sexta-feira, 25 de julho de 2008

Ser culto para ser livre

Mesmo em frente aos jardins do Palácio Real em Madrid existe uma pequena livraria, das que provam que não é a globalização ou os "novos tempos" que impedem a sobrevivência do comércio tradicional. E chama a atenção de quem passa a frase por cima da montra: "Ser culto para ser libre". Palavras poderosas que, ainda para mais, tão bem se adequam ao negócio que ali se faz. Deve ser triste não compreendê-las. O mais curioso nesta frase é que ela é de José Martí, poeta e líder da independência de Cuba... face a Espanha. Ser culto também é abandonar preconceitos e centrar na essência das coisas... Em Portugal queixamo-nos sempre muito. O contexto actual abriu ainda mais a porta aos lamentos. Nunca temos culpa de nada, o país está sempre mal, mas cada um de nós faz tudo bem. Mistério! Os portugueses fazem pouco para se valorizarem, como profissionais num mercado global e ainda menos como pessoas. Passam-se décadas na vida e não se lê um clássico, não se filosofa, não se tenta pensar. Apenas reagir. E nas férias o português prefere o mesmo rotineiro destino em vez de inovar, conhecer outras sociedades, costumes, regras. Viajar pode ser um exercício de auto-conhecimento, de crítica construtiva e de cultura. E uma semana de férias em Agosto no Algarve até sai mais cara que um destino de low-cost... Adaptando Kennedy: "não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim o que tu podes fazer por ti próprio". Aprenda, actualize-se, cultive-se, estude, escute, pense. Aceite o desafio, verá que a vida saberá melhor.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Oportunidade vs. Consciência

Cada vez mais as empresas Ocidentais deslocam o seu processo produtivo para países como a Índia ou a China. A verdade é que estes mercados, outrora conhecidos pelos baixos custos de produção e baixos níveis de qualidade, são hoje economias a emergir, fornecendo qualidade e design, e mantendo os custos de fabrico reduzidos, graças ao custo de mão-de-obra local. Este factor, mão-de-obra barata, constitui para o Ocidente simultaneamente uma oportunidade e uma ameaça. Oportunidade de obter margens atractivas, e ameaça ao enfrentar uma concorrência difícil de bater. A semana passada recebi um daqueles mails que muitas das vezes vão directos para a reciclagem, mas que neste caso, talvez pelo título – Globalização – fiz questão de ler. Relatava e ilustrava a realidade de uma das muitas fábricas que estão a surgir na cidade de Mumbai, Índia. Com índices de devolução abaixo de 1% do volume de produção, esta fábrica, à semelhança de muitas outras, “emprega” crianças e adultos, que trabalham praticamente por comida. Cozinham, guardam as suas poucas roupas e dormem na fábrica, pois o dia seguinte funde-se com o anterior, num turno de trabalho contínuo de cerca de 16 horas diárias. Mas então onde pára a responsabilidade ética e social? Para além da sustentabilidade económica, e de forma a criarem valor a longo prazo, os gestores de topo têm também que incluir na sua tomada de decisão, a sustentabilidade social e ambiental. É fundamental que conheçam os diferentes hábitos e culturas, e que simultaneamente façam tudo que estiver ao seu alcance para evitar o recurso a fornecedores, directos e indirectos, que pratiquem a violação dos Direitos Humanos. Neste contexto, o processo de tomada de decisão tem muito que ver com a optimização do binómio Oportunidade – Consciência.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Globalização e Proteccionismo (*)

A origem da crise financeira que agora atravessamos tem lugar em certos paradigmas que têm caracterizado a cena mundial nos últimos anos, em particular, a abertura do comércio internacional a certos países emergentes, até aqui restringidos às suas próprias fronteiras, cujo impacto se tem feito sentir na subida do preço das mercadorias e nas crescentes assimetrias sociais no mundo ocidental. No caso português, tudo isto é ainda agravado por um outro elemento desfavorável: a política monetária do Banco Central Europeu. Ou seja, a altura é propícia à implementação de soluções de ruptura. No que diz respeito às mercadorias, existe algum exagero quando apenas se refere o papel da China ou da Índia. Porque não nos podemos esquecer das barreiras proteccionistas que ainda subsistem na Europa e nos Estados Unidos, e que no domínio agrícola também contribuem para a subida dos preços. Uma solução seria eliminar a Política Agrícola Comum e, em simultâneo, abrir as fronteiras à produção proveniente do continente africano. Mais globalização. Quanto ao impacto da moeda europeia em Portugal, não tenhamos dúvidas: a adesão à União Europeia contribuiu, e muito, para a nossa prosperidade. Contudo, a introdução do Euro aumentou o custo de vida dos portugueses de forma dramática. A eventual saída de Portugal do Euro, preconizada por alguns economistas, é ainda prematura. Mas, a partir de 2013, após a absorção dos 20 mil milhões de Euros previstos no QREN, se nada mudar na nossa competitividade internacional, provavelmente, não nos restará outra alternativa. Mais proteccionismo. (*) Artigo publicado no jornal “Meia Hora” a 18/07/2008

sábado, 12 de julho de 2008

Diálogo - Social Media

"Social Media" é uma expressão abrangente que integra a tecnologia e a interacção social, processos de comunicação online. Este tipo de contacto, seja através de blogues, redes sociais, messenger, partilhas várias, está a tornar-se cada vez mais universal e popular. Alguns números: a wikipedia já tem mais de 400 mil artigos, o youtube 100 milhões de vídeos, o blogspot 200 milhões de blogs, o Second Life 1.5 milhões de participantes, 73% dos utilizadores online lêem pelo menos um blog, 57% faz parte de pelo menos uma rede social e 55% já colocaram fotos na web. Chega de números? A comunicação não está mudar. Já mudou! As organizações devem estar atentas, deixando para trás o modelo tradicional - o monólogo. Ainda não convencido? Vamos a mais números. Apenas 18% das campanhas televisivas geram retorno positivo, 90% dos que podem fugir aos anúncios fazem-no, cada um de nós está exposto em média a 3000 mensagens publicitárias por dia. 14% das pessoas acreditam nos anúncios, mas 78% confiam nas recomendações de outros consumidores! O novo modelo de comunicação é o diálogo - conversas. E os melhores conversadores são os que começam por ouvir. Os consumidores de amanhã nasceram já neste paradigma. Nos EUA em 2010 os nascidos após 1990 serão mais do que os baby boomers. São indivíduos que hoje já passam 16 horas por dia online e 96% fazem parte de uma rede social, tendo em média 53 amigos online. A estas pessoas não interessam os anúncios, mas sim o que pensam os seus amigos. Há que dar às pessoas motivos de conversa. Sobre a sua marca. (Artigo inspirado numa apresentação de Marta Z. Kagan)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A Loja da Democracia

Uma manhã passada na Loja do Cidadão faz-nos pensar. Claro, após desesperar. Comecemos pelo início: não há dúvida que a “loja do cidadão” é uma boa ideia. Concentrar num só lugar alguns dos mais importantes serviços públicos é de louvar. Todavia, seria também relevante que transplantássemos para aquele local apenas os benefícios e deixássemos à porta os maus hábitos do “funcionalismo público”. Assim não é. Parece que os modelos, ao fim de pouco tempo, se repetem e se implantam. Será verdadeiramente um nosso traço cultural? De qualquer forma, a minha reflexão é mais conduzida pelo cocktail de experiências que é possível observar nesta loja da democracia (tão recente, como evidencia hoje o Pedro…). Num mesmo guarda-chuva imagético está tudo bem arrumadinho. Edifício, “lojas”, balcões e até tecnologia – essa primeira prova da nova democracia: todos que ali entram ficam disciplinados pelas senhas, pela ordem e pelos números. Fazem filas e atendem os painéis informativos. Ainda se lembram do caos de algumas repartições públicas? Dos jeitosos e dos penetras? Dos falsos distraídos? Dos indisciplinados? Pois bem, agora está tudo condicionado e orientado. Reclamar? Claro que sim. Siga o procedimento. Para além da imagem e da aparência, a máquina funciona. Seja através do cabo, seja do vapor. As empresas mais envolvidas com o cliente fazem dos sorrisos coração e procuram resolver – nem sempre com sucesso – os mais inusitados problemas com calma e clareza. As mais instaladas não disfarçam o mal-estar que alguma exposição pública evidencia. A todas a democracia fez bem. No entanto, ainda que a máquina labute, não chega para nos fazer esquecer que muito do que ali se faz parte de um Estado demasiado interventivo, burocrático e, sobretudo, desorganizado. É bem verdade que quanto mais desconfiamos mais picuinhas somos… Protegemo-nos para não mostrar a nossa fraqueza. Rematando à baliza: uma manhã para mudar três contadores. Isto multiplicado por muitos portugueses utentes e elevado ao quadrado (há sempre um cidadão e um funcionário envolvidos…), dá… enfim, como diria alguém, é só fazer as contas.

