quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mentir com números

Uma das primeiras coisas que se aprendem nos cursos de informática é a distinção entre dados e informação, onde estes são dados propriamente tratados. Infelizmente, essa distinção poucas vezes é feita quando o assunto são estudos estatísticos, onde simples dados numéricos são apresentados como factos, sem qualquer contexto ou laço com o mundo real.

As estatísticas recentemente publicadas, que indicam que os ouvintes que mais utilizam o download ilegal são os que mais compram, não dizem nada de novo. São o mesmo que dizer que os amantes de carros são os maiores compradores das revistas sobre o tema. Não pode surpreender ninguém que os mais interessados numa área sejam os mais dispostos a investir dinheiro nela.
Da mesma forma, é inconcebível poder levar a sério os números apresentados pela indústria quando tenta equiparar um download ilegal a uma venda perdida. Não é honesto apresentar os compradores de formatos não digitais (como o vinil), mas que mesmo assim querem algo para ouvir no leitor de MP3, ou os que de facto compraram determinado álbum mais tarde na mesma coluna dos "saqueadores" compulsivos. No entanto, isso nunca impediu as editoras de combinar projecções de venda irrealistas com números de downloads ilegais tirados de uma cartola para justificar os seus males.
Apesar de serem um bom tema de conversa, estas estatísticas reflectem pouco mais que o ponto de vista de quem fez o estudo. Estará afinal o copo meio cheio, ou meio vazio?

Luís Silva crítico musical

Publicado no jornal Metro de 18 de Novembro

domingo, 15 de novembro de 2009

PuraMente #33 - "FREE"

Nome: FREE

Autor: Chris Anderson

Data Original : Julho 2009

Frase: “People are making lots of money charging nothing”

Keywords: Free; Marginal Cost; Freemium; Piracy; Freeconomics; Nonmonetary markets

Apreciação: *****

Depois do êxito de “The Long Tail”, Chris Anderson regressa em grande com “FREE – The Future of a Radical Price”, candidato natural a livro do ano, na esfera dos negócios.

O livro aborda a economia do “grátis” de uma forma inovadora e consistente, explicando como tantos negócios se tendem a fazer em torno de pricings nulos com rentabilidades interessantes.

A obra sistematiza 4 diferentes formatos de gratuito : “direct cross-subsidies”, “three party market”, “freemium” e “nonmonetary markets”. O primeiro modelo é o tradicional (ex: promoção “2 por 1”); no segundo junta-se um terceiro que subsidia totalmente o custo marginal da transacção – um exemplo clássico é a rádio, gratuita a troco de investimentos em publicidade; o terceiro é o modelo mais explorado no livro e consiste em ter a esmagadora maioria dos clientes com um serviço gratuito enquanto uma pequena minoria o paga – portanto uns clientes subsidiam os demais - , com base em limites estabelecidos no serviço gratuito, como limitação de tempo, dimensão, velocidade, abrangência ou tipo de cliente; o quarto representa um mercado não monetário, onde blogs e wikipedia são um bom exemplo – o acesso gratuito deve-se ao facto de milhões de pessoas estarem dispostas a produzir sem incentivo financeiro, sendo compensadas com notoriedade ou reputação.

Free constitui um milestone na nova abordagem aos mercados, com uma sistematização economicamente consistente – a escassez e a abundância suportam a razão em grande parte dos capítulos – e detalhadamente explicitada. O autor não deixa de explorar a diferença entre o físico e o digital (atoms & bits), estudando as diferenças, importantes sobretudo na qualidade do produto e no

custo marginal.

Uma obra absolutamente obrigatória.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

PuraMente #32 - "Green to Gold"

Nome: "Know-How"

Autor: Daniel Esty e Andrew Winston

Data: Outubro 2006 Yale University Press

Frase: "Empresas inteligentes conquistam vantagens competitivas através da gestão estratégica dos desafios ambientais"

Palavras Chave: "Green Wave"; "Eco Advantage"; "Environment lens"; "Natural Capital"

Apreciação: ****

"Green to Gold" está presente em quase todas as listas de leituras recomendadas, sobretudo nos cursos de pós-graduação em gestão ou estratégia. Trata-se, por isso e pelos temas abordados, de um "best seller" quase obrigatório. A capa do livro é muito esclarecedora quanto ao conteúdo: "Como empresas inteligentes utilizam a estratégia ambiental para inovar, criar valor e construir vantagens competitivas". O objectivo dos autores é fazer a ponte entre os mundos da preservação do planeta e da estratégia empresarial, sempre com um tom realista; ou seja, considerando que a moral e os valores são importantes, mas não totalmente imperativos. A orientação e necessidades do negócio têm primazia e por isso a preocupação com o ambiente é estratégica.

Actualmente "Green to Gold" já não é tão inovador como em 2006. Muito mudou desde então e os argumentos de marketing ambiental já são "mainstream". A meu ver, esse facto não retira interesse ao livro, pelo contrário. O número de pessoas que precisa de o ler livro aumentou, já que a interacção entre ambiente e negócio é agora uma realidade e não apenas uma aspiração. Por outro lado, o leitor já pode analisar os conceitos e estratégias propostos de uma forma mais madura e até com conhecimento de causa.

Após uma introdução pertinente, o livro apresenta-se em quatro partes: "Preparando um mundo novo", "A construção de eco-vantagens", "O que fazem as empresas-líder" e "Juntando tudo". Considero que as duas primeiras partes, mais conceptuais, são as mais interessantes e enriquecedoras. O 12º capítulo descreve as ideias e frameworks do livro, sendo escrito como se de um artigo para uma revista de gestão se tratasse.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado em 8 de Setembro de 2009 no Jornal de Negócios

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Manifesto pelo talento

Foto: Luís Ferreira
Distraídos com “fait-divers” de uma enferma classe política que já provou não merecer atenção, esquecemos o essencial. Vencer a guerra pelo talento é determinante para Portugal: promovendo a excelência, o arrojo e a persistência; combatendo, implacavelmente, a mediocridade, a preguiça e o facilitismo.
Em tempos de crise mais do que nunca, o talento é matéria-prima preciosa. Promove a capacidade de adaptação, facilita a assertividade na tomada de decisão em situações de elevada incerteza, e possibilita ágil condução em momentos de complexa mudança. Não resolve o futuro, mas facilita o sucesso.
Consequentemente, não é de estranhar que exista uma guerra pelo talento. Não só empresas ou organizações, mas também cidades, regiões e países, querem ter o melhor talento disponível. Enquanto a procura cresce, Portugal vê sérias dificuldades para atrair e reter talento. Num país sem horizonte de longo prazo, sem consistentes apostas e estímulos, com excesso de politiquice, burocracia e corrupção, cansa labutar, desgasta combater as adversidades e penar por genuínas oportunidades. Não espanta que o sucesso de tantos seja lá fora…
Assim, para além do imoral défice orçamental, do explosivo défice externo, debatemo-nos hoje com um aflitivo défice de talento. O futuro torna-se incerto num País que não valoriza talento. Urge inverter esta situação – mobilizemo-nos!

