, que visam fomentar a troca de bens ou serviços dentro de um conjunto limitado de agentes económicos. São uma ferramenta para o desenvolvimento económico local já que se pretende que a moeda possa circular o maior tempo possível dentro da comunidade, gerando um ciclo virtuoso. Existem várias formas de funcionamento, mas, na mais frequente, o consumidor troca a moeda corrente pela moeda social e obtém um desconto ao utilizar esse meio de pagamento dentro da comunidade. Ou seja, em vez de pagar 100 euros por um serviço na sua cidade, rua ou bairro, pagaria por exemplo 95 unidades da moeda social.

Historicamente, as moedas sociais surgiram como alternativa à troca directa, tentando organizá-la. Há registos de moedas sociais na antiga Babilónia (4000 A.C.), mas os exemplos são recorrentes e acompanham-nos até aos dias de hoje. O sucesso destes sistemas é significativo no Brasil, onde existem mais de 30 moedas locais, inclusivamente com notas próprias. Na União Europeia os números não são rigorosos, mas haverá mais de 60 moedas deste tipo a circular, muitas da quais na Alemanha. O caso de Wörgl, em 1932, é famoso pelo seu sucesso.

Os benefícios de ter um sistema de pagamentos autónomo são evidentes e levaram também à criação de outros instrumentos como os linden dollars do Second life, o e-gold ou até mesmo os "cheques-oferta" e descontos em cartão das grandes superfícies.

Perante um cenário de empobrecimento das cidades médias e de pequena dimensão em Portugal, talvez a criação de moedas sociais pudesse ser uma experiência válida a tentar. As economias locais poderiam ganhar algum dinamismo e os consumidores prefeririam adquirir bens e serviços na comunidade, com base em argumentos concretos como o preço e não tanto num vago "compre o que é nosso", cuja sustentabilidade é muito duvidosa.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal Meia Hora em 2 de Julho de 2009




terça-feira, 30 de junho de 2009

Portugal precisa de um novo Estudo Porter

Mais de uma década após o Estudo Estratégico sobre a Economia Portuguesa, efectuado por Michael Porter; Portugal necessita reequacionar as suas vantagens competitivas e seu papel no Mundo. O desenvolvimento económico português depende essencialmente da sua capacidade de exportar e internacionalizar as suas empresas; hoje num contexto Internacional radicalmente alterado, que torna obvia a necessidade de repensar. O Estudo Porter permitiu posicionamento estratégico, captação de investimento, cooperação empresarial e desenvolvimento sectorial. Este tipo de estudos contribui ainda para uma dinâmica social, há muito ausente de Portugal. A sua ampla discussão na sociedade civil, nas empresas, nos media e na politica, centra o debate do futuro do País nas oportunidades concretas e na eliminação de debilidades estruturais e; por consequência, dá foco e visão há população, determina horizontes e galvaniza esforços. Actualmente, o Mundo procura criar a nova ordem financeira mundial, as empresas debatem-se com excesso de capacidade instalada, os Países procuram desenvolvimento através de projectos que permitam encontrar ideias inovadoras, geradoras de novas necessidades e oportunidades, como por exemplo, viver na Lua, utilizar viaturas eléctricas ou construir cidades auto-sustentáveis.
E Portugal? Que sectores devem ser revalidados e quais devem ser objecto de desinvestimento? Haverá novos? Que lacunas estruturais tem o País? Recorramos a especialistas para obter as respostas, pois certamente não as encontraremos no efémero discurso político.
António Jorge Consultor em Estratégia Marketing e Vendas
Publicado no Jornal "Meia-Hora" em 30-Jun-09

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vícios públicos, virtudes privadas?

Distraídos com as vias para desatar a crise – entre obras públicas e controlo do deficit – somos abalados por uma perversa mescla das esferas pública e privada da economia.
Já deveríamos estar avisados que quando o Estado brinca ao mercado não se sai muito bem. Ilustrativo tem sido o exemplo da PT: quer na OPA da Sonae, quer agora na compra de parte da Media Capital, o Estado sai chamuscado, evidenciando clamorosos erros de sentido e tacto. Noutro capítulo, a dura lição de que o mercado sozinho tem dificuldade em se disciplinar é bastante evidenciada pelos recentes factos do caos em que o BCP se transformou.
O que resulta daqui? Parece que nem vícios públicos nem virtudes privadas se recomendam em excesso, mormente quando são ampliados pela confusão sobre o papel de cada um na economia. Ao Estado competirá sobretudo regular e fiscalizar, enquanto aos privados empreender e gerir; nem aquele é bom em iniciativas empresariais, nem estes na regulação do mercado.
Encontraremos na fragmentação do poder, que alguns patrocinam, a resolução desta tensão? Parece ser resposta frágil. Pelo contrário, jogos de poder – na disputa leal, transparente e ética entre diferentes forças que, conscientes das funções, procuram ocupar devidamente o seu espaço – podem gerar equilíbrios dinâmicos. Ou seja, é do efectivo confronto (poder/ contra-poder) que nasce o progresso, num permanente encontro de vícios e virtudes que demanda muito mais pensamento estratégico que promiscuidade.
Publicado no Jornal "Meia-Hora" em 29-Jun-2009.