Robin Hood

A celeridade do progresso leva-nos a esquecer que a revolução de Abril foi apenas há 30 anos. Mas há momentos em que vem ao de cima no mindset da estrutura dirigente do país um conjunto de ideias de cariz extremista. Nessa época surgiram como fenómeno polarizador próprio destes momentos, na procura da antítese dos regimes que se pretendem destruir.
"Os ricos que paguem a crise" é um dos slogans que na década 75-85 produziu efeitos consideráveis e uma dose relevante de injustiças, com prejuízo evidente para a competitividade e evolução do país livre.
Vem o assunto a propósito da forma como este e outros Governos resolvem bloqueios e greves, contestações e crises: à Robin dos Bosques, tirando aos “ricos” e dando aos “pobres”. Só que na altura de Robin, estava claro quem eram os ricos e os pobres. Hoje tenho dúvidas nessa separação, tendo em conta que os “ricos” aqui considerados são sobretudo a classe média contribuinte e os “pobres” são não raramente famílias que dependem rendimentos mínimos e não procuram trabalho efectivo, excepto se este não for “oficial” e portanto com “descontos”. Não está em causa a necessidade de políticas que assegurem um nível mínimo de qualidade de vida para toda a população. Está em causa a forma como serve de ferramenta popular e é utilizado pelo Governo em todas e quaisquer intervenções regulatórias (nos passes dos transportes, no IMI, nos abonos, …).
É preciso ter consciência que, a partir de um determinado ponto, tirar aos que contribuem para dar aos que menos o fazem tem um custo de competitividade de mercado, para além de ser genuinamente imoral.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Momentos de Minsky

Hyman Minsky, economista americano do século XX, formulou a hipótese que nos sistemas capitalistas a um período de expansão económica segue-se um final de ciclo vicioso de especulação financeira – os “momentos de Minsky”. Se fosse apenas uma crise financeira, já deveria estar a terminar. Só que estamos agora numa nova vaga de instabilidade pelo que provavelmente algo de mais sério está a acontecer. Neste momento há um grande risco de uma recessão forte no curto prazo, mas pode ainda acontecer pior e estarmos na eminência de os momentos de Minsky se tornarem demasiadamente longos!
No seu relatório anual o BIS (Bank of International Settlements) afirma que a crise no subprime pode ter despoletado a crise, mas não é a sua causa. Não sendo claro o que terá acontecido, fica a ideia que o crescimento rápido do crédito e da massa monetária terá tido um papel importante na situação actual. No entanto pode ser arriscado apontar os banqueiros como responsáveis, já que apenas vão fazendo o que lhes é permitido. Talvez os maiores “vilões” nesta "história" sejam alguns economistas que ocuparam lugares de destaque nos bancos centrais e ministérios e que têm testado as suas teorias. Estes economistas defendem a necessidade de manter as taxas de juro reais negativas (o que tem acontecido por largos períodos na última década e meia) e que se deve ajudar os bancos e proprietários do imobiliário, mesmo que para isso os níveis de dívida pública cresçam ou fique a noção que o “crime compensou” para esses agentes económicos. É preciso questionar se essas políticas “acomodatícias” são adequadas actualmente. Se o BIS estiver certo e a rápida expansão monetária tiver causado ou contribuído para a formação de bolhas especulativas e de inflação alta, talvez o certo será optar por políticas contrárias às propostas. Poderá fazer mais sentido simplesmente deixar que o ajustamento natural se faça, sem intervenções. Será seguramente doloroso no curto prazo, mas com certeza que haverá bases mais sólidas para uma recuperação futura. Por outro lado as políticas monetárias deveriam ser conduzidas no sentido da verdadeira promoção da estabilidade de preços. Quando a inflação sobe, as taxas reais devem ser positivas. Para seguir esta ideia seriam necessárias subidas de taxas de juro nos EUA e Zona Euro. Devem ainda ser implementadas medidas que pretendam reduzir a volatilidade. Não se trata de aumentar os graus de intervenção dos mercados. Pelo contrário, os regimes cambiais devem ser mais flexíveis a nível global. Devem é ser retirados incentivos pró-cíclicos ao sector bancário, que fazem com que em momentos de crescimento o crédito cresça em demasia e que desapareça quando ele é mais necessário. (adaptado de um artigo de Wolfgang Münchau, editor do Financial Times)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Prescrições Imorais

Se há algum aspecto em que Portugal melhorou nos últimos anos foi no Combate à Evasão Fiscal. Com novos procedimentos, métodos e meios (em especialmente o início do cruzamento de dados) avançou-se muito no estado de absoluta imoralidade em que a Economia Nacional se encontrava neste aspecto. Contudo, a situação está longe – demasiado longe – de estar resolvida. Todos os anos o Estado perde centenas de milhões de Euros em cobranças não realizadas cujo prazo prescreveu. Talvez o contribuinte anónimo não se aperceba quem é que paga essa factura. É ele mesmo. Só que não raras vezes acrescida de encargos financeiros. O que é que se espera de contribuintes que entregam ao Estado parte do seu labuto para compensar a existência de incumpridores (quando não incumpridores profissionais), e ainda têm de pagar os encargos financeiros respeitantes aos processos? Propor alternativas credíveis. A primeira e mais urgente proposta é a inexistência de prazos para cobrança. Uma divida é uma divida, e não devia caducar, expirar ou prescrever. Ou se o tiver de fazer por recursos e ligações a outros processos, nomeadamente jurídicos e administrativos, que seja em décadas e não em anos. Hoje existem já meios técnicos disponíveis – nomeadamente electrónicos - para acelerar os processos e guardar históricos mais vastos, potenciando pelo menos uma grande dilatação dos prazos e assim aumentar a oferta, reduzindo drasticamente as dividas prescritas. A segunda consiste em acesso aos dados bancários. Nesta questão, é preciso equilibrar interesses nacionais com privacidade pessoal, num complexo processo que se expõe a potenciais abusos. É neste sentido que se propõe um acesso a dados bancários com critérios, a serem definidos por uma comissão que envolva o Estado, o BdP, as associações de defesa dos consumidores e o CNPD. Quando existirem um conjunto de critérios que indiciem risco, pode ser realizado o acesso a todos os dados bancários sem intervenção dos tribunais. Por fim, propõe-se que todos os contribuintes possam descontar no seu IRS uma pequena percentagem de todo o IVA pago e apresentado em factura. Desta forma o consumidor final passará a exigir – porque tem benefícios directos e não indirectos e intangíveis – as facturas de todos os gastos, aumentando a receita do Estado de forma muito superior ao que é desembolsado para motivar os contribuintes. Estas e outras propostas são importantes não só para solucionar em definitivo a imoralidade desta situação, como também para mudar mentalidades e contribuir para um país em que maior desenvolvimento se traduz em melhor cidadania.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Novo Paradigma

O contexto de especulação na área das comodities e em especial do petróleo levou a posições extremadas por parte de variados intervenientes da cadeia logística, chegando mesmo a paralizar parte da europa, com custos muito avultados quer em termos de custos de inactividade quer em termos de perda de vendas por rupturas de stock no mercado.
Destes acontecimentos restira-se a importância de factores logístocos na decisão de como colocar um produto no mercado e não evitam comparações por exemplo entre a Europa e os EUA. Se analisarmos cruamente os números podemos observar uma dependência excessiva na Europa dos transportes rodoviários como forma de distribuição enquanto que nos EUA, o caminho de ferro tem um peso significativo (7,8% na Eu e 23,5% nos EUA - Eurostat). Esta situação resulta de uma política descoordenada e de um desenvolvimento histórico individualizado dos paízes que contituem hoje o espaço Europeu. Só recentement Portugal definiu um plano de transportes integrados em que tenta combinar marítimo com rodoviário e caminho de ferro, definindo os principais eixos de desenvolvimento de cadeia logística do País e a sua interligação com o espaço Europeu.
O que eu queria deixar sobre a mesa é que a pressão sobre os custos energéticos, bem como a crescente consciência ambiental leva a pensar em fontes de energia alternativas que poderão ter impacto na readaptação das capacidades produtivas instaladas. Se a este facto associarmos o novo e crescente impacto logístico podemos estar perto de uma mudança de paradigma, passar da indústria especializada num ponto geográfico com posterior distribuição para toda a Europa, para uma produção mais local com Indústrias mais polivalentes e mais leves.
A implicação fundamental é como estas mudança de paradigma poderá alterar significativamente as decisões de investimento no tecido industrial Europeu. Estará Portugal preparado para responder a este possível cenário?