Publicada no Jornal "METRO" em 11-Nov-09

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As lições do Pinho, de Pepe e do Padre



Há umas semanas atrás, o padre de Covas de Barroso foi detido por posse ilegal de 16 armas, entre pistolas, revólveres e caçadeiras, munições, engenhos pirotécnicos e pólvora.  O caso dá que pensar, porque o acesso às armas potencia o acontecimento de tragédias, como as que sucederam nos EUA na semana passada.

Momentos de desespero podem surgir do nada. Quando o jogador Pepe fez um penalty perto do fim do jogo, compreendeu que um golo do Getafe colocava o Real Madrid fora do título. Entrou em desespero, pontapeou o adversário várias vezes e quase agredia o árbitro. Na Assembleia da República, Manuel Pinho faz os célebres "corninhos" à bancada do PCP. Esgotado, física e mentalmente, sentiu-se injustiçado e cansou-se de ouvir as provocações em surdina de Bernardino Soares, um deputado que nunca faz parte da solução. Pepe e Pinho sucumbiram à pressão e perderam a cabeça, felizmente sem uma arma à mão. Pediram desculpas, foram "castigados", mas as consequências não foram realmente graves.

Pensemos agora no médico que matou na semana passada 13 colegas na maior base militar dos EUA no Texas. Ou em Jason Rodriguez que na 5ª feira expressou o seu desepero pela situaçao de desemprego da pior maneira, matando uma pessoa e ferindo outras cinco. O que fez a diferença, pela negativa, nos casos americanos não foi a cultura. O desespero é sempre o mesmo, mas o contexto e o acesso à armas é que podem transformar uma explosão emocional numa tragédia.

Imagine-se, se um dia o padre Fernando Guerra entra na missa revoltado... e de caçadeira!


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 26 de Outubro de 2009



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um Natal Feliz, Apesar da Crise

O início da época de Natal, suscitou-me a interrogação, “Como será o Natal num ano de Crise?”; e a positiva conclusão de que vai ser “Feliz”. O cérebro humano busca coerência e prazer, por isso, quando o deixamos fazer o seu trabalho; isto é, quando mesmo nas piores vivências procuramos ou deixamos que ele procure os efeitos positivos que sempre se podem tirar de qualquer experiência humana, podemos viver, na crise, momentos de elevada riqueza emocional. Na actualidade o Natal é um equilíbrio entre a componente emocional (sua verdadeira origem) e a componente consumista (fruto da dinâmica de Mercado). Obviamente que em tempos de crise, para uma igual satisfação, teremos de privilegiar a componente emocional, ou seja, atendermos mais aos aspectos elementares e fundamentais da dimensão social; a vida em família e amigos enquanto elemento crucial da condição humana. Esta realidade tem uma dupla vantagem, pois para além da felicidade natalícia, reincorpora com um peso maior; talvez o adequado; a dimensão emocional, social e humana da Sociedade; relativizando a dimensão económica que, sem hipocrisias, é importante; contudo tem assumido uma preponderância às vezes selvática e desprovida de princípios e valores; facto que aliás está na raiz desta crise. Vivamos um Natal emocionalmente rico e recuperaremos forças que contribuirão para o fim da crise. António Jorge Consultor em Estratégia Marketing e Vendas Publicado no Jornal Metro de 4NOV09

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Prioridades trocadas (*)

Nos últimos anos, quer o Governo quer a Presidência da República têm apontado o crescimento das exportações como a panaceia para os nossos males. Infelizmente, Panaceia – a deusa da cura – só houve uma e apenas existiu na mitologia grega. Em Portugal, o crescimento das exportações, podendo ajudar a atenuar alguns dos nossos problemas, em particular o défice comercial, não resolve, por si só, os desequilíbrios macroeconómicos evidenciados pelo país. Porque, de acordo com a OCDE, das nossas exportações, que representam cerca de 30% do PIB, quase 40% resulta da incorporação de bens previamente importados do estrangeiro! Portugal é hoje dos países mais endividados de toda a Europa. No sector privado, a dívida conjunta das empresas e das famílias corresponde a 150% do PIB. Quanto ao Estado, o endividamento público caminha para os 80% do PIB. Ao mesmo tempo, a nossa economia é das que tem evidenciado menor crescimento da produtividade (apenas 0,5% ao ano nos últimos oito) e maior aumento dos custos unitários do trabalho (um incremento de 20% face à Alemanha desde a introdução do euro). Estes sim, são alguns dos nossos verdadeiros problemas e que resultam da rigidez reguladora do nosso país, cuja resolução, curiosamente, está, na generalidade dos casos, ao alcance do Governo. Muito mais do que essa tarefa voluntariosa, mas hercúlea, que é a de tentar encontrar mercados para as nossas exportações pouco competitivas. (*): artigo publicado no jornal “METRO” a 2 de Novembro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Outro Sexo

Um dos temas de crescente discussão nas mais importantes universidades do mundo e nos seminários de gestão avançada pela sua relevância no mundo empresarial norte-americano e com importantes consequências sócio-afectivas, relacionais e de desempenho nas equipas,é a mudança de sexo de um colaborador. Em Portugal o tema pode parecer tabu ou mesmo surreal, mas em breve poderá vir a ser uma realidade para a qual os gestores têm de estar preparados.
Poucas empresas planearam estes processos de transição de género. As principais questões que os gestores se põem são: Trata-se de um assunto do foro médico ou moral? Trata-se de um tema em que o enfoque deve ser o cumprimento da lei ou de normas éticas? De que forma esta questão afectará os demais colaboradores, o ambiente de trabalho e sobretudo o relacionamento com os clientes? Que passos devem ser dados no longo processo de transição? Como gerir aspectos práticos como a utilização de WC´s? Existem questões religiosas que possam gerar conflitos graves? Está desenvolvido um mercado de coaching para este tipo de situações?
O que parece certo é que a empresas se devem antecipar, preparando-se para situações desta natureza antes que elas se concretizem. Por outro lado, parece consensual o facto de se tornar necessário planear com o colaborador a melhor forma de comunicar a decisão e de gerir o processo de transição, uma vez que são de esperar barreiras e resistência por parte de colegas, fornecedores e clientes.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Preços Negativos