quarta-feira, 2 de julho de 2008

BCE tenta abrandar comboio

No início da semana a divulgação de uma taxa de inflação de 4,0% na Zona Euro veio reforçar a postura mais agressiva por parte do BCE. Trichet considera que se o banco não agir de forma “decisiva” há riscos de que a inflação possa “explodir”. O presidente do banco central está confiante que a situação possa ser controlada.
O governador Liebscher também afirmou que tudo se fará para evitar uma subida nas expectativas de inflação, ao mesmo tempo que referia que os fundamentais económicos estão positivos. É neste ponto certamente que a maioria dos consumidores europeus discorda, havendo políticos como Sarkozy que não têm qualquer problema de o dizer abertamente. Na opinião do presidente francês, numa altura em que a França vai tomar a liderança da UE por um semestre, não faz qualquer sentido subir taxas, pois tal não evita a subida da inflação e por outro lado condiciona o crescimento económico. O ministro da economia alemão pede aos políticos europeus que não tentem condicionar a actuação do BCE, já tal tende a ser contraproducente. Tendo a Alemanha revelado uma queda do desemprego para o nível mais baixo dos últimos 16 anos, percebe-se que a aflição dos alemães não se pode comparar à de outros países da UE. Um dos casos mais complicados é certamente a Espanha, que reportou mais uma quebra da actividade industrial para os valores mais baixos desde que as estatísticas são divulgadas, tendo o índice caído de 43,8 para 40,6. Apesar de o governo tentar passar a mensagem que o país não está a entrar em recessão, o facto é que uma quebra anual de 30,8% nas vendas de automóveis em Junho aponta exactamente nesse sentido... Pensamos que Trichet estará mesmo preocupado. "Inflação gera inflação" e se este comboio embalar o suficiente será depois muito difícil de travar. O que nos parece é que estes riscos já eram evidentes há mais tempo...

domingo, 29 de junho de 2008

Comunicação 360º

Fala-se muito do envolvimento dos colaboradores com a marca e do seu contributo na entrega da promessa da marca em cada interacção com os clientes. Mas onde andam os orçamentos dedicados ao plano de comunicação interna que acenderá a paixão pela marca? As acções de promoção interna restringem-se à criação de mecanismos regulares de comunicação de lançamentos ou do conhecimento dos produtos e divulgação de acções da concorrência. São mecanismos importantes para que os colaboradores se mantenham actualizados, mas é preciso mais do que mera informação para criar e manter toda a empresa enamorada pela marca. Para fortalecer o relacionamento dos colaboradores com a marca a sua vivência interna deve ser uma preocupação presente desde a génese. Há que combater a tentação de nos deixarmos cegar pelos bons resultados e preparar caminho para que os melhores talentos nos acompanhem numa maré mais fraca, contribuindo para combater a erosão – interna e externa – da marca. Os principais desafios consistem na incorporação dos valores da marca nos comportamentos diários dos colaboradores, no alinhamento coerente entre estes valores e todos os sistemas da organização e na criação de uma consciência colectiva do contributo de cada um para o fortalecimento da marca. Para construir um “exército interno” há que pensar os colaboradores como parte integrante do plano de comunicação da marca, incutindo nas campanhas internas a mesma magia das campanhas publicitárias e desmistificando a ideia de que o marketing interno é um desperdício de recursos que poderiam ser eficazmente aplicados em comissões, aumentos de salários ou publicidade.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Downshifting

Heráclito disse que “a mudança é a única constante da vida”.
2500 anos depois, a frase perdeu valor, porque a mudança já não é apenas uma constante. É uma variável acelerada. Ou seja hoje a própria mudança acontece mais rapidamente. Esta é a nova realidade que tem obrigado as empresas e os gestores que as lideram a assumir cada vez mais responsabilidades, a tomar cada vez mais e mais rápidas decisões, a investir cada vez mais do seu tempo pessoal. Longas horas no escritório, viagens permanentes e noites de fim de semana com planos estratégicos, relatórios de contas e telefonemas sucessivos tem um custo. Um custo que se traduz em tempo, mas que tem consequências nos níveis de stress de cada um e sua família, na qualidade de vida e tudo que lhe está associado. Estas consequências assumem particular gravidade nos gestores com filhos, pela incapacidade de acompanhamento dos mesmos, um factor que não mais será recuperado noutras alturas. Viver pior é hoje uma opção, não uma obrigação. Cada vez mais gestores optam pelo Downshifting, que consiste na troca de dinheiro (menos) por tempo (mais). Trata-se de procurar outro estilo de vida, menos penoso em termos de carga de trabalho e de maior qualidade de vida, associada a uma racionalização no consumo. Não se trata de um movimento radical ou fundamentalista, mas bastante ponderado e evoluído, trocando por exemplo semanas de 60 horas por outras de 35, com um nível de intensidade aceitável, equilibrando vida pessoal com realização profissional, num movimento que ainda não é socialmente bem visto. Agora que o Governo se prepara para legislar sobre a possibilidade de semanas concentradas, convém cada um pensar quais são, realmente, as suas prioridades de vida.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Quando o Mercado Não Funciona

O mercado é um alvo fácil.
Produto da livre vontade de todos os intervenientes, o mercado tende para soluções eficientes e economicamente justas. Os "resultados" não agradam a todos e por isso há sempre quem expie no mercado os seus próprios pecados. Confesso muito desconforto em criticar o mercado.
A forma como os preços do petróleo são fixados já não é eficiente e é essa a principal razão dos movimentos dos últimos meses. Embora se deva reconhecer validade às teses "malthusianas" que apontam para preços do crude mais altos a prazo, não são suficientes para explicar a escalada parabólica dos preços. Os contratos de futuros negociados em bolsa representam uma pequena parte dos negócios de petróleo do mundo, mas servem de referencial para todos eles. Actualmente essa bolsa é particularmente exígua e alguns mecanismos potenciam a subida dos preços per se.
É um jogo viciado que potencia uma "bolha" especulativa. E todos são responsáveis porque os fundos de investimento, pensões, PPR entre outros, estão a "investir" nestas bolsas. Em resultado desta ineficiência na formação de preços estamos perante uma monumental transferência de riqueza para os países produtores de petróleo.
Estima-se que só a Arábia Saudita receba mil milhões de dólares por dia! É dinheiro que sai de quem produz e quem consome para os cofres de países que, em regra, não primam por elevados níveis de democracia, igualdade de oportunidades, tolerância e desenvolvimento humano. Acrescentam muito pouco para além do que tiram do subsolo.
As consequências económicas e geopolíticas são enormes e devem preocupar todos, mas principalmente os responsáveis do mundo livre.
As regras do jogo têm que mudar.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Liberdade

"Ricardo, (...) a fiscalidade directa (para nós, sobretudo IRC e IRS) continua da exclusiva competência dos estados-membros. Não está harmonizada a nível comunitário. O único limite é a igualdade de tratamento entre individuos e empresas da União. E mesmo no IVA (imposto indirecto harmonizado a nível europeu) a taxa principal é escolhida livremente pelos estados-membros. Logo o seu plano quase que não precisaria de passar por Bruxelas."
Comentário (editado) do blogger "Euroliberal" na caixa do post "blindfolded" publicado no Portugal Contemporâneo.

Apenas IVA (*)

O tema da fiscalidade está ao rubro. Primeiro, foi o anúncio de que o Governo reduzirá o IVA em 1 ponto percentual. Mais recentemente, o foco da discórdia tem sido o ISP – cuja redução é exigida por variados sectores da economia. Sem esquecer também a polémica cobrança de IVA em cima do ISP, no que constitui uma flagrante violação aos princípios mais básicos da justiça tributária. A situação actual em Portugal revela que a população está sobre endividada e sem capacidade de aforro. A classe média está, aliás, sob ameaça. Na minha perspectiva, o caminho a seguir, contrariamente ao que as principais forças políticas da sociedade defendem, é uma revolução fiscal. Manter apenas o IVA e acabar com todos os outros impostos – directos e indirectos. Existem no nosso país três escalões de IVA – 5, 12 e 21% - que representam 43% da receita fiscal efectiva portuguesa. Segundo dados do INE, o cabaz de bens e serviços típico das famílias portuguesas é tributado a uma taxa média de 16%. Assim, para manter a receita fiscal constante, necessitaríamos de subir os escalões para os seguintes patamares: 13, 31 e 54%, respectivamente. Mas para não prejudicar as famílias de menores recursos, que tendem a gastar uma proporção maior do seu rendimento em bens de consumo, poderíamos manter o escalão mais baixo inalterado em 5%. E o segundo escalão poderia, também, não aumentar de forma tão drástica. No curto prazo, agravar-se-ia o défice. Contudo, passados alguns meses, essa redução de receita seria mais do que compensada através de novos investimentos e com o reforço da actividade económica.
(*) publicado no jornal "Meia Hora" em 19/06/2008