Nos últimos anos, instalou-se nos mercados uma tendência de produtos low cost, que oferecem menos serviços mas não necessariamente piores serviços a um preço muito inferior ao do mercado. Estes preços fazem com que mais e mais pessoas comprem esses produtos e serviços, e assim se construa uma economia de escala que sustenta esses peços muito baixos. Paradoxalmente, é neste formato de low cost, quando bem gerido e com uma dimensão de mercado suficiente, que as empresas que trabalham os mercados de massas estão a ganhar dinheiro.
Ao low cost juntou-se mais tarde o no cost, que se baseia na comercialização a preços nulos.
O no cost será um novo standard de mercado, que veio para ficar e marcará as próximas gerações de forma decisiva. Enquanto este modelo conquista os mercados, um outro, mais ousado, ganha forma: preços negativos. Ninguém se deve admirar se em breve algum canal de televisão pagar aos consumidores para verem os seus conteúdos ou um site a pagar a cada unique IP adicional – ou ainda algum grupo de música pagar uns cêntimos por cada download, sabendo que algum sponsor de bebidas, portáteis ou leitores de mp3 lhe paga em posicionamento tanto mais, quanto maior for a sua largura de banda de ouvintes.
Os preços negativos surgirão em mercados onde o grátis se tornar standard, como forma de diferenciação. Neste posicionamento, como no modelo no cost, é necessário saber comunicar de forma muito cautelosa e eficaz, de forma a manter a credibilidade e atrair os clientes alvo e não demais.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Mises" en scène



O economista Ludwig von Mises disse em 1944  que "para uma expansão sólida da economia é necessária uma quantidade adicional de bens de investimento e não apenas dinheiro e outros meios financeiros". A frase e tão actual que parece ter sido escrita há cinco minutos.

É fácil perceber que a economia se comporta de forma inevitavelmente cíclica. A uma fase positiva, de expansão, segue-se outra negativa, de recessão, e a quantidade de moeda disponível vai assumindo um papel central em toda a dinâmica. Governos e bancos centrais, defensores da teoria do crescimento endógeno, injectam "dinheiro" nas alturas de maior dificuldade, com o objectivo de inverter o momento mais negativo do ciclo. É isso que tem sido feito desde há um ano, resultando em taxas de juro baixas e muita moeda a ser emitida. Mas, mesmo com esses estímulos, o que se observa é uma enorme dificuldade em o investimento arrancar fora dos mercados financeiros.

Ao que parece não existe muita vontade por parte dos investidores, o que se compreende dadas as muitas incertezas. Mas o problema maior parece estar do lado dos bancos. Não emprestam, nem querem emprestar. A liquidez do sistema bancário é maior do que há um ano atrás, mas os bancos estão mais interessados em investir nos mercados de capitais, gerando comissões e valorizações, do que em conceder empréstimos. Percebe-se, porque o risco é alto, mas o velho economista Mises tem toda a razão.

O risco de colapso pode ter passado, mas sem investimento "a sério" a economia não sobe degraus..


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 26 de Outubro de 2009



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Olha quem vende!



A valorização registada pelas acções nos últimos meses está a voltar a atrair os pequenos investidores, agora menos assustados com a possibilidade de um colapso da economia. Mas a subida de mais de 50% dos índices, com muitas acções a duplicar de cotação, e a vaga de novos vendedores que está a chegar aos mercados, devem servir de aviso.
 
Nas bolsas encontram-se a oferta e procura de acções. A maior parte da atenção dirige-se às empresas que já estão cotadas, mas talvez não fosse errado estar atento às que entram pela primeira vez no mercado e o que isso pode significar. É verdade que na bolsa portuguesa ainda não recomeçaram as operações de abertura de capital, mas o mesmo não se verifica internacionalmente, nomeadamente nos Estados Unidos.
 
Quem coloca as empresas no mercado são os proprietários iniciais. Trata-se da venda de parte do seu património. Há algumas vantagens para uma empresa em estar cotada em bolsa, nomeadamente ter mais visibilidade, tornar o valor mais transparente e ter acesso a financiamento. Mas só vende quem acha que o preço é atractivo e está a fazer um bom negócio. Ainda estaremos no início deste processo de abertura de capital por parte das empresas, mas não deixa de ser o primeiro sinal de alerta aos investidores, o que se acentuará quando surgirem as operações de fusões e aquisições. 
 
Há quem seja mais optimista e considere que algo se terá aprendido com a crise financeira. Mas, como já se tem escrito, "Wall Street será sempre Wall Street" e não há que estranhar os novos exageros que o futuro continuará a trazer.


Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 16 de Outubro de 2009



quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Reabilitação Urbana

O conceito de reabilitação urbana surgiu na Europa na década de 70. Num quadro de crise económica caracterizado por uma decadência urbana e, particularmente, de censura ao modelo de crescimento e aos programas de intervenção de constante expansão.
No Porto, este conceito surge mais tarde, associado à (re)valorização das áreas mais antigas da cidade e do centro histórico.
Hoje é consensual e reconhecida a utilidade de actuação neste âmbito integrando os discursos, social, técnico e político, como é possível comprovar na campanha eleitoral autárquica.
Todavia não surgem propostas nem iniciativas com impacto no actual estado de degradação da edificação urbana.
Considerando o quadro conceptual e legal, e exemplos diversificados de algumas experiências que vêm sendo desenvolvidas, terá de ser encontrada uma nova fórmula que sirva de incentivo a investidores e a quem deseje morar numa zona central da cidade.
A inevitável aposta na reabilitação, com raras excepções louváveis, tem vindo a ser adiada por ser complexa e por exigir o encontro de diversas perspectivas.
Algo que nascesse de uma congregação de interesses entre; Associação de Inquilinos, Ordens Profissionais (Arquitectos e Engenheiros), Associação de Construtores, Associações de Promotores Imobiliários e os inevitáveis Bancos, poderia conduzir a uma solução que servisse o mercado.
Publicado no Jornal Metro em 09-10-2009