sábado, 14 de junho de 2008

O Fim Do Comércio Tradicional

Constitui lugar comum tratar-se o comércio tradicional como uma espécie em vias de extinção, uma função em desaparecimento que urge defender. Na verdade e nos países competitivos, o comércio tradicional não faz falta nenhuma. Onde ainda não morreu, morrerá e finalmente subsistirá apenas por excepção, em alguns nichos locais ou simplesmente por tradição. O que não podemos nem devemos é confundir comércio tradicional com comércio de rua. E essa confusão é também tão comum que terá certamente deixado alguns leitores perplexos com o primeiro parágrafo. O comércio de rua é essencial para o desenvolvimento local, tanto em zonas rurais, como urbanas. Perde apenas alguma importância em algumas zonas semi urbanas, casuísticamente. Infelizmente em muitos países dos quais Portugal é exemplo, a maioria do coméricio de rua faz-se ainda de forma “tradicional”, ignorando que o cliente mudou e procura serviços que satisfaçam a suas necessidades, precisa que o façam sentir seguro e confortável, gosta de ser surpreendido e necessita de informação e rapidez. O comércio de rua nacional continua a ser a soma das pequenas partes, sem qualquer tipo de lógica de mix comercial, gestão de horários comuns, acessibilidades, informação sobre outras lojas ou animação, quando não de situações mais graves como garantia de estacionamento, protecção básica contra intempéries ou segurança. Não se pense contudo que é impossível o comércio de rua seguir o exemplo de modernidade que o comércio integrado (armazéns de grandes dimensões multi sectoriais, centros comerciais, “retail parks”, “outlet centres”, etc...) começou a seguir desde há décadas, e o levou onde está hoje. Poderia aqui postular em formas como os comerciantes se poderiam unir; avançar com potenciais medidas que permitissem esse dificil passo; sublinhar a necessidade da intervenção do poder local; alertar para a obrigatoriedade de uma associação, não só de lojistas, mas também de proprietários... Nada disto é de facto necessário. Existem provas vivas de como o comércio de rua pode ser moderno e integrado, no sentido do total ser melhor que a soma das partes individuais. Os três exemplos mais flagrantes, entre muitos, são a Oxford Street, a Regent Street e a Sloan Street, todas em Londres. Desta última, será mais cauteloso não falar. Apesar de ser na prática um excelente exemplo demonstrativo, não considerarei esta meca da alta costura como modelo de gestão a adoptar, para evitar argumentação baseada na excepção da sua própria tipologia. A Oxford Street Association (www.oxfordstreet.co.uk) é um exemplo incontornável de gestão moderna: a associação literalmente faz a gestão da rua, como se um espaço de um único proprietário se tratasse, e sem qualquer poder politico para tal: coordena a animação de rua, recomenda aos proprietários dos edifícios que lojistas são indicados e que mix existe já em exagero ou faz falta à rua, ajuda os lojistas nos licenciamentos municipais, informa os clientes de tudo o que é necessário, coordena as relações com autoridades de transportes e gestão de parqueamento usando o seu lobby fortíssimo em proveito da rua, e mais recentemente tem agentes no mercado imobiliário a obter informações comerciais de natureza diversa, nomeadamente das novas marcas e tendências, para que a rua se modernize a todos os níveis constantemente. Perguntarão quem paga tudo isto? Os próprios lojistas e proprietários, como parece fazer sentido. Existe uma entidade paga por todos que defende os interesses da rua, garantindo assim melhorias individuais. Na essência, as diferenças para um centro comercial moderno, embora existam, são já reduzidas. A Regent Street (www.regentstreetonline.com) vai ainda mais longe: para além de tudo o resto, esta rua tem um logotipo próprio e uma assinatura (“Where Time Is Always Well Spent”). A cereja no topo do bolo são os tapumes colocados nas lojas quando as mesmas estão em fase de obras, onde para além do logotipo e da assinatura da rua se podem ver fotografias das lojas concorrentes na mesma rua, com indicações de como lá chegar. É o mais perfeito exemplo de que comércio tradicional e comércio de rua não são a mesma coisa e podem mesmo ser o contrário um do outro.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O Mundo é Plano

A propósito da actual proposta de revisão do Código do Trabalho partilho a minha perspectiva - alguém com alguma experiência de trabalho por conta de outrem, mas também por conta própria. Embora na discussão de assuntos como este seja imprescindível vestir o papel de cada um dos intervenientes, é essencial, diria mesmo indispensável, ter uma visão mais “helicóptero” sobre o problema. Quando nos propomos a alterar o Código do Trabalho temos que estar abertos à mudança e não simplesmente a meras operações de maquilhagem pois corremos o risco de desperdiçar recursos e não obter resultados.
Esta proposta tem que ser encarada como uma oportunidade. Temos que fazer o match entre o mundo exterior, que nos apresenta ameaças mas também muitas oportunidades, e o mundo interior, ou seja, as “competências” do nosso país e pessoas. Desenhar a melhor estratégia rumo ao sucesso.
Duas coisas parecem claras: atrair investimento nacional, mas essencialmente estrangeiro, deve constituir a prioridade máxima e nenhum gestor dispensa um colaborador com boa performance. E não se julgue que se tratam de palavras de circunstância ou a deixar para segundo plano a segurança e satisfação dos colaboradores. Muito pelo contrário. Uma legislação laboral mais competitiva atrai mais capital estrangeiro, surgem mais projectos, mais postos de trabalho, mais resultados e mais satisfação para accionistas, colaboradores e economia do país. Resultando numa relação win-win-win.
A tão falada e essencial segurança dos trabalhadores aparecerá naturalmente, como um resultado do mérito e da flexibilidade na gestão de uma empresa, que em grande parte resulta de uma adequada legislação laboral e de um grande sentido de profissionalismo. Devemos defender a sustentabilidade da segurança e não somente a segurança do dia de hoje.
O primeiro pressuposto deve ser: O mundo global é cada vez mais plano!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Decidiram-se!

Os bancos centrais parecem finalmente ter mudado o discurso e talvez a sua actuação. Depois de uma primeira fase de reacção à crise do subprime, em que decidiram “ajudar” a economia baixando taxas de juro (FED e BoE) ou mantendo-as quando se justificava uma subida (BCE), as autoridades entraram num período de paralisia, indecisos entre políticas monetárias expansionistas ou restritivas. Estavam assim divididos entre o crescimento e o combate à inflação. O dilema parece ter começado a resolver-se quando os BC’s se aperceberam que estavam a perder ambos os combates. Os indicadores de actividade continuam a deteriorar-se e a inflação não pára de subir. Aliás a subida dos preços pode ainda estar longe do fim. Parece haver alguma concertação entre os bancos centrais neste ataque à inflação. Trichet avisou que as taxas podem subir em Julho, o BoE já há semanas que disse que não voltava a cortar, o Banco do Canadá surpreendeu ontem ao manter os juros e também Ben Bernanke mudou recentemente o discurso. No mercado cambial pode vir a jogar-se muito desta batalha contra a inflação. Se a preocupação central está nos preços e não o crescimento, torna-se muito “útil” ter uma moeda mais forte. Mas os câmbios traduzem valores relativos. Para uma moeda fortalecer outras têm que perder terreno. Para que o dólar suba, o euro tem que descer, o que não vai agradar ao BCE. A concertação entre bancos centrais pode então ficar mais vulnerável já que nem todos os objectivos estão alinhados...

domingo, 8 de junho de 2008

A inflação contra-ataca

Nos últimos quinze anos registou-se uma tendência para taxas de inflação mais baixas, o que permitiu a uma grande fatia da população mundial beneficiar das vantagens de um ambiente em que os preços sobem de forma moderada. A inflação é apelidada por muitos como o "sal" da economia, essencial, mas apenas saudável em "doses" reduzidas.
A Globalização e as Tecnologias de Informação contribuiram em muito para esse cenário. Graças a estas duas forças, indissociáveis, a concorrência mundial aumentou, obrigando a uma maior eficiência e fomentou a especialização e a diferenciação. As taxas de juro desceram, o comércio internacional cresceu exponencialmente e foram "chamados a jogo" milhões de pessoas em todo o mundo, famílias até agora à margem do progresso económico e dos standards de vida ocidentais. Mas neste último ano a inflação iniciou um contra-ataque. O sobre-aquecimento de algumas economias, a diminuição do desemprego, uma natural acalmia nos processos de inovação tecnológica e muita especulação nos mercados das matérias-primas e na sociedade levaram a uma escalada geral de preços. A subida da inflação poderá estar apenas no seu início. Provavelmente chegamos a um ponto de viragem na tendência de abrandamento dos preços. Entre outros inconvenientes uma taxa de inflação elevada é preocupante porque mina a confiança, afectando o investimento e a actividade económica em geral. Prejudica quem tem rendimentos "fixos" como os pensionistas ou, numa outra óptica, os países e empresas pouco inovadores que são incapazes de cobrar preços premium ou de os actualizar. A crise do subprime, a desaceleração registada nos EUA e em alguns países europeus, bem como as pressões governamentais têm "impedido" os bancos centrais de actuar preventivamente na luta contra a inflação. Provavelmente o preço a pagar será bastante alto. Por todos nós.