A Diferença está nas Pessoas

Numa época em que a informação flui on-line, as empresas dificilmente conseguem vantagens e diferenciações suportadas em tecnologia. Na Era Industrial da Economia, os equipamentos e maquinaria faziam a diferença entre empresas; ditando quem vencia e quem era derrotado. Hoje o tempo que leva a copiar uma vantagem adquirida por via de um determinado equipamento ou maquinaria, não passa de alguns meses ou, no máximo, um ano; isto é, se uma empresa inova, por exemplo, através de uma nova embalagem; não demorará muito tempo até que o seu concorrente possa ter uma embalagem igual ou semelhante. Estamos assim na Era do Primado das Pessoas; uma vez que é através destas, do seu conhecimento e da forma como se relacionam que é possível obter uma vantagem competitiva difícil de copiar, pois as pessoas e o ambiente por elas gerado é único. Para obter esta vantagem competitiva a empresa tem de recrutar bem, lançar desafios constantes aos colaboradores por forma a permitir a sua satisfação e realização e ainda, por via da liderança, de criar as condições de cultura empresarial e de relacionamento interpessoal propicias à realização de tarefas e actividades mais inovadoras e produtivas que as da concorrência. A diferença estar nas pessoas é uma boa notícia, uma vez que nos valoriza e torna inquestionável o investimento na nossa formação. António Jorge Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas Publicado no Jornal Metro em 14 de Outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Cuidado com os juros baixos...


Há cerca de um ano os bancos centrais de todo o mundo começaram a baixar os juros para mínimos históricos. A medida, tomada para impedir o colapso do sistema financeiro, tem também ajudado os consumidores, empresas e até os governos a enfrentar a conjuntura de crise económica. Mas, até quando?

Em Portugal, a descida da Euribor tem ajudado as famílias com crédito à habitação. O impacto é tal que, mesmo num contexto de crise e desemprego, o rendimento disponível parece estar a aumentar. Não admira. Nos últimos anos, os portugueses endividaram-se para além do recomendável e, por isso, esta "folga" nota-se bem no orçamento familiar.

Mas podem surgir dificuldades a partir de meados de 2010. O BCE começa a demonstrar alguma preocupação com os défices dos governos, a alta das bolsas e a formação de novas "bolhas" especulativas. Ou seja, está alerta quanto aos riscos de inflação no futuro e pronto a agir. Provavelmente o Banco Central Europeu apenas alterará as taxas de referência daqui a um ano, mas as Euribor podem começar a subir mais cedo.

Os portugueses adaptam-se de forma demasiadamente fácil a condições favoráveis, que incorporam como permanentes. Por isso será difícil voltarem a confrontar-se com juros a níveis mais "normais", a 2% ou 3%. Face às taxas actuais, estamos a falar de duplicar ou triplicar os juros. Como a economia, o mercado de trabalho e os salários não deverão estar muito melhor do que agora... há que ter cuidado!

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 21 de Setembro de 2009



sábado, 10 de outubro de 2009

Subsídio dependência

Nos últimos dias, Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto e candidato à reeleição, afirmou-se contra a cultura de subsídio dependência preconizada e incentivada pelo Governo de José Sócrates. Uns dias antes, também no Porto, teve lugar a apresentação do novo livro de Medina Carreira – porventura, a figura pública mais céptica acerca do destino do nosso país – cuja tese principal se desenrola em redor dos seis milhões de portugueses que recebem ajudas do Estado. Enfim, as críticas estão em crescendo porque cresce também a opinião de que, em muitos casos, a atribuição de subsídios se faz entre aqueles que, simplesmente, não querem trabalhar. Ora, para se redistribuir riqueza, é necessário que esta exista – como aponta, muito bem, Medina Carreira. Porém, dada a situação do país, que todos os dias se endivida e todos os dias perde competitividade, é crucial que os mecanismos da Segurança Social protejam quem deles realmente precisa, sem cair no erro de criar um sistema que incentive ao ócio. Portugal tem hoje três e meio milhões de reformados e uma estrutura etária que, dia após dia, envelhece progressivamente mais, diminuindo o peso da população activa. Por isso, são aqueles pensionistas que mais devemos atender. Quanto aos demais, aos subsidiados que estão em idade de trabalhar, é crucial que a fiscalização seja leonina, para não cheguemos ao dia em que não exista nada para ninguém. Cuidado: o Estado social não é um buraco sem fundo! Há limites para tudo.
Publicado no jornal "METRO".

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Votar não é para todos



A tese do "divórcio" entre os portugueses e a política parece reforçada com 40% de abstencionistas nas legislativas - um "aumento" face aos 35.8% de 2005. É uma ideia discutível porque, em Portugal, votar não é para todos e o processo não se encontra bem organizado.

No domingo passado votaram cerca de 5,7 milhões de eleitores. Em 2005 foram apenas mais 50 mil. A taxa de abstenção subiu, mas por outros motivos:

- Os cadernos eleitorais contêm muitos eleitores "fantasma". Portugueses que já faleceram, ou que já não residem em Portugal e imigrantes. Há distritos, como Vila Real e Bragança, com mais eleitores que habitantes. Aliás, estão inscritos 9,3 milhões de eleitores, mas estima-se (INE) que haja em Portugal apenas 8,6 milhões de adultos.
- Há cada vez mais cidadãos deslocados, dentro do país ou no estrangeiro. Trabalhadores, estudantes, indivíduos em trânsito, doentes ou de férias, que estão privados de exercer o seu direito porque o país não lhes oferece as condições de o fazer.
- Os métodos de votação para internados, emigrantes, militares são difíceis de utilizar e há recenseados automaticamente que não sabem que podem votar.
É delicado alterar procedimentos eleitorais, mas o assunto é pouco explorado porque o número de eleitores tem influência nos mandatos por distrito e no orçamento das juntas de freguesia.

Votar é difícil e é um privilégio. Há que estar bem de saúde e ter as condições, até financeiras, de poder deslocar-se à freguesia de recenseamento, naquele dia, àquelas horas.
Não é para todos..

Filipe Garcia
Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros
Artigo publicado no jornal Metro em 1 de Outubro de 2009



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Novos Nómadas

É estonteante como a internet nos invadiu. Primeiro, entrou devagarinho em casa; depois, acelerando para conteúdos e interesses alargados, com uma massificação sem precedentes, ocupou os espaços públicos até chegarmos ao sempre presente estado “on line”.
Num mundo dinâmico, novas realidades despontam. Inquéritos recentes mostram que os acessos sem fios à internet já ultrapassam as ligações convencionais, ao mesmo tempo que contam duas em três pessoas com telemóvel que acedem a dados nos seus equipamentos (contra uma em quatro, há 3 anos). Na mesma linha, engorda a fatia de “smart phones” nas compras de telemóveis; nas novas opções, cada vez mais impera a internet móvel, com acesso integrado no portátil, em detrimento das ligações com fios.
Parece consolidar-se a ideia que desponta uma nova era – a da internet nómada. Neste contexto, de direcção e velocidade de transformação indeterminada, que novos trilhos se vislumbram? Será que os conteúdos, as interacções e a estrutura da internet que conhecemos migram, pura e simplesmente, para este mundo global sem fios? Será que os principais actores (redes móveis, sistemas operativos e equipamentos) têm capacidade para aproveitar todo o potencial de negócio que o novo conceito descobre, em muitos casos disruptivo face às suas actuais cadeias de valor? Quais os híbridos e inexplorados territórios de que faremos o nosso futuro?
Publicado no Jornal "METRO" em 7-Out-09.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A aposta acertada

O sector da energia tem vindo a mudar gradualmente em todo o Mundo dando expressão à necessidade de mudarmos o nosso paradigma energético. Esta alteração trará consequências a diversos níveis, desde o nosso papel como agentes deste sistema (passarmos de consumidores para sermos também microprodutores), a novas formas de transporte sustentável (o uso de electricidade como força motriz dos nossos veículos) e ao papel das novas redes de transporte de energia (redes inteligentes que possibilitarão outros usos diferentes dos actuais). Portugal importa mais de 85% das suas necessidades energéticas e não tem reservas de combustíveis fósseis. Como responder as estas ameaças para o nosso desenvolvimento económico nesta era de globalização? Continuando a implementar acções que têm vindo a ser desenvolvidas nos últimos anos como o programa de desenvolvimento das energias renováveis e o programa de apoio à microgeração. Sabendo que a aposta nas energias renováveis poderá gerar mais de 20 mil postos de trabalho altamente qualificados entre 2007 e 2015, que já levou à instalação em Portugal de empresas de matriz tecnológica nesta área e, tem permitido o desenvolvimento de centros nacionais de competência nesta área de reconhecido mérito internacional, não deverá ser este o caminho que deveremos querer para o nosso País? Reduzir a nossa dependência energética? Sustentar o desenvolvimento da nossa economia numa matriz mais tecnológica, criando emprego qualificado? Este futuro não vai esperar por indecisões no presente. Publicada no Jornal "Metro" de 28-Set-2009

sábado, 3 de outubro de 2009

PuraMente #31 - Know How

Nome: "Know-How"


Autor: Ram Charan


Data: 2007 Crown Business (original) - Actual Editora (edição portuguesa)

 

Frase: "Precisamos de líderes que saibam o que estão a fazer"

 

Palavras Chave: Know-how; Competências; Discernimento; Sistema Social; Reposicionamento; Mudança contínua


Apreciação: ***

 

A curiosidade em torno de "Know-how" era grande, sobretudo depois da recente visita de Ram Charan a Portugal e logicamente também de toda a fama e reconhecimento de que o autor goza. Charan é aliás considerado por Stephen Covey (autor de "7 habits") como o "Michael Porter do século XXI". Este é um livro supostamente sobre liderança, mas acaba por pretender tocar num largo espectro de assuntos, o que lhe retira acutilância e até pertinência. O resultado final é algo difuso e desequilibrado, existindo capítulos interessantes e outros com muito pouco "sumo".

O livro está dividido em nove capítulos. No primeiro deles, o autor explica o que entende por "Know-how", que define como "os motivos ocultos que conduzem os líderes ao sucesso ou ao fracasso"; ou seja o que é necessário fazer e ser, para conduzir um negócio. Esse é um texto interessante, que merece atenção. Nos oito capítulos seguintes descrevem-se as oito competências essenciais do "know-how". E é aqui que o livro se apresenta mais volátil. Alguns capítulos aportam valor, como o relacionado com o posicionamento do negócio (de longe a melhor parte do livro) ou o da definição de objectivos. Mas há outros, como "Identificar a mudança externa" ou "Como se fazem líderes" que acabam por não ser mais do que um conjunto de lugares comuns. Todos os capítulos estão polvilhados de exemplos verdadeiros, mas de pertinência variável. No final do livro aparece uma carta a um futuro líder e um resumo das oito competências de "know-how", ambos dispensáveis.

No seu conjunto, o livro é uma mais valia sobretudo para os que lêem relativamente pouco e aos mais iniciados no percurso da gestão. A mensagem que as competências de liderança são o produto de uma construção e que o sucesso nunca é definitivo, passam de forma segura. Não deixa é de "saber a pouco", tratando-se de uma obra escrita por Ram Charan.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado em 25 de Agosto de 2009 no Jornal de Negócios





sábado, 26 de setembro de 2009

PuraMente #30 - The Power of Less

Nome: The Power of Less
Autor: Leo Babauta
Data Original : Julho 2009
Frase: “Choose the essential and cleanout the rest – do more doing less”
Keywords: Focus; Lifestyle; D-stress; Effectiveness; start small; Log; Limit;
Apreciação: ****
O primeiro livro de Leo Babauta, conhecido bloguista do “Zen Habits”, não é um memorando teórico e fundamentalista sobre a vida num estado zen – é antes um manual de como compatibilizar vidas com projectos e objectivos em excesso, melhorando a eficácia e a qualidade de vida.
A obra parametriza o mundo actual como aquele onde cada um tem mais compromissos, tarefas, metas e ocupações, com o mesmo tempo disponível, conduzindo a um estado de stress, pouca eficácia e constante salto de tema em tema, de mail em mail, de reunião em reunião, raramente concretizando efectivamente aquilo a que se propunha, ao que era necessário.
O autor propõe uma simplificação, num modelo que sumariamente se mecaniza em 6 princípios essenciais, onde menos é mais – realizando menos maximiza-se eficácia e resultados. A resposta passa por um processo que se inicia com um Plano de Desenvolvimento Pessoal, que procura responder a perguntas como “ Quais são os objectivos de longo prazo?”, “Quais são as prioridades”, ou “O que traz mais valor para a minha vida” e que depois é sub composto em objectivos, subdivididos em tarefas. O processo de simplificação passa por criar limites em todas as áreas - sobretudo as menos relevantes – conduzindo a um processo de escolha. A este processo de simplificação e escolha junta-se um outro, de enfoque em cada uma das tarefas e projectos que se escolheu fazer em cada dia, em cada mês, adicionando rotinas para um posto de trabalho zen, uma casa ordenada, uma condução eficaz e uma verificação de mail regrada.
Leo Babauta transpôs para um modelo um conjunto de princípios óbvios mas nem sempre respeitados, juntando-lhe uma mão cheia de novidades criativas que, seguidos com rigor mas critério, conduzirão certamente a melhores resultados e a uma melhor vida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Colar Cartazes