sábado, 7 de junho de 2008

Against all Odds

Já se tornou redundante postular sobre o imparável crescimento do petróleo e as suas aparentemente nefastas consequências para as populações, nos preços dos transportes e dos produtos, ou discutir os preços de suporte e de resistência, se é que os há. O contrário de todas as probabilidades aparentes, a subida do preço do petróleo é, no longo prazo, positiva. Enquanto o petróleo custava 30 ou 40 dólares, falava-se de energias alternativas / renováveis como um whisful thing, ou um caminho obrigatório no longo prazo para sustentar os negócios e a vida. Sejamos honestos : o mercado só vai trocar o petróleo por outra energia quando uma de duas coisas acontecer: obrigações e regulações que obriguem a tal ou que o petróleo se torne mais caro do que as suas alternativas. A segunda é a única forma natural e sustentável de tal continuar a acontecer no tempo. A subida dos preços do crude para os níveis presentes e a descida dos custos da energia alternativa parecem indiciar pela primeira vez que o planeta vai poder continuar o seu desenvolvimento com humanos em vez de andróides. É por tudo isto que também considero positivo o aumento do preço do trigo e das restantes commodities alimentares, porque tal constitui a única forma não artificial de aumentar o desenvolvimento do sector primário (dado que se torna mais rentável do que actividades substitutas), outro factor crucial à sustentabilidade futura da humanidade. Trata-se ainda de uma nova oportunidade quer para África, quer para países onde o petróleo poderá acabar nos próximos anos. Se as economias forem capazes de criar formas não granuladas pelos regulamentos de continuar o desenvolvimento no curto prazo sem compromisso sério da qualidade de vida das populações, a subida do preço do petróleo e do trigo são factores muito positivos para as futuras gerações, garantias da desejada sustentabilidade.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Oportunidade China

No contexto actual de pressão inflaccionista, crise do crédito em geral e uma desacelaração evidente da economia europeia, começam a surgir as notícias de busca de novos mercados, de downsizing e de agressivas políticas comerciais. Tudo isto me parece demasiado estranho! É como se todos estes processos de melhoria contínua e de procura de diferentes formas de garantir a sustentabilidade não fosse a função dos gestores das nossas empresas. Ao não reinventarmos sistematicamente o negócio/indústria em que nos inserimos, e não possuirmos um mapa estratégico damos os primeiros passos para entrarmos num espiral de destruição de valor consolidado em estratégias comerciais baseadas em preço e não na diferenciação do serviço, produto e relação com o nosso cliente.
Como diz Renée Mauborgne estamos perante um “oceano vermelho”, em que todos fazem “sangue” para competir. Seria mais viável desenvolver uma empresa através da criação de um novo espaço de mercado onde a concorrência se torma practicamente irrelevante - “oceano azul”. É neste contexto que gostaria de deixar um pequeno exemplo de uma empresa do Norte do país na área textil que sofreu forte competição da china através do preço e que reverteu a situação ao conseguir facturar cerca de 70% da sua produção para o mercado chinês. Este sucesso só é possível pelo facto da empresa se ter posicionado apenas na classe de rendimentos superiores da China que não consome texteis chineses. Tenho a certeza que esta receita não é aplicável a todos os negócios ou empresas, mas creio que o conceito de reinventar constantemente o negócio é o fundamento de uma boa gestão. Será que somos capazes de fazê-lo consistentemente? Será que temos o direito de estar no mercado se não o fizermos?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Partidos acima da lei ?

A legislação da publicidade exterior tem como fundamentos a garantia de protecção da paisagem e ordenamento do território, a segurança rodoviária e a cobrança de taxas municipais que ajudem as autarquias nas suas finanças. No entanto, aquilo que parece ser correcto para os privados, não o é para os partidos: estes podem, aparentemente, operar com tranquilidade acima da lei. O que acontece em cada período eleitoral não é só grave, é absolutamente escandaloso. Em vez de darem o melhor exemplo, os partidos políticos unem-se num cáustico exemplo de publicidade exterior, que é absolutamente lamentável e demonstra o grau de cidadania dos políticos nacionais. Nesta matéria, nenhum parece ser um pouco pior: são todos estupidamente maus. Não só nascem outdoors em locais que não são licenciados, como em zonas em que foram proibidos os licenciamentos pelas respectivas autarquias. Noutros casos, ainda piores, os outdoors nascem (plantados como cogumelos) em zonas proibidas pela lei geral, no meio de rotundas, triângulos ou até mesmo em plena estrada, tapando a visibilidade directa em cruzamentos. A cereja no topo do bolo é a sua qualidade: assemelha-se a um triste concurso do mais ferrugento. O que é realmente dramático nesta matéria é que este fenómeno é generalizado e comum. Um mal cometido por todos, que parece não incomodar ninguém em particular. Num congresso a que assisti um proeminente responsável defendia-se nesta matéria, dizendo que “as eleições são excepções”. Notável afirmação de exemplo de cidadania para os agentes de mercado e para o povo em geral. Defendo que o Instituto do Ambiente intervenha nesta matéria, e garanta que os partidos políticos cumpram a lei que eles próprios fizeram, em vez de descredibilizarem este sector de actividade.

domingo, 1 de junho de 2008

Bolhas de Ar e Vento

Aprendemos cedo que a História se repete. Talvez demasiado cedo. Teima-se em não ter memória e a cair quase sempre nos mesmos erros... ou parecidos!
Dizia esta semana um gestor de um fundo de "oportunidades ambientais" (!) que com os preços do petróleo a estes níveis o vento já é competitivo com a geração de energia a partir de combustíveis fósseis, defendendo o investimento em activos relacionados com as energias renováveis em geral, eólica em particular. Mas leia-se um pouco mais fundo: ao que parece é necessário que o mercado da energia esteja caríssimo e "quente" para que o negócio comece a ter viabilidade económica! Ou seja, talvez só com petróleo bem mais alto ($200?) estas empresas possam ser superiormente rentáveis. No final do século passado a euforia das dotcom fez a fortuna de alguns e a miséria de muitos. Ambas merecidas e justas, reconheça-se, porque em mercado puro vende e compra quem quer, tratando-se de um bom negócio para ambos. Deveria parecer estranho a um investidor atento que numa conjuntura de desaceleração económica, inflação em perigosa alta e crise de crédito haja empresas a dispersar urgentemente capital em bolsa. Num testemunho na semana passada ao Congresso Americano, Michael Masters demonstrou que o aumento da procura por contratos de futuros de commodities nos EUA nos últimos anos justifica-se pela entrada em cena de um tipo especial de investidores. Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos o aumento da procura de petróleo pelos Index Speculators foi quase o mesmo da economia chinesa no mesmo período. Não havendo constrangimentos de oferta, o preço só sobe devido a um aumento considerável da procura. Para bom entendedor...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os Tiranos Contra-ASAE

Há não muito tempo atrás havia um país onde o mercado negro reinava sem controlo, a evasão fiscal era um orgulho que se declarava sem pudor e a higiene alimentar não chegava a ser sequer uma miragem, porque a população nem se dava conta na falta da mesma.
Um país onde os que pagavam impostos eram excepções tristes e os que pagavam para comprar músicas legalmente eram considerados antiquados. Um dia, chegaram a esse país entidades e autoridades que decidiram acabar com esse estado de coisas. Dotando-se de melhores ferramentas e sobretudo de procedimentos adequados, iniciaram uma difícil batalha, cujos resultados não tardaram a aparecer. Não demorou muito para que os incomodados desta situação criassem um lobby contra as entidades de inspecção, acusando-as de desgoverno, abuso de autoridade, excesso de zelo, exagero e ainda mais graves situações. Ganhando novo fôlego à medida que os “prejudicados” pelas autoridades de inspecção económica se agrupavam em pelotões, um partido político chegou mesmo a encabeçar a luta - ao estilo sindicato de minorias - iniciando criticas sem fim às acções da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, ignorando os evidentes resultados de melhoria de segurança alimentar e portanto de saúde populacional. Quem conhecia em detalhe esse país antes e depois das acções dos órgãos de inspecção e controlo das áreas referidas, tem consciência que muito mudou, e foi para melhor. É nesse sentido que urge parar com os tiranos dos proveitos próprios, com os eternamente incomodados com organismos que genuinamente se preocupem com a qualidade de vida dos cidadãos e regulação dos sistemas económicos nos formatos e sistemas legislados. Corre-se hoje o risco de perder o terreno ganho pela acção da ASAE, sobretudo entrando em períodos eleitorais, onde a acção firme do Governo tende a ser mais rara. É que se na segurança alimentar os progressos foram enormes – faltando apenas legislação de excepção que permita melhoria de eficácia na gestão de excepções – na inspecção económica há ainda muitíssimo a fazer em defesa de um mercado livre e justo não adulterado pelas fugas de uns e as piratarias de outros. É por isso que alguém tem de dizer basta aos que querem travar a ASAE, a DCGI e as demais entidades que lutam por um Portugal mais evoluído.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Portugal S.A.

Por vezes retenho-me a pensar se os partidos entendem realmente qual a verdadeira motivação para a sua existência. Faz-me mesmo alguma impressão verificar que, muitas vezes, se colocam os interesses partidários e as ideologias adjacentes a estes à frente daquilo que deveria ser o objectivo de todos os intervenientes na sociedade, partidos incluidos, o bem estar comum e o consequente desenvolvimento colectivo do país.
Vem isto a propósito de um artigo que li recentemente, não consigo precisar o autor e onde o li, onde se defendia o fim da ideologia politica. Efectivamente tem-se assistido ao debate em torno da ideia que o PS tem vindo a ocupar o espaço politico genéticamente destinado ao PSD. Esta situação só possível por haver um entendimento geral de que as ideologias politicas, imutáveis desde a fundação dos partidos, de pouco valem no quadro social e globalizante actual. Não é pois de estranhar a naturalidade com que encaramos o facto de ser este o governo que mais medidas ideológicamente conectadas à direita adoptou no pós 25 de Abril. Entretanto o PSD sai em defesa de mais e melhores politicas sociais em detrimento de uma postura económicamente mais liberal que noutros tempos seriam a sua bandeira.Penso, por isso, estarmos a assitir ao definhar do ideal partidário tal como o conhecemos desde sempre.
O futuro não o consigo prever mas arrisco-me a opinar que talvez os partidos venham a ser substituidos por lobbies de interesses, enquanto somos governados por um quadro de gestores, à semelhança de uma grande empresa, cujo objectivo maior seja o lucro da Portugal S.A.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Democracia

Na semana passada teve lugar a tomada de posse do novo Presidente da Rússia: Dmitri Medvedev – o protegido do anterior chefe de Estado Vladimir Putin. Não são esperadas grandes alterações nas políticas do novo inquilino no Kremlin. No mesmo período, também teve lugar um outro evento extraordinário: a visita do Presidente chinês Hu Jintao ao Japão – a primeira visita do chefe de Estado chinês a Tóquio nos últimos dez anos. A Rússia e a China são dois países aos quais não se pode escapar nem ficar indiferente, porque apesar de constituírem ditaduras, representam hoje economias poderosas. De acordo com o “The Economist”, a Rússia e a China apresentam, nos últimos dez anos, uma taxa média anual de crescimento real do PIB de 4 e 9%, respectivamente. Muito superior àquela registada na Europa. No que diz respeito ao “Economic Freedom Index”, um indicador que mede o impacto da intervenção estatal sobre a iniciativa económica e empresarial dos cidadãos, partilham índices semelhantes, próximos da leitura que indica uma economia fortemente reprimida pelo Estado. Este texto não pretende estabelecer qualquer relação entre autoritarismo político e crescimento económico. Não há base que a sustente. Apesar de uma ou outra excepção, como a cidade Estado de Singapura, a verdade, é que a existir relação, a única possível seria entre o autoritarismo e a precariedade económica. Contudo, numa altura em que se discute a emergência da Ásia e de algumas nações africanas, a democracia indirecta, como regime eficaz na concorrência internacional entre países, está sob ameaça.

sábado, 17 de maio de 2008

Compressão

O hoje é a única certeza que tenho”, confessa o João com um olhar despreocupado. Num rápido processo mental, percorro as novas tendências de consumo globais e rotulo-o de hedonista. O João não vota nem acredita na política, mas faz parte de várias comunidades online, onde cria intensas redes de contactos e novas relações. Não se interessa por questões sociais, mas é acérrimo defensor do seu clube e das suas marcas preferidas. Recusa-se a ler notícias, mas é invadido por mensagens ao longo do dia e não sobrevive sem Internet. Não quer construir um plano de poupança, mas agarra as promoções e os saldos, numa selecção racional em que o estilo se sobrepõe aos logótipos.
Para o João, viver tem de ser agora e a paixão é um sentimento intenso, mas efémero. Nada é seguro, nada é para sempre. Constato que, apenas numa década, o tempo sofreu um inegável fenómeno de compressão: tudo é mais urgente e fugaz.
Aperto-o nos meus braços e imagino toda a sua vida pela frente, repleta de pequenas felicidades: vejo-o a descobrir o mundo, a entregar-se à pessoa certa, a embalar o primeiro filho … mas o seu sorriso meigo entrega-me o desejo de viver como se não tivesse amanhã. O mundo é enorme e o futuro incerto, pensa o João. O mundo ao ficar pequeno afastou-nos, penso ao abraçá-lo.
Os mais jovens vêem-se como consumidores passivos de reportagens sensacionalistas, incapazes de encontrar a sustentabilidade das estruturas que montámos, sem ideologias, sem futuro ecológico, talvez mesmo sem nenhum futuro. Que discursos lhes são dirigido diariamente, quando ligam o telejornal à hora de jantar? Que mensagens lhes são atiradas, sem pensar?
Estará o João errado? Não sei… mas algo tem de mudar.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Inflação e PIB - Comentário Flash

PIB:
O Produto Interno Bruto (PIB) real de Portugal subiu 0,9 pct em volume no primeiro trimestre de 2008 face ao período homólogo de 2007, refere uma estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística (INE). Naturalmente Portugal não fica imune ao cenário de desaceleração que afecta grande parte das economias com que relaciona, em especial a Espanha. A Alemanha continua a ser a excepção, pelo que as empresas que estejam mais ligadas a esta economia tenderão a beneficiar. Necessitamos analisar a desagregação do número para retirar conclusões mais válidas, mas é muito provável que as previsões de crescimento para 2008 sejam revistas em baixa. Ainda assim a economia portuguesa devera registar uma performance ligeiramente superior à média europeia. Inflação: O Índice de Preços no Consumidor (IPC) subiu 0,3 pct em Abril último, colocando a inflação homóloga nos 2,5 pct e a média anual nos 2,6 pct, anunciou o Instituto Nacional de Estatística (INE). Os dados da inflação são coerentes com o cenário europeu (a Inflação na zona euro é de 3,3% actualmente). É natural que os preços continuem pressionados em alta em Portugal no médio prazo, à medida que os agentes económicos vão incorporando as subidas dos preços de combustíveis e de algumas matérias primas. Gostaria de chamar a atenção para um clima de alarmismo em torno da evolução dos preços que tem vindo a ser criado sobretudo pela comunicação social. É precisamente esse tipo de clima social que abre espaço a que alguns agentes económicos com mais poder de mercado subam os preços de forma menos razoável, piorando o cenário. Se se disser muitas vezes que os preços vão subir, isso acaba mesmo por suceder e "sobe-se um patamar" do qual já dificilmente se descerá...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Taxas de juro dificilmente descerão...

Tal como esperado o BCE deixou inalteradas as taxas de referência na semana passada, dando a entender que o foco continua a ser a inflação. O mercado já assumiu que dificilmente irá haver algum corte de taxas em 2008, pelo que as taxas forward apenas reflectem essa possibilidade para 2009. Numa entrevista televisiva o presidente Trichet reforçou a ideia que garantir a estabilidade de preços é agora mais essencial que nunca, tendo em conta o choque do aumento dos produtos petrolíferos. A subida do petróleo para cima dos $125, numa fase em que também o dólar recuperou terreno face ao euro, leva a crer que as tensões inflacionistas se manterão nos próximos meses. Do mesmo modo o ministro das finanças espanhol Pedro Solbes também afirmou que vê como muito difícil a possibilidade de descida de taxas este ano. A Espanha baixou um pouco a inflação em Abril, mas ainda assim está nos 4,2% anuais. Gonzalez-Paramo, membro do BCE, referiu que não vê forma de a inflação poder regressar para os níveis desejáveis nos próximos tempos, ao mesmo tempo não acreditando que a actual turbulência nos mercados financeiros possa vir a ter um efeito prolongado na economia. No que respeita aos problemas com o mercado financeiro, que têm impacto directo no diferencial para a Euribor, a situação mantém-se igual. Esta semana foi o Credit Agricole a referir a possibilidade de avançar para um aumento de capital de 5,9 mil milhões de euros, devido a problemas no seu banco de investimento. No respeitante ao mercado obrigacionista, há que destacar a forte valorização dos títulos a 10 anos que pagam apenas 4,0%. No mercado de swaps, esta situação traduziu-se numa redução para zero do diferencial entre 2 e 10 anos, dado que o prazo mais curto continua muito influenciado pelo elevado valor das Euribor. Nos EUA as obrigações também subiram após a divulgação de maus resultados por parte da seguradora de obrigações MBIA. No que respeita a coberturas parece-nos interessante a possibilidade de fixar por um período de 4 a 5 anos com a hipótese de cancelamento ao fim de 1 ano.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Maio de 1968 - Maio de 2008

A revolução de Abril aconteceu seis anos após o que se considera ter sido o movimento social mais relevante do século XX.
A sociedade portuguesa acabou por ser mais directamente marcada pelo PREC do que pelo Maio de 68, mas ficou na memória colectiva do país que se tratou de um exercício pleno, quase soberbo, de liberdade de expressão e de confronto com o status quo.
A acreditar no Vaticano, pela primeira vez na História moderna os católicos não são a religião mais representativa. Representam 17.4% dos crentes, face aos 19.2% de muçulmanos. Nada de extraordinário, “apenas” uma tendência em curso. Mas hoje o mundo está mais atento à islamização da sociedade.