Foto: Luís Ferreira

Este Setembro chegou maduro; no ar pesado paira o travo intenso do combate político. O poder é fascinante! E um grande mercado. As eleições um profundo oceano vermelho, cada vez mais competitivo e feroz. Com um produto mau, vendedores desacreditados e cada vez menos consumidores, as receitas ressentem-se. Não será só pela crise. Pelo menos não da mais palpável, da financeira e global; talvez da mais oculta e dolorosa, a interna – aquela que se revela na deterioração de valores, na ausência de rumo agregador, na falta de solução inspiradora para a nação. Enfim, no "medo de existir".

No meio de tanta neblina, será possível afastarmo-nos das “nano-mini-micro” disputas que têm saturado os dias e, ousando diferente, concentrarmo-nos em inovação de valor? Isto é, numa clara mas robusta proposta de desenvolvimento para o país, com tanto de ousado quanto de inspirador?

Oferecendo ao debate novos e úteis elementos, os argumentos estéreis destinados a produzir “sound bites” seriam substituídos por ideias e opções de desenvolvimento e respectivos planos de acção devidamente detalhados (no tempo e nos custos).

Enquanto a grande maioria dos políticos apenas sabe “colar cartazes” outros (poucos) conseguem mover multidões. Estes despertam, inspiram e insuflam a sociedade de ar fresco, marcando novos rumos. Isso sim. Seria juntar utilidade e benefícios aos clientes – afinal todos nós –, construindo um novo oceano azul na política.

Publicada no Jornal "Metro" em 23-Set-2009

Legislativas (*)

A poucos dias das eleições, confesso que há muito que me resignei politicamente. As expectativas que tenho acerca do que sairá do próximo sufrágio são tão reduzidas que representam apenas uma esperança – sempre a última a morrer –, mas pouco mais do que isso. É que apesar de algumas diferenças programáticas aqui e acolá, nas grandes decisões, o próximo governo, provavelmente, não revolucionará nem reformará. De resto, um dos problemas que a democracia portuguesa enfrenta neste momento é a irrelevância política a que os governantes estão destinados, nomeadamente em face dos nossos compromissos europeus. E que, relembro, tenderão a acentuar-se a partir de 2013, quando Portugal passar a ser contribuinte líquido (!) da União Europeia. Contudo, ainda estamos em 2009. E, no presente, temos um país que não mexe. Um país que não progride. Temos um país profundamente desigual, em que 58% dos agregados familiares ganham menos de 13.500 euros por ano e que são o reflexo da nossa falta de produtividade e competitividade. Mas a culpa é nossa e de mais ninguém. Portanto, ao próximo governo peço apenas uma coisa: libertem o país! Abaixo com a burocracia. Abaixo com a rigidez das leis. Abaixo com a incompetência dos tribunais. Abaixo com a má gestão dos dinheiros públicos. Abaixo com os mil e um impostos. Abaixo com os subsídios para quem não quer trabalhar. Para a frente Portugal! Enfim, esta é a minha ténue esperança. (*) Publicado no jornal “Metro” a 24/09/2009.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A bolha dos bónus vai rebentar?

O actual sistema de compensação dos executivos de topo tem por base a teoria da agência (muito em voga nos anos 90), segundo a qual quando uma pessoa (principal) incumbe a outra pessoa (agente) a prestação de serviços, envolvendo a delegação de poder de decisão, existe razão para acreditar que o agente nem sempre vai agir no interesse do principal, mas sim na tentativa de maximizar o seu benefício próprio. Os principais conflitos discutidos nesta teoria respeitam ao empenho dos gestores, ao controlo dos gestores sobre os bens da empresa e a uma atitude face ao risco diferente da assumida pelos accionistas. Os gestores assumem uma grande responsabilidade perante os accionistas, pelo que deveriam receber prémios relacionados com o retorno das acções, opções sobre acções e remuneração indexada a indicadores de desempenho. Assim, assistimos nos últimos anos à distribuição de incentivos generosos, numa cultura tão insaciável que observámos os directores da seguradora AIG, salva da falência pelo Estado, a reclamarem o direito aos seus prémios exorbitantes. Na cimeira do G20, que decorrerá nos dias 24 e 25 próximos em Pittsburgh (EUA), pretende-se chegar a um acordo quanto à definição de normas globais para limitar os prémios pagos na banca. A este respeito, espera-se que haja um confronto entre a posição da Alemanha, França, Reino Unido e outros países europeus e a posição dos EUA que hesitam em definir níveis de compensação individuais.
Susana Peixoto
Docente do IDEP
Artigo publicado no METRO, em 22/09/2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não queremos mais!

Muitos sinais estão aí à vista de todos para quem os quiser ver: o consumidor mudou!
Há quem diga que tal é uma consequência directa da recessão e da crise de confiança que terá impactos duradouros nos comportamentos dos consumidores. Outros há, que consideram que tais alterações são devidas à evolução natural do consumidor nas sociedades avançadas. Nesta perspectiva, estes consumidores estarão num estádio avançado de maturidade, levando a que o seu consumo seja muito mais ponderado e consciente, de um ponto de vista económico, social ou ambiental.
Seja como for, a verdade é que quando se pergunta aos consumidores dos países ricos se querem consumir mais, a resposta é “Não!”. Quando se olham os números da evolução das vendas de retalho na Europa e nos Estados Unidos a conclusão é evidente: existe uma diminuição anual no volume de vendas desde 2007 que se tem vindo a acentuar. Algumas empresas foram capazes de ler estes sinais e traduziram-nos em acções com vista a captar um mercado que teima em encolher. Para o fazer, as empresas terão que estar atentas aos seus consumidores, actuais e potenciais, por forma a conseguirem identificar necessidades não atendidas ou frustrações existentes.
Este exercício irá permitir identificar novas oportunidades de crescimento através da segmentação de perfis de clientes não endereçados e de necessidades não cobertas no modelo de negócio actual...mesmo que estes sejam os clientes que nos dizem: “Não queremos mais!”