Num excelente artigo de Birand no Milliyet de Istambul, destacam-se as alterações que a sociedade turca tem vindo a registar, um exemplo pertinente do que sucede a um nível mais global. É cada vez mais visível um estilo de vida diferente, que toca em aspectos mais mundanos como o vestuário, discurso, alimentação, mas que ao mesmo tempo tem impacto na política, economia, imprensa e na democracia, até pelo carácter impositivo da “sharia”. À medida que aumenta a influência do Islão, a separação e a desigualdade entre homens e mulheres é mais visível, a comunicação social perde independência, os movimentos laicos são reprimidos e o mercado torna-se imperfeito.

Não se pode colocar em causa a mera liberdade religiosa, mas há que encarar com apreensão a tendência para a existência de sociedades menos laicas e por isso mesmo menos livres.

P.S. – Ao recordar a “revolução” de 1968 não deixo de relembrar um “Maio de 1968” falhado, reprimido e ainda adiado, em 1989 na China.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Networking ou Factor "C"

Do meu ponto de vista são dois conceitos em extremos opostos. O primeiro uma competência a desenvolver de forma estruturada, o segundo um princípio a ser evitado, quando muito um acto de desespero! Os principais responsáveis pela escolha de entre os dois somos nós próprios. Quanto mais desenvolvermos a nossa teia de contactos, menor será a necessidade de recorrermos à “C”, isto porque deixamos de pedir e passamos a partilhar. Quando falamos em networking estamos a referir-nos a uma rede de contactos, pessoais e profissionais, que devemos construir e gerir ao longo da nossa vida – Pais, ajudem os vossos filhos a começar desde logo a criar relações de longo prazo - São um grande capital, são os aliados que nos vão ajudar a enfrentar desafios e dificuldades. Com o objectivo de nos darmos a conhecer e conhecermos os outros temos que estar mais disponíveis e mais contactáveis. Um dia seremos lembrados por um desses contactos, directo ou não. Num mundo em constante mudança onde reina a competitividade, são valores de competição a Empatia, o saber Sorrir e Ouvir, a Sociabilidade e a Actualidade. E o que é isto se não agilizadores do nosso networking? Citando o nosso Grande Fernando Pessoa “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações. O resto pertence ao indefinível mas real, a que, à falta de nome se chama “sorte””. Temos que inspirar nos outros Credibilidade, Simpatia e Confiança e nunca nos esquecermos de SORRIR!

BCE - Determinado ou Indeciso?

O Banco Central Europeu manteve as taxas de juro nos 4%, conforme se esperava, mas Trichet não alterou o discurso oficial de preocupação com a inflação. Muitos analistas esperavam que o BCE começasse a abrir espaço para cortes nas taxas de juro, mas tal ainda não aconteceu. As primeiras palavras de do governador do banco central foram mesmo “os últimos dados confirmam uma forte pressão inflacionista no curto prazo”.

Trichet foi bastante cauteloso na abordagem ao actual momento da economia europeia, escusando-se inclusivamente a comentar a recente revisão em baixa do crescimento feita pela Comissão Europeia, dizendo que em Junho o BCE irá publicar as suas próprias previsões. Ou seja, tentou ganhar “tempo”.

O BCE considera, a nosso ver de forma acertada, que a situação é particularmente multidimensional. De facto a inflação está em alta em toda a zona euro e com tendência a acentuar, quer pela evolução dos preços da energia quer pelas pressões em alta os salários – o que deveria levar o BCE a subir taxas. Mas as economias não estão a “aguentar” e, umas mais que outras, já estão em desaceleração. Até ontem a Alemanha não dava sinais de abrandamento, mas após maus números nas encomendas à indústria os mais optimistas ficaram com certeza preocupados – o que deveria levar o BCE a cortar taxas. E para além da questão dos preços e do crescimento, a crise no crédito mantém-se e obriga o BCE a injectar enormes quantidades de moeda no mercado monetário, o que a prazo potencia inflação.

Perante um cenário que ao mesmo tempo pressiona ao banco a subir e a descer taxas... o BCE prefere ficar inactivo.

Nos últimos dias/semanas o diferencial entre as taxas de juro de swap a 2 anos do euro e dólar tem vindo a diminuir. O mimetismo entre este spread e o câmbio do Eur/Usd continua válido, o que é mais um argumento a favor da estabilização do dólar.

sábado, 3 de maio de 2008

Proposta Revisão Código do Trabalho

No Wishes Book do actual e últimos governos está o conseguir legislar um código laboral assente na tão falada Flexisegurança. Antes de mais temos que saber interpretar o próprio conceito, a designação: flexi – flexibilidade na contratação, requalificação, despedimento dos RH de uma organização por um lado, segurança – essencialmente do ponto de vista dos colaboradores, do e no seu posto de trabalho, por outro lado.
Temos que concordar que é um grande desafio, isto de satisfazer “patrões e trabalhadores” em simultâneo. Um factor crítico de sucesso de uma qualquer organização é o seu nível de agilidade, ou seja, de adaptação a novas circunstâncias, o saber e conseguir atenuar o efeito da crescente volatilidade da procura.
A última e recente proposta de revisão ao código do trabalho prevê algumas medidas que, na opinião dos nossos governantes, deverão ajudar a combater o recurso indevido aos chamados “recibos verdes”, e premiar o recurso a contratos individuais de trabalho (CIT) sem termo, ao mesmo tempo que penaliza as empresas que recorrem aos contratos a termo. Mais concretamente, agravar em 5% a contribuição das empresas para o Estado aquando da utilização dos “recibos verdes” para o regime de prestação de serviços, e no que se refere ao tipo de CIT, contribuir -1% para a Segurança Social quando o contrato é sem termo, e +3% quando este assume a forma com termo.
A meu ver, embora estas medidas apontem para o caminho certo, o seu conjunto não é balanceado, contribuindo mais para a 2ªparte do termo Flexisegurança. Talvez o segredo esteja mesmo na Contratação Colectiva de cada sector…mas muitas vezes a realidade do sector não coincide com a dos seus associados de forma isolada.
Vamos estar atentos às negociações e aos detalhes.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Fashion, not Fad