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Marketing e as eleições

O Marketing Político é, hoje, uma ciência... e é o momento certo para dele falar! Se observarmos à volta, as razões estão à vista: a verdade é que alguns dos nossos candidatos locais bem podiam aprender um pouco mais sobre esta ciência... Basta ver um desses cartazes que se espalham pelas nossas freguesias! Comecemos então por uma pequena lição: em primeiro lugar definir o que é Marketing Político. Sintetizando as definições de autores de referência, como Jennifer Lees-Marshment, o Marketing Político pode ser visto como comunicação/informação que tem por fim influenciar positiva ou negativamente as ideias do eleitor sobre propostas, candidatos, governos... Num sentido mais lato, e mais exacto também, marketing político não é, contudo, somente comunicação, como na definição acima pode parecer: é, mais que isso, criar e ajustar os “produtos” (medidas governamentais...) às necessidades da população para que esta fique e se sinta, efectivamente, melhor servida. Para uma pequena análise das autárquicas, não necessitamos ir tão longe quanto o marketing político na sua totalidade. Basta-nos ficar pela Comunicação e Vendas para saber que muito há a melhorar, a começar pela “embalagem”. Das fotos dos candidatos – muitas, verdadeiramente anedóticas! - aos slogans indecifráveis ou vazios, podemos ver de tudo. Já na vertente comunicação, os candidatos às legislativas não estão mal de todo... mas se pensarmos no marketing político na sua real abrangência... então tudo parece ainda por fazer.

As Empresas também Sonham

O poeta português António Gedeão, no seu poema “Pedra Filosofal”, chegou a uma verdade profundamente ligada à natureza humana, a de que “O Sonho Comanda a Vida”. As empresas e as suas equipas também precisam de ter um sonho partilhado por todos os colaboradores; que os une, que os faz ter um caminho comum e que os impulsiona a unir esforços, trabalhar e realizar. Se uma empresa não tiver esse sonho as pessoas não se mobilizam em torno da sua realização, mais, não geram energia positiva e vontade para superar as dificuldades melhorando constantemente o seu desempenho. Esta linguagem algo literária tem uma tradução para a linguagem empresarial; o Sonho chama-se Visão e contém normalmente o que a organização quer ser e ainda não é. A uma visão está associada uma Estratégia (a forma de chegar ao sonho) e Valores (conjunto de princípios que orientam o comportamento dos colaboradores no desempenho das suas funções). A qualidade do sonho é determinante para o desempenho da empresa, se este for injusto (apenas satisfaz alguns colaboradores e/ou accionistas) as pessoas não aderem ao sonho e não dão o seu melhor. Todos nós conhecemos empresas de que gostamos e onde não nos importaríamos ou gostaríamos de trabalhar e outras de que nem queremos ouvir falar. A responsabilidade de criar este sonho é da administração. Definir o sonho para uma empresa é construir a sua base. Empresa que não Sonha não viverá muito tempo. António Jorge Consultor em Estratégia, Marketing e Vendas Publicado no Jornal Metro do dia 14/09/09.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma questão de honra

Durante a idade média a Igreja vendia as chamadas indulgências, que permitia aos pecadores chegar ao reino dos céus mediante uma doação monetária. Por alto, esse é o conceito da taxa fixa que muitos defendem como último recurso para tentar lucrar com o download ilegal - o utilizador paga uma determinada quantia mensal e durante esse mês tem uma "amnistia" para as suas actividades.

Apesar de estar longe de ser uma solução livre de problemas - desde logo o dinheiro iria certamente para aqueles que menos precisam dele - os artistas que com ou sem pirataria vendem milhares de unidades - é uma solução que pode ser interessante caso seja equilibrada; nem uma mensalidade muito baixa de modo a que as editoras não se sintam defraudadas, nem tão alta que afaste potenciais clientes dispostos a aderir a este "sistema de honra". E não podemos esquecer aqueles que compram os discos e frequentam concertos!

Uma forma eficaz de incentivar a compra seria criar algo no mesmo formato que um cartão de descontos de um supermercado, em que uma determinada percentagem de cada compra seria descontada na mensalidade seguinte. Isto não só permitia distribuir as taxas de uma forma mais equilibrada, como devolver algo aos que de facto "compram se gostarem" ou suportam economicamente a banda a ir aos seus concertos.

Num mundo imperfeito são raras as soluções perfeitas e ainda menos a que têm sucesso. Mas qualquer tentativa é melhor que a forma como a indústria lida, actualmente, com o download ilegal e quem o pratica.

Luís Silva
Crítico musical

Públicado no jornal Metro do dia 7 de Setembro

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Regressar lentamente

Foto: Luís Ferreira
Setembro é mês de regressos. Enquanto voltamos a povoar os “sítios de sempre”, reencontramos os “amigos do costume”. Ainda que um pouco melancólica, regressar é uma ideia feliz e enraizada em cada um de nós. Quem não gosta voltar ao aconchego do ninho? Ao porto de largada? À cidade de despedida? Em certa medida é certeza do caminho andado; até do dever cumprido.
São conceitos fortes que o marketing apodera: das campanhas de “regresso às aulas” às ajudas para voltar ao trabalho, regressando, também, as modas com as cores e as formas da estação. Neste vai-e-vem construímos expectativas, criando espaço para (novos) consumos.
“Slow down” (abrandar) é uma tendência em franca expansão. O “slow movement” ganha adeptos, explorando maneiras ecologicamente sustentáveis de pensar, viver e interagir na Comunidade Global. São distintas as formas onde se revela: é provável vermos inscrito em menus “slow food”, mas o seu âmbito alarga-se a todo o sistema alimentar (veja-se o renascer das pequenas hortas familiares); surgem “slow books” – pela redescoberta do prazer da leitura – e “slow travels” – viajar fazendo parte da vida local, ligando-nos às gentes e aos sítios; nesta senda, eclodem “slow cities”, burgos onde o espaço e o tempo comuns são fruídos de modo particular – “slow way of life”.
Não se confunda a descontracção das propostas com resignação. Pelo contrário, exigem maior identificação connosco e com o meio que nos rodeia, regressando ao conceito de sustentabilidade. Esta “filosofia de vida” surge em reacção à compressão que a globalização vem forçando no tempo e no espaço. Um Mundo integrado e plural tem estes paradoxos.
Publicado no Jornal "Metro" em 3-Set-2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Governo a Mais



Está instalada mundialmente a tendência de os governos serem mais influentes. É verdade que o grau de intervencionismo estatal tem um carácter cíclico, mas não é uma boa notícia.