Não constitui novidade que a moda portuguesa tem conseguido impor a sua marca, o seu estilo, a sua presença, dentro como fora de portas. O “mundo da moda”, os alegados prescritores dos hábitos nas próximas estações, está bem à frente, perto dos líderes mundiais do sector. Um pouco atrás, mas suficientemente perto. No entanto, da moda desenhada até à marca conseguida, da ideia até à produção, do conceito ao sucesso, da prescrição à venda, há um longo caminho a percorrer.
Há uma ou duas décadas atrás, o têxtil português estava no estado em que hoje se encontram alguns dos países de leste, totalmente dependente das grandes marcas mundiais, em regime de pura subcontratação e dependência. Da Marks & Spencer à Ecco, da Donnay à Adidas, as marcas procuravam a mão-de-obra nacional, que juntava um custo baixo a algum know how, sobretudo no Minho e na Beira Interior. Estes eram os dois factores cruciais para as marcas multinacionais fabricarem os seus produtos bem e barato. A entrada na CEE em 86 abriu algumas fronteiras para os gigantes mundiais, que reconheciam em Portugal, para além de mão-de-obra barata, a proximidade necessária aos mercados mais importantes (estrategicamente entre a Europa Central e os Estados Unidos), know how (incluíndo algum conhecimento especifico e diferenciado nas tinturarias), promessa de criação de redes viárias e estruturas base e estabilidade política. Na altura, não havia praticamente marcas nacionais de moda à venda com sucesso, excepto talvez o Grupo Maconde. A realidade socioeconómica começou a mudar, vieram os ciclos e as crises, a entrada de outros países mais competitivos ao nível de custo e deu-se início à fase do crivo: os que simplesmente faliram, os que – depois de se modernizarem e reestruturarem - continuaram em regime de subcontratação e que hoje trabalham para empresas como a Inditex, a Gant ou a Agatha Ruiz de la Prada e finalmente os que construíram as sua próprias marcas, que passaram a ocupar, mês após mês, mais tempo das máquinas outrora semi desaproveitadas, até finalmente darem por terminados os trabalhos de subcontratação, para se centrarem apenas na sua ou nas suas marcas. Este processo deu-se por duas formas distintas – os industriais do têxtil que fizeram as suas marcas de raiz (Impetus, Salsa, Tiffosi, ou Dielmar) e os que as adquiriram no mercado (Cenoura, Acetato). Há ainda os que, à semelhança dos gigantes, se concentram a gerir a marca e a subcontratar eles próprios (Throttleman, Sacoor). Pelo caminho, ficaram outros que tentaram construir as suas marcas tendo como prioridade a alocação dos seus recursos industriais existentes, em vez das necessidades do mercado. O grande desafio para os gestores de marcas de moda, sejam industriais ou não, não se limita a vender muito e consequentemente lucrar imenso: é antes criar um capital perene, que permita estabelecer uma estratégia lucrativa no longo prazo. De notar que tal pode ser concretizado recorrendo a uma aposta em boa presença da marca da roupa (Lion of Porches, Boxer Shorts, Giovanni Galli), ou simplesmente na loja (Dielmar, Dom Colletto, Lanidor). O facto dos hábitos de consumo ligados ao têxtil dependerem cada vez mais da ligação com os previamente referidos prescritores de moda, ou designers de colecções, estilos e sobretudo – mais do que tudo o resto – tendências, assim como das socialmente designadas tribos urbanas (betos, skaters,yuppies,…), faz com que possa existir um efeito de “pico de moda” repentino e momentâneo, que depois tem dificuldade em sobreviver com perenidade. A este efeito, que em Portugal não tem nome conhecido, chama-se no mundo da moda um Fad, ou simplesmente um Craze. Entre as marcas referidas, a maioria viu o seu nome ganhar notoriedade ao longo de vários anos, a pulso. No entanto, há as que sofreram um Fad – a Salsa e a Sacoor nomeadamente. Ambas as empresas souberam, através de uma estratégia de permanente mudança e readaptação, manter-se fora dos habituais precipícios que esperam as marcas saídas de um Fad. A Converse (All Star) ou a Resina são exemplos de empresas a quem isso já aconteceu, na última década. Para tal, é preciso ter uma estratégia de mudança quando se está num dos momentos altos, em vez de fazer durar o mais possível cada sucesso imediato. Saber continuar na moda por muitos e bons anos é hoje o grande desafio das marcas nacionais que souberam habilmente conquistar o seu espaço no mercado.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Impostos

A propósito do post sobre o IRC mais abaixo, esta é a minha opinião.

Milionários vigiados

Decidi iniciar esta minha colaboração no Mercado Puro com um comentário a uma excelente reportagem do Diário Económico, publicada na edição de hoje, acerca dos salários pagos a executivos de topo. O tema foi, aliás, bastante discutido por na passagem de ano quando o Presidente da República alertou para o problema da assimetria remuneratória existente entre gestores e funcionários. Na altura, escrevi um artigo com a seguinte conclusão: em Portugal os salários dos executivos, em termos relativos, são de facto bastante elevados e acima da média europeia.
Pois, hoje, o DE volta à carga com as últimas estimativas referentes aos salários dos administradores das empresas do PSI20. Gente como Ferreira de Oliveira da GALP, Zeinal Bava da PT ou António Mexia da EDP. Há números e métricas para todos os gostos. E notas explicativas que justificam certos montantes auferidos. Por exemplo, da leitura do artigo ficamos a saber que os accionistas da PT decidiram premiar a vitória dos seus administradores na OPA contra a Sonae e que, em função disso, cada administrador levou para casa 2,6 milhões de euros. Ao invés, na Sonae, a alteração do conselho de administração na Sgps resultou no pagamento de nove milhões de euros em prémios. O indicador que, pessoalmente, mais apreciei foi a remuneração avaliada em função dos lucros obtidos por cada empresa. Assim, a respeito de Ferreira de Oliveira, pude confirmar que é o gestor mais eficiente da praça portuguesa. Por cada euro recebido pelo conjunto dos administradores da Galp, a empresa ganha em média 1500 euros. No campo oposto está a Soares da Costa, quiçá, ainda a sentir a crise no sector da construção.
Há, contudo, um aspecto que merece ser sublinhado: as remunerações dos gestores baixaram cerca de 12% face ao ano anterior, comparado com a redução de 2% nos lucros das empresas do PSI20. Ou seja, a redução nos salários dos administradores foi mais do que proporcional à diminuição registada na performance global das empresas que presidem. Como não acredito que este facto se deva a um eventual espírito mais solidário e altruísta dos gestores, só pode resultar de outra coisa: maior controlo e supervisão dos accionistas que os nomeiam. E assim se rege o mercado.

Estratégias Karaoke

Numa recente entrevista, Sara Tavares revelou estranheza pelo facto dos portugueses continuarem a associar a sua imagem ao “Chuva de Estrelas”, um programa de imitação, depois de todas as suas criações que foi desenvolvendo ao longo do tempo. Com mágoa, a cantora afirmou que os portugueses dão demasiado valor à imitação e muito pouco valor à criação.
Esta realidade estende-se à forma cultural como, nos diversos domínios, se encara essa palavra da moda que dá pelo nome de inovação. A inovação tem sido tão falada e discutida, que faz mesmo parte da própria missão de muitas empresas. Empresários, gestores e administadores procuram cada vez mais imbuir as empresas num espírito de inovação constante, fazem brainstormings do tema e formam-se em pós graduações de todas as naturezas associadas ao tema. E, contudo, associam inovação a algo que pode ser descrito como “estar sempre associado às últimas tendências de mercado e procurar ter as mais recentes soluções disponiveis no mercado”. Infelizmente, isto não é ser inovador. É ser moderno, ou – em alguns casos – é apenas estar na moda.
Há muito muito tempo que se descobriu que num ambiente competitivo intenso como é o mercado globalizado onde vivemos, não é suficiente ter o mais baixo preço beneficiando das melhores economias de escala e optimizações de cadeia de valores, porque haverá sempre alguém noutro ponto do mundo que será capaz de fazer o mesmo a um preço menor. Foi mesmo há muito tempo que se percebeu que só através da diferenciação que se poderia criar valor para os clientes, que então estariam dispostos a pagar um valor um pouco superior pelo bem ou serviço em causa, fruto da sua diferenciação e unicidade. Ora a referida e supracitada noção de inovação nada traz de diferenciação - pelo contrário, acaba por tornar as empresas, os seus bens e serviços e mesmo a sua imagem cada vez mais igual, e indiferenciado.
A inovação que será sinónimo de sucesso para as empresas é a da criação de novas soluções, aproveitando potenciais oportunidades de necessidades ainda latentes nos clientes ou futuros clientes. É exclusivamente através da criação (esta sim, a “buzzword” mais importante) de novas soluções que uma empresa se destinguirá de todas as demais, diferenciando a sua oferta e produzindo valor acrescentando para os clientes.
No entanto, todas as inovações desta natureza, caso tenham sucesso, tendem a ser rapidamente copiadas pelo mercado (excepto se as barreiras à entrada forem demasiado altas – patentes, investimento em equipamento, know how especifico, etc), pelo que a única forma de as empresas conseguirem viver neste ambiente é desenvolvendo programas de constante inovação, sendo mais ágeis, rápidos e eficientes do que os seus concorrentes. E os seus concorrentes não são necessariamente as outras empresas do mesmo sector. Há dúvidas da razão pela qual Pinto da Costa e o anterior Bispo do Porto queriam encerrar o comércio ao Domingo? A razão é evidente - o comércio é concorrente de pessoas nas igrejas e no estádio, porque tem em muitos casos associação a lazer. “Marketing Myopia”, by Theodore Levitt... É preciso conhecer qual é o mercado e assim percepcionar realmente os potenciais concorrentes, estando sempre um passo à frente. Para que a empresa tenha este espírito empreendedor, é preciso que os estrategas não sejam abafados pelos tecnocratas, que os criadores não sejam limitados pelos administrativos. É preciso que – mesmo tendo em conta orçamentos e outras limitações de partida que balizam o ambiente – sejam os departamentos mais próximos dos clientes ou potenciais clientes a liderar a estratégia, em vez de viverem para servir departamentos financeiros, juridicos ou administrativos
Essencialmente, é necessário que os gestores tenham consciência de que inovação apenas por incorporação de conceitos recentes no mercado não acarreterá mais valias para os seus clientes e por consequência para a própria empresa, sendo necessária uma estratégia contínua de inovação por criação de novas soluções para realmente fazer a diferença.