Espera-se de um Estado moderno a garantia da segurança (nas suas várias dimensões), da justiça e da educação. As últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 80, caracterizaram-se por uma desregulamentação e liberalização, com o Estado a centrar-se nas áreas em que não podia, efectivamente, ser substituído. Como consequência, viveu-se até ao início deste século um período de progresso económico e social sem precedentes, em que cada indivíduo passou a ter mais oportunidades para concretizar e desenvolver o seu potencial.

Uma série de eventos, como o 11 de Setembro e a actual crise económica, têm levado os cidadãos a admitir e até a exigir maior intervenção do Estado. Os políticos, que sabem que "Poder gera Poder", aproveitam para ganhar terreno. Definem cada vez mais regras e limites e até decidem caminhos de evolução tecnológica, algo que deveria pertencer à sociedade civil. A recente opção a nível mundial de apoio aos automóveis híbridos, sem grandes discussões sobre qual a melhor solução, é um exemplo dessa influência.

A História dos últimos 250 anos diz-nos que quando o Estado desempenha funções em excesso na economia e sociedade, o progresso ressente-se. A igualdade de oportunidades para empresas e indivíduos é comprometida quando há decisões meramente políticas e não se avalia a eficiência e o mérito. Por outro lado, Estados mais fortes tendem para o proteccionismo, sentimentos nacionalistas e maior probabilidade de conflitos. Ou seja, é governo a mais.

Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Publicado no jornal Metro em 1 de Setembro de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PuraMente #29 - Cultura e Organizações



Nome: "Culturas e Organizações"

 

Autor: Gert Hofstede

 

Data: 1991 (original) - 2003 - Edições Sílabo (edição portuguesa)

 

Frase: "Mesmo após ter sido informado, o observador estrangeiro é susceptível de deplorar certas tendências da outra sociedade"

 

Palavras Chave: Atitudes; Valores; Cultura; Programação Mental; Relativismo Cultural;

 

Apreciação: ****

 

"Culturas e Organizações" é uma obra já razoavelmente conhecida, sobretudo no ambiente das grandes multinacionais. O livro tem como principal objectivo identificar e descrever a diversidade cultural entre os diferentes países. Utilizam-se quatro grandes referenciais segundo os quais cada país é classificado, construindo-se uma matriz cultural nacional que, apesar de simplificada, é sólida e pertinente. As quatro dimensões utilizadas pelo autor, Geert Hofstede são: Distância hierárquica; Individualismo; Masculinidade; Tolerância à incerteza. Posteriormente abre espaço a uma quinta dimensão: A orientação para o longo prazo.

Hofstede publicou o seu primeiro estudo sobre estas matérias em 1980, depois de ter tido acesso a um vasto conjunto de dados sobre os trabalhadores da IBM, uma das multinacionais presentes em mais países naquela época. Analisou estatisticamente esses dados e sistematizou-os, construindo o "corpo" da sua teoria.

O livro começa com um guia de leitura e divide-se depois em quatro partes: Definições conceptuais; Culturas nacionais; As consequências organizacionais; Implicações práticas. Naturalmente, a segunda parte é a mais interessante.

Tal como sucede em muitos dos livros mais recentes, "Culturas e Organizações" é complementado por um sítio na internet (www.geert-hofstede.com) onde se podem visualizar graficamente os resultados de cada país. São também incorporadas actualizações aos estudos. Num outro sítio, www.clearlycultural.com, podem observar-se as diferenças entre os países através de mapas-múndi.

Este é um livro importante para quem lida com ambientes multiculturais, mas igualmente útil na compreensão da nossa própria matriz cultural. Não é um livro "fácil" ou rápido de ler, dado o seu carácter conceptual, nisso podendo aí residir a maior crítica. Porém, o esforço decerto compensará.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 11 de Agosto de 2009



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

PuraMente #28 - The 80/20 Principle



Nome: The 80/20 Principle

 

Autor: Richard Koch

 

Data: 1997 - Nicholas Brealey Publishing

 

Frase: "The secret of achieving more with less"

 

Palavras Chave: Realocação; Assimetria; Insight; "Productive laziness"; Hedonismo; "Vital Few";

 

Apreciação: ****

 

O princípio 80/20 é um conceito reconhecido e enunciado frequentemente. Mas, provavelmente, a maioria não terá lido este livro de Richard Koch, que em 1987 tentava provocar uma revolução na forma de pensar de empresas e indivíduos. Desde Pareto (finais do séc. XIX) que se constata a existência de assimetrias e de desequilíbrios dentro das populações estatísticas. O mundo não é linear, no sentido de que inputs e outputs não se relacionam de forma proporcional. O princípio 80/20 diz que "numa população, algumas coisas são mais importantes do que outras; Uma minoria de causas leva à maioria dos efeitos". Trata-se de um conceito simples, mas poderoso: é preciso identificar os 20% e realocar recursos. Logicamente o 80/20 não é um número mágico que tenha sempre que ser respeitado, mas antes um paradigma de reflexão e análise.

"The 80/20 Principle" divide-se em quatro partes: Explicação do princípio 80/20; Aplicação nas empresas; Aplicação pelo individuo; Extensão à sociedade e futuro. A primeira parte é, de longe, a mais importante. Ao longo dos capítulos aparecem referências a outros conceitos, que nos transportam para obras como as de Gladwell. As ideias "core" de Blink, Tipping Point e Outliers estão em "80/20"...

O livro acaba por surpreender em três dimensões: em primeiro lugar, pelo amplo espectro de temas em que o "80/20" é relevante; em segundo, porque consegue alterar paradigmas na mente do leitor; e, finalmente, porque se trata de uma obra de 1997, sobre um conceito enunciado há mais de 120 anos que permanece perfeitamente actual e universal.

O livro passa uma mensagem crucial, a de que é preciso garantir tempo disponível para pensar, sem o qual não é possível seguir um processo dialéctico constante de melhoria.
O tempo gasto neste livro fez parte dos 20% que contribuem para 80% do desenvolvimento pessoal.


Filipe Garcia

Economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

Artigo publicado no Jornal de Negócios em 28 de Julho de 